
Feliz Ano Novo pessoal!
É, dei uma sumida aqui no blog. Fui para Madrid passar o Natal, viajei para Barcelona reencontrar velhos amigos e passar a virada do ano, mas já estou de volta. Como foram as suas festas de final de ano?
Agora é o tempo chave. O intercâmbio está terminando, ainda não contei da minha viagem pra rússia, tenho centenas de trabalhos e responsabilidades para terminar esta semana e ainda tenho que comprar presente pra todo mundo e fazer 1 ano de europa caber em duas malas de 20 quilos.
Mas ok, antes de tudo isso, só gostaria de avisar que o meu relato sobre a viagem a Moscou não foi esquecido. Acontece que ele foi aprovado pelo Conselho Editorial da nossa parceira Revista Vírus Planetário, o que significa que estará disponível, impresso, na próxima edição da revista. Darei mais informações em breve!
Voltando ao post. Como primeiro texto do ano, gostaria de aproveitar a onda e ter uma conversa séria sobre algo que atinge a todos nós. Uma questão que se atira sobre nós quando estamos deitados, sem sono na cama, ou ainda numa mesa de bar com amigos. Um conceito que muitos já tentarem definir, e que, no final das contas, é bem simples:
Liberdade.


Eu tenho 23 escravos (a média-geral do site é de 25).
É isso mesmo, caro senhor feudal. Não, não fiquei louco. O fato é que, apesar de vivermos numa sociedade que se auto intitula “livre”, convivemos e, mais do que isso, financiamos diariamente a escravidão e o trabalho sob condições sub-humanas – sem perceber.
Baseado em informações geográficas e comportamentais, o site Slavery Footprint (algo como “pegada da escravidão”) diz para você quantas pessoas são exploradas para que você tenha seu padrão de vida. Além disso, o site mostra onde estão essas pessoas e em que ramo elas são escravizadas através de um mapa interativo. Entre outras coisas, o Slavery Footprint questiona o visitante sobre sua alimentação e uso de equipamentos eletrônicos, e com base nessa informação aumenta ou diminnui o número de escravos no final (tudo na base de dados e de relatórios divulgados internacionalmente).
Ficou curioso? visite e faça o teste (em inglês).
Via Vista-se, rede social.

Uma análise das relações entre 43.000 empresas transnacionais concluiu que um pequeno número delas – sobretudo bancos – tem um poder desproporcionalmente elevado sobre a economia global. A conclusão é de três pesquisadores da área de sistemas complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, na Suíça. Este é o primeiro estudo que vai além das ideologias e identifica empiricamente essa rede de poder global.
Nota introdutória publicada por Ladislau Dowbor em sua página: The Network of Global Corporate Control – S. Vitali, J. Glattfelder eS. Battistoni – Sept. 2011.
Um estudo de grande importância, mostra pela primeira vez de forma tão abrangente como se estrutura o poder global das empresas transnacionais. Frente à crise mundial, este trabalho constitui uma grande ajuda, pois mostra a densidade das participações cruzadas entre as empresas, que permite que um núcleo muito pequeno (na ordem de centenas) exerça imenso controle. Por outro lado, os interesses estão tão entrelaçados que os desequilíbrios se propagam instantaneamente, representando risco sistêmico.
Fica assim claro como se propagou (efeito dominó) a crise financeira, já que a maioria destas mega-empresas está na área da intermediação financeira. A visão do poder político das ETN (Empresas Trans-Nacionais) adquire também uma base muito mais firme, ao se constatar que na cadeia de empresas que controlam empresas que por sua vez controlam outras empresas, o que todos “sentimos” ao ver os comportamentos da mega-empresas torna-se cientificamente evidente. O artigo tem 9 páginas, e 25 de anexos metodológicos. Está disponível online gratuitamente, no sistemaarxiv.org
Um excelente pequeno resumo das principais implicações pode ser encontrado no New Scientist de 22/10/2011 (e está publicado a seguir).
(*) O gráfico em forma de globo mostra as interconexões entre o grupo de 1.318 empresas transnacionais que formam o núcleo da economia mundial. O tamanho de cada ponto representa o tamanho da receita de cada uma
A rede capitalista que domina o mundo
Conforme os protestos contra o capitalismo se espalham pelo mundo, os manifestantes vão ganhando novos argumentos.
Uma análise das relações entre 43.000 empresas transnacionais concluiu que um pequeno número delas – sobretudo bancos – tem um poder desproporcionalmente elevado sobre a economia global.
A conclusão é de três pesquisadores da área de sistemas complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, na Suíça
Este é o primeiro estudo que vai além das ideologias e identifica empiricamente essa rede de poder global.
“A realidade é complexa demais, nós temos que ir além dos dogmas, sejam eles das teorias da conspiração ou do livre mercado,” afirmou James Glattfelder, um dos autores do trabalho. “Nossa análise é baseada na realidade.”
Rede de controle econômico mundial
A análise usa a mesma matemática empregada há décadas para criar modelos dos sistemas naturais e para a construção de simuladores dos mais diversos tipos. Agora ela foi usada para estudar dados corporativos disponíveis mundialmente.
O resultado é um mapa que traça a rede de controle entre as grandes empresas transnacionais em nível global.
Estudos anteriores já haviam identificado que algumas poucas empresas controlam grandes porções da economia, mas esses estudos incluíam um número limitado de empresas e não levavam em conta os controles indiretos de propriedade, não podendo, portanto, ser usados para dizer como a rede de controle econômico poderia afetar a economia mundial – tornando-a mais ou menos instável, por exemplo.
O novo estudo pode falar sobre isso com a autoridade de quem analisou uma base de dados com 37 milhões de empresas e investidores.
A análise identificou 43.060 grandes empresas transnacionais e traçou as conexões de controle acionário entre elas, construindo um modelo de poder econômico em escala mundial.
Poder econômico mundial
Refinando ainda mais os dados, o modelo final revelou um núcleo central de 1.318 grandes empresas com laços com duas ou mais outras empresas – na média, cada uma delas tem 20 conexões com outras empresas.
Mais do que isso, embora este núcleo central de poder econômico concentre apenas 20% das receitas globais de venda, as 1.318 empresas em conjunto detêm a maioria das ações das principais empresas do mundo – as chamadas blue chips nos mercados de ações.
Em outras palavras, elas detêm um controle sobre a economia real que atinge 60% de todas as vendas realizadas no mundo todo.
E isso não é tudo.
Super-entidade econômica
Quando os cientistas desfizeram o emaranhado dessa rede de propriedades cruzadas, eles identificaram uma “super-entidade” de 147 empresas intimamente inter-relacionadas que controla 40% da riqueza total daquele primeiro núcleo central de 1.318 empresas.
“Na verdade, menos de 1% das companhias controla 40% da rede inteira,” diz Glattfelder.
E a maioria delas são bancos.
Os pesquisadores afirmam em seu estudo que a concentração de poder em si não é boa e nem ruim, mas essa interconexão pode ser.
Como o mundo viu durante a crise de 2008, essas redes são muito instáveis: basta que um dos nós tenha um problema sério para que o problema se propague automaticamente por toda a rede, levando consigo a economia mundial como um todo.
Eles ponderam, contudo, que essa super-entidade pode não ser o resultado de uma conspiração – 147 empresas seria um número grande demais para sustentar um conluio qualquer.
A questão real, colocam eles, é saber se esse núcleo global de poder econômico pode exercer um poder político centralizado intencionalmente.
Eles suspeitam que as empresas podem até competir entre si no mercado, mas agem em conjunto no interesse comum – e um dos maiores interesses seria resistir a mudanças na própria rede.
As 50 primeiras das 147 empresas transnacionais super conectadas
Barclays plc
Capital Group Companies Inc
FMR Corporation
AXA
State Street Corporation
JP Morgan Chase & Co
Legal & General Group plc
Vanguard Group Inc
UBS AG
Merrill Lynch & Co Inc
Wellington Management Co LLP
Deutsche Bank AG
Franklin Resources Inc
Credit Suisse Group
Walton Enterprises LLC
Bank of New York Mellon Corp
Natixis
Goldman Sachs Group Inc
T Rowe Price Group Inc
Legg Mason Inc
Morgan Stanley
Mitsubishi UFJ Financial Group Inc
Northern Trust Corporation
Société Générale
Bank of America Corporation
Lloyds TSB Group plc
Invesco plc
Allianz SE 29. TIAA
Old Mutual Public Limited Company
Aviva plc
Schroders plc
Dodge & Cox
Lehman Brothers Holdings Inc*
Sun Life Financial Inc
Standard Life plc
CNCE
Nomura Holdings Inc
The Depository Trust Company
Massachusetts Mutual Life Insurance
ING Groep NV
Brandes Investment Partners LP
Unicredito Italiano SPA
Deposit Insurance Corporation of Japan
Vereniging Aegon
BNP Paribas
Affiliated Managers Group Inc
Resona Holdings Inc
Capital Group International Inc
China Petrochemical Group Company
Retirado da CartaMaior

Bar. Bebida. Uma ótima oportunidade para discussão política. Momento ideal para que os ânimos se exaltem e todos manifestem aquilo que estava entalado em suas gargantas. E escutei, dentre diversas coisas, a seguinte frase que me fez refletir sobre várias coisas.
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Internet. Texto. Hora, pelo contrário, de dar asas à imaginação e escrever um pouco sobre o que eu pensei e imaginei na hora e alguns momentos depois (sim, minha mente funciona de modo um pouco estranho às vezes).
Ok, partiremos do pressuposto o exemplo de que, numa suposta sociedade socialista, todos receberiam o mesmo salário. Vou tentar seguir uma linha de raciocínio tendo esta premissa como válida, para descobrir se, afinal de contas, esta frase está – ou não – correta dentro desta perspectiva. Independente de várias outras variáveis que possam ter sido ditas depois ou que possam ser consideradas. Me limito ao fato que me despertou para a imaginação de uma história.
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Mônica, 19 anos, é de classe média e estuda há 1 ano no cursinho para passar no vestibular de Medicina. Sacrificou muitas horas de lazer com amigos e família. Resultado? Passou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Paula, 20 anos, faz cursinho há dois anos, mas não se dedica como Mônica. Vai em todas as festas, falta aula e está sempre adiando os afazeres. Resultado? Não conseguiu passar para a Universidade Pública.
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Voltamos agora à frase inicial. De fato, se de uma hora para outra o socialismo é instituído como forma de governo, e aceitando a premissa de que todos os salários seriam iguais, a mim também parece injusto de que Paula receba a mesma coisa que sua amiga que tanto se esforçou.
Não há o que discutir aqui, é injusto e ponto. Mas, continuemos a história.
Alexandre, 23 anos, também quer cursar Medicina. Sua família não tem dinheiro para pagar cursinho, mas ele estuda há 5 anos por conta própria, dia e noite (quando não está trabalhando). Ele se sacrificou tanto ou, se formos sinceros, bem mais do que Mônica. Resultado? Não conseguiu entrar na Universidade. As contas apertaram, e provavelmente no próximo ano ele não terá mais tempo de estudar…
As coisas já não parecem tão justas assim. O sistema parece meritocrático, mas nem tanto, me parece que depende mais da maneira como o indivíduo é educado (e quanto está disposto a pagar por isto) quanto do esforço individual.
Mas não paremos por aí.
Mônica, 6 anos mais tarde, já está formada. Feliz, ela conseguiu um emprego num hospital privado onde dá plantão 3 vezes por semana e folga aos domingos. Recebe 6.000 reais/mês, o que compensa a sua falta de tempo para lazer e vida pessoal.
Paula, depois de desistir da ideia de entrar numa universidade pública, convenceu seus pais a pagar-lhe uma faculdade particular. Hoje ela tem uma clínica particular onde atende familiares e amigos ricos. Trabalha das 10:00 às 17:00 e folga nos finais de semana. Recebe 5.000 reais/mês.
Alexandre teve que arrumar dois empregos para ajudar seus pais a pagar as contas, e deixou de estudar. Todo ano ele tenta passar no vestibular, mas não consegue. Recebe 700 reais/mês numa fábrica de tecidos e tem um bico como ambulante nos finais de semana.
Ah sim, e nessa história ainda tem o Saulo, filho de um grande empresário que herdou o negócio dos pais. Acaba de terminar sua graduação em administração na Inglaterra, onde conheceu bebidas e prostitutas de todo tipo (e deve lá ter estudado alguma coisa). Um de seus sócios administra a fábrica de tecidos onde Alexandre trabalha. Só neste empreendimento o lucro mensal é de 100.000 reais/mês. Seus rendimentos ultrapassam o meio milhão de reais.
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Os personagens estão um pouco caricatos, mas acho que deu para entender. A argumentação é simples: ainda que se admita o fato de que no socialismo há a mesma remuneração para qualquer tipo de serviço (o que, por diversos motivos, é falso), ainda assim constatamos que a suposta diferença de um salário de gari (900 reais, por exemplo), que supostamente não se esforçou para estudar, para o de um médico iniciante (6.000 reais, por exemplo) é muito menor do que a diferença entre o mesmo médico e um grande empresário que herdou uma empresa e nunca teve que se esforçar ou trabalhar diretamente nela.
Estamos aqui comparando médicos e empresários apenas a título de exemplo, acho que todos já entenderam onde eu quero chegar.
O capitalismo tem um discurso lindo de que todos podem enriquecer. Yes, We Can. Can? Um velho barbudo já havia alertado, há muito tempo atrás, de que não é bem assim. Se você nasce pobre, há 90% de chance de que você morra pobre. A mobilidade social, por mais que seja maior do que no Feudalismo ou diversos outros sistemas, é muito baixa. E não por falta de riqueza sendo gerada. Nunca se produziu tantos produtos, comida, serviços. Revolução Industrial, Revolução no campo… Mas cada vez menos pessoas tem acesso a uma vida de qualidade.
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Precisamos desconstruir o senso comum de que no socialismo todo mundo receberia a mesma coisa e de que é injusto ou desmotivador. Em primeiro lugar, existem centenas de teorias e correntes diferentes. Afirmar qualquer coisa sobre o socialismo, de maneira assim genérica, é simplesmente impossível. Pode-se, sim, fazer algumas ponderações sobre o socialismo real na ex-URSS, por exemplo. Mas mesmo lá havia diferença de salários (saiba mais nesta entrevista com um brasileiro que morou na URSS), só para constar.
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A base de uma sociedade socialista, na visão de alguns dos autores de que eu leio e estudo, poderia ser resumida na frase mais simples de que se tem notícia:
Isto significa que, no MÍNIMO, cada pessoa teria o direito aos seus meios de subsistência. Porque? Simplesmente por ter nascido humano. Simples assim. Direitos de todo cidadão, como, aliás, nossa Constituição cinicamente afirma garantir e os famosos Direitos Humanos, que já foram aprovados na ONU há tanto tempo, afirmam proteger. Comida, moradia, transporte, saúde. Essas banalidades.
Mas agora vem a segunda e mais importante parte. De cada um de acordo com as suas possibilidades.
Existiriam pessoas que trabalhariam menos do que as outras, ou que simplesmente não trabalhariam?
Às que decidissem trabalhar menos horas do que as outras, bem, receberiam menos, ou seriam despedidas. Às que decidissem não trabalhar, teriam seus recursos de subsistência – e só. Justo não?
Mas você realmente acha que alguém não faria absolutamente nada só porque tem comida e moradia? E ficaria fazendo o que, sentado em casa sem fazer nada? Vagabundeando nas ruas? E como pagaria a conta de luz? E o dinheiro para sair à noite?
Quem produz vagabundos é o sistema capitalista, onde trabalhar é uma obrigação e onde a desigualdade é tanta que existem indivíduos vivendo – e muito bem, obrigado – apenas de rendimentos. Porque aí a situação é outra. Uma coisa é não trabalhar e só ter dinheiro para não morrer de fome. Outra, bem diferente, é não trabalhar e ser sustentado às custas de mais-valia alheia ou ainda de papai e mamãe.
Numa sociedade socialista, qualquer um tem acesso ao ensino público de qualidade. Até hoje a Rússia é o país da europa com maior número de diplomados (+informações aqui).
Não existe essa de que numa sociedade socialista os indivíduos seriam acomodados.
Não vou citar novamente o exemplo da ex-URSS e de todos os avanços tecnológicos de que foi responsável para não parecer que este é o modelo de socialismo o qual defendo. Não é. Agora, quem arriscaria me dizer quais são os efeitos negativos de que uma sociedade em que todo cidadão tem direito a comida, trabalho, moradia, transporte e saúde de qualidade? Qual o efeito negativo de uma sociedade em que as pessoas trabalham somente 4 ou 5 horas por dia?
Salas de cinema lotadas?
Filas nas bibliotecas?
Ohh que horror, olha quantos jovens nos parques da cidade!!
A verdade é que o nosso ritmo de vida está completamente errado. Numa sociedade com todos estes direitos realmente garantidos, as possibilidades de inovação e de evolução enquanto seres humanos é ilimitada.
Hoje a produtividade das empresas é enorme. Há muito já não é mais necessário trabalharmos 8 horas por dia 7 dias por semana. Sem fazer absolutamente nada, só deixando as máquinas trabalharem pela gente, podemos ter muito mais tempo de VIDA.
Ser socialista é muito mais do que defender “salários iguais para garis e médicos”. É defender que a profissão de gari já não faz sentido, como, aliás, já não existe em várias partes do mundo. Profissões como cobrador de ônibus, vendedor de bilhetes, cobrador de caixa de supermercado, tudo está se modernizando e cada vez mais se precisa de menos gente para executar estes serviços. Isto deveria ser refletido em melhoria na qualidade de vida da população e no surgimento de empregos mais qualificados. Deveria se refletir em pessoas seguindo a carreira de que gostam e fazendo aquilo que amam – não em desemprego para esta gente que foi substituída por uma CPU.
Um socialista luta por uma sociedade mais justa. Só o que pedimos, no final das contas, são não mais deveres sem direitos, não mais direitos sem deveres, como, aliás, diz uma conhecida canção…
O crime de rico, a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido
À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres
Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional
(A Internacional Comunista, 1871.)

Por Tiago Gillot, do Esquerda.NET
Num espaço de escassos dias, ficámos a saber que Alexandre Soares dos Santos quase duplicou a sua fortuna num único ano e que 1.500 trabalhadores do seu Pingo Doce precisam desesperadamente de ajuda para comer e viver. Entretanto, o novo Governo trata os pobres como reles pedintes e massacra os trabalhadores precários, mas oferece milhões aos amigos no negócio do BPN. Tudo com muita classe, no país das desigualdades e do privilégio dos poderosos.

Os ricos estão mais ricos, enquanto a pobreza aumenta e cada vez mais atinge gente que trabalha mas não ganha o suficiente para viver.
Acumulação e caridade. A fórmula é antiga e a oportunidade da crise apenas a torna mais evidente. O enriquecimento é a exigência dos privilegiados, que sabem que a distribuição de migalhas é uma estratégia eficaz e tem hoje uma janela de legitimidade pelo desespero da maioria. O Governo e o homem que detém a segunda maior fortuna do país têm a mesma intuição, porque têm também, no essencial, o mesmo objectivo: identificam a “emergência social”, sabem que ela precisa de paliativos e evitam a todo o custo falar nas suas causas.
O “Fundo de Emergência Social” da Jerónimo Martins vai “dar” senhas de alimentação e cheques para cuidados de saúde urgentes aos seus funcionários, cujos rendimentos deixaram de ser suficientes para viver; a decisão foi anunciada através duma “Carta Aberta”, mas a operação de marketing não fala dos baixos salários nem de qualquer intenção de os aumentar. O “Plano de Emergência Social” (PES) do Governo prevê, entre outras, a distribuição de refeições aos mais necessitados e a cedência de medicamentos em fim de prazo a quem já nem sequer tem rendimentos suficientes para garantir os cuidados de saúde mínimos; a decisão, já prevista e destacada no programa do Governo, foi anunciada pelo ministro Pedro Mota Soares, mas a operação de marketing oculta e não resolve o empobrecimento causado pela agressiva austeridade em curso.
É evidente que Alexandre Soares dos Santos poupa muito mais com anos de salários miseráveis (em Portugal e na Polónia) do que vai “gastar” no “apoio” que agora anuncia aos trabalhadores que empobreceram a enriquecê-lo. Já sabemos que os milionários em Portugal acostumaram-se a isto: negócios fáceis, lucros garantidos, pouca concorrência, vender caro o que compram barato, ofertas do Estado, autorização para explorar o trabalho e sufocar a economia. A burguesia portuguesa não é incompetente – está habituada e sabe que pode.
Os governos são o outro lado desta história. O actual executivo comporta-se como um carrasco de direitos e rendimentos em contra-relógio, porque sabe que não há graça que lhe valha mais do que escassos meses de ofensiva sobre o conjunto da população. Também por isso, precisava de apresentar alguma coisa que simule a ideia duma “consciência social do Governo”. O PES, como bem denunciou a CGTP, é menos que um paliativo – é sobretudo um acto de propaganda, que subtilmente culpa os pobres pela pobreza e desresponsabiliza a governação perante o aumento da miséria.
Percebe-se a tentativa do Governo. Sabem que a imagem duma coragem serena na dura tarefa de salvar o país, vítima dos seus cidadãos gastadores, não pode durar nem resistir à implementação do seu programa. Por um lado, a distribuição de privilégios a poucos contrastará cada vez mais com o sacrifício da maioria – sem outras considerações, basta uma comparação simples: o PES custará, pelas contas do Governo, 400 milhões de euros no primeiro ano; de uma assentada, foram oferecidos 510 milhões de euros ao BIC para ficar com o BPN, depois de milhares de milhões de euros gastos com os nossos impostos e ainda com o patrocínio do Estado no futuro despedimento de centenas de funcionários. Por outro lado, o propalado rigor será cada vez mais visivelmente selectivo – basta ver como Pedro Mota Soares quer cobrar cegamente as dívidas injustas à Segurança Social aos trabalhadores a falsos recibos verdes: os patrões mantêm-se impunemente a salvo depois de negarem contratos de trabalho, enquanto acumula a dívida total à Segurança Social (cerca de 7 mil milhões de euros, a maioria dos quais da responsabilidade das empresas e sem perspectiva de recuperação).
Parece o que é. Os ricos estão mais ricos, enquanto a pobreza aumenta e cada vez mais atinge gente que trabalha mas não ganha o suficiente para viver. Do lado de lá – os donos de Portugal, os seus governos e comentadores oficiais – vão dizer-nos que não há alternativa, ao mesmo tempo que tratam os mais pobres como arma: ora de propaganda, ora de arremesso. Quer distribuindo esmolas, quer tratando quem passa dificuldades como preguiçosos obrigados a trabalho gratuito, são dados passos para desvalorizar e desmantelar os instrumentos colectivos de redistribuição e solidariedade, precisamente quando aumentam as desigualdades. É a instalação de um perigoso populismo segregacionista, que exige toda a fibra, toda o combate social para o enfrentar.
Notadocomprimido: É mais ou menos o que eu falei no último texto. Os ricos, cada vez mais ricos. Pobres, cada vez mais pobres. Essa é a crise, ela nunca atinge igualmente todas as camadas sociais.