Globo culpa videogame pela tragédia de Realengo

GTA ou "Como ser um criminoso passo-a-passo", segundo a mídia.

Desde que aconteceu a Tragédia em Realengo (onde um ex-aluno de uma escola entrou atirando nos estudantes) a grande mídia vem criando inúmeros factóides (histórias sem fundamento). A primeira surgiu no mesmo dia do ocorrido, tentando fazer uma ligação de Wellington com religiosos extremistas. Diversas notícias afirmavam que a carta deixada pelo rapaz continha provas deste envolvimento.

Isso acontece porque o jornalista tem acesso direto a dados policiais sigilosos, e repercute isso sem a menor cautela ou responsabilidade.

O fato da polícia estar investigando uma suposta ligação do rapaz com grupos religiosos quer dizer unica e somente que eles suspeitam disso. Polícia suspeita de todo mundo, estão só fazendo o trabalho deles. O que não pode é o jornalista ficar se baseando somente em fontes oficiais, e o que é pior, se aproveitando de contatos para espalhar fofoca.

Tanto é assim que a carta foi divulgada depois e nada foi confirmado. E, ao invés de assumir o erro, os textos foram “atualizados” . Hoje já não encontrei nenhum dos que eu tinha lido no próprio site da Globo no dia da tragédia!

Jogos

Bom, não sei como está a repercussão disso na televisão porque não tenho acompanhado, mas eis que no último sábado (09/04) o globo publicou uma matéria relacionando a tragédia de Realengo com jogos eletrônicos.

Leia a matéria do globo: http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/04/09/wellington-tinha-interlocutor-com-quem-falava-sobre-religiao-jogos-eletronicos-de-guerra-924198258.asp

Sempre que acontece um caso de violência aparentemente inexplicável começam a culpar os jogos. RPG= Satanismo. Parece familiar? O cara jogava videogame? Sim. Também via televisão, assistia a filmes de ação e provavelmente viu o último BBB.

O ser humano não é uma máquina. Milhares de fatores influenciam o comportamento de uma pessoa. Até que ele tomasse uma decisão desesperada como aquela muita coisa aconteceu.

Como eu citei no último post, a causa mais provável era o rapaz ter problemas pessoas e/ou ter sofrido bullying na infância. Cada vez mais esta tem sido e provavelmente será a principal explicação no noticiário.

O fato é que a explicação para este tipo de tragédia é multidimensional: não existe um ‘culpado’. São dezenas de fatores que foram se multiplicando e resultaram naquela situação.

- Ah mas isso não é desculpa para esse tipo de assassinato.

 

Cuidado mesmo ao jogar games aparentemente inocentes

Talvez não seja se apenas levarmos em conta um único fator. Eu mesmo já passei por situações de bullying na escola nem por isso irei ter este tipo de atitude. Mas a partir do momento que você passa a infância apanhando, tem pais ausentes e ganha uma porcaria de salário para trabalhar feito um condenado (exemplo), não basta simplesmente esquecer do passado. Você passa a culpar o passado pelos seus problemas. Cada aspecto negativo da sua vida passa a ter relação com todos os outros, e surge uma situação em que é impossível sair do buraco onde você se encontra.

Ou melhor, para sair dessa vida só acabando com o problema inicial. Ferrando a escola onde você passou toda a infância apanhando. Terminando com a própria vida. Geralmente as duas coisas. Foi o que aconteceu. Neste link há alguns outros casos parecidos (clique aqui).

Twittaço

A argumentação do globo e o fraco conhecimento do autor da matéria com o tema (jogos) foi tão ridículo que gerou muita repercussão. Renato Bueno, do Kotaku, fez um texto indignado com o acontecido. O assunto foi tão comentado que os internautas passaram a ridicularizar as declarações do jornal por meio da tag #videogamemata no twitter.

#videogamemata: Clique aqui para acesar.

No texto, os autores afirmam que, nos jogos eletrônicos GTA e Counter-Strike, “acumula mais pontos quem matar mulheres, crianças e idosos”. O problema é que em nenhum desses jogos sequer há sistemas de pontos, idosos ou crianças. Além disso, matar transeuntes/inocentes nestes dois jogos tem efeito imediato sim, porém negativo – em GTA, por exemplo, a polícia passa a perseguir o personagem do jogador, inclusive com helicópteros. Trecho da carta do Regames à globo.

Notadocomprimido: Fico feliz em saber que a população cada vez menos acredita na imprensa. Ao mesmo tempo triste, por uma imprensa tão ruim. Ficamos por aqui, abraço!

Tragédia no Rio: Jovem invade escola e atira contra alunos

Publicada em 07/04/2011 às 11h12m em O GloboCBN. Via VioMundo.

RIO – Um ex-aluno invadiu, na manhã desta quinta-feira, a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, e fez vários disparos, que teriam atingido mais de 30 alunos. Segundo o relações-públicas do Corpo de Bombeiros, coronel Evandro Bezerra, treze pessoas morreram. O major Machado, do 14º BPM (Bangu), afirmou que há ainda 22 feridos em estado grave apenas no Hospital Albert Schweitzer, também em Realengo, a maioria baleada no tórax e na cabeça. O atirador foi identificado como Wellington Menezes de Oliveira. Ele foi baleado na perna e depois se matou. Segundo Fernandes, fiscal do Detro, que fazia uma operação na região, Wellington deixou uma carta explicando as razões do atentado.

A carta ainda não foi divulgada, mas segundo o comandante do 14º BPM, Djalma Beltrame, o conteúdo teria características fundamentalistas.

Segundo a secretária municipal de Educação, Claudia Costin, o ex-aluno teria visitado a escola há um ano. Por isso, ela acredita que o crime desta quinta-feira teria sido planejado.

