
por Luiz Carlos Azenha, do VioMundo
É uma pergunta frequente, nas palestras que faço por aí.
Jovens jornalistas, jovens que pretendem ser empresários ou que já são microempresários, de mídia ou não, querem que eu diga quando eles vão ganhar dinheiro na internet.
Diz-se que a rede é o grande equalizador, que basta você ter uma boa conexão de banda larga — mesmo que seja numa lanhouse — para competir em igualdade de condições.
Hoje, no Brasil, isso é uma ilusão para a imensa maioria, diria eu.
Primeiro é preciso qualificar: a existência de lanhouses não garante que a grande maioria dos brasileiros tenha acesso a internet suficientemente rápida e de forma ininterrupta que tocar um negócio através da web.
Existem, sim, algumas exceções, mas não são a regra. Frequentar lanhouse envolve um custo significativo e o mesmo vale para quem quer trabalhar em casa: é preciso pagar o equipamento