O Detro estava fazendo uma operação de combate ao transporte clandestino, com três carros, nas proximidades. Os fiscais contavam com o apoio de policiais do Batalhão de Polícia Rodoviária.

- Um garoto baleado no rosto chegou pedindo ajuda e contando que um cara entrou atirando na escola. Uma equipe socorreu o menino, e outras duas se dirigiram à escola. Chegando lá, o sargento Alves abordou o atirador, que estava no segundo andar, subindo para o terceiro. O policial deu um tiro na perna do criminoso e mandou se render. Em seguida, o homem deu um tiro na cabeça – disse Fernandes.

 

Feridos chegando ao hospital

O prefeito Eduardo Paes e a chefe de Polícia Civil, delegada Martha Rocha, estão no local, e o secretário estadual de Educação, Wilson Risolia, e de Saúde e Defesa Civil, Sérgio Côrtes, estão a caminho. No Hospital Albert Schweitzer, foi montada uma sala para atender pais e parentes das vítimas que chegam em estado de choque.

O gari Dorival Porto Rafael, que se encontrava na escola no momento do tiroteio, contou que o homem armado entrou em uma sala da oitava série, onde cerca de 40 alunos assistiam à aula de português.

- Ele entrou na escola dizendo que daria uma palestra. Foi para uma sala da oitava série, que fica no primeiro andar, e sem falar nada tirou uma pistola da bolsa e começou a atirar. A polícia chegou, e ele tentou subir para o segundo andar, quando viu que estava cercado, deu um tiro na cabeça. Nenhum funcionário pode se aproximar, apenas a polícia está no local – contou em entrevista por telefone.

Uma multidão de pais e curiosos cerca a escola. A Rua General Bernadino de Matos, onde fica a unidade de ensino, está fechada. Há muito choro e desespero porque os familiares não têm informações sobre o que aconteceu. Durante a confusão, muitas crianças fugiram.

Maria do Carmos Pereira, que mora perto da escola, disse à GloboNews TV que ouviu muitos disparos:

- Foram muitos tiros. Não sei precisar quanto tempo, mas acho que uns cinco minutos. Há muitas ambulâncias e carros da polícia aqui – afirmou.

Outro vizinho, Marcelo Alves, disse que viu crianças com tiros na cabeça:

- Estava chegando em casa por volta de 8h10m e vi a confusão em frente à escola. Vi várias crianças, entre dez e 15, saindo baleadas. Pelo menos três eu vi que estavam com tiro na cabeça. Posso dizer que parecia que estavam mortas. E como a ambulância estava longe, as crianças estavam saindo nos braços dos pessoas e dos policiais. Muitos foram pro hospital no carro da polícia e em carros particulares – disse Marcelo Alves, segurança de 50 anos que mora a cerca de 100 metros da escola.

A doméstica Jane, de 50 anos, estava em casa a poucos metros da escola quando ouviu dezenas de desparo, por volta das 8h. Correu até a escola imediatamente. Muitos pais de alunos e policiais entravam na escola:

- Foi uma cena de horror. Vi pelo menos cinco crianças mortas e várias feridas. Eu mesmo carreguei o corpo de duas crianças mortas, com tiros na cabeça. O cara só deu tiro na cabeça, para matar. Eu vi um homem jovem, mulato, bem vestido até, que segundo as outras pessoas era o assassino. Ele estava na escada, com o rosto para o chão. Acho que estava tentando fugir para o segundo andar quando foi morto.

PS do Viomundo: As duas últimas décadas têm testemunhado um tipo de ataque que se tornou uma espécie de marca registrada da violência nos EUA: massacres em instituições de ensino. Os maiores acontecerem em 1999, na Columbine High School, e em 2007, na Universidade Virginia Tech, com dezenas de mortos.

Notadocomprimido: É isso aí, estamos chegando ao primeiro mundo. Há anos aumentam os casos de bullying nas escolas e ninguém faz nada. Não só isso, a própria escola é uma instituição opressora por definição. Um barril de pólvora que uma hora ia estourar. Com certeza nesta carta ele irá falar sobre algum problema pessoal que passou lá dentro e se sentiu oprimido. Violência só gera violência. A bomba estourou.

Nota de esclarecimento dos moradores de favela de Niterói

Nós, moradores de favelas de Niterói, fomos duramente atingidos por uma tragédia de grandes dimensões. Essa tragédia, mais do que resultado das chuvas, foi causada pela omissão do poder público.  A prefeitura de Niterói investe em obras milionárias para enfeitar a cidade e não faz as obras de infra-estrutura que poderiam salvar vidas.  As comunidades de Niterói estão abandonadas à sua própria sorte.

Enquanto isso, com a conivência do poder público, a especulação imobiliária depreda o meio ambiente, ocupa o solo urbano de modo desordenado e submete toda a população à sua ganância.

Quando ainda escavamos a terra com nossas mãos para retirarmos os corpos das dezenas de mortos nos deslizamentos, ouvimos o prefeito Jorge Roberto Silveira, o secretário de obras Mocarzel, o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula colocarem em nossas costas a culpa pela tragédia. Estamos indignados, revoltados e recusamos essa culpa. Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade.

O Haiti é aqui – em São Paulo

Por Eduardo Guimarães, do Cidadania.com

Não, a foto acima não é do Haiti. O que você vê é a população de uma das cidades mais ricas do mundo revoltada com uma tragédia humanitária que emula em vários aspectos a do país caribenho.

Dá medo viver hoje em São Paulo. A cidade mais rica do país é, também, a que se tornou uma selva desconhecida onde tudo pode acontecer. Até você morrer afogado, ser soterrado, ter seus bens destruídos em questão de minutos, adoecer por contaminação de enxurradas de água infectada com excrementos e todo tipo de material infeccioso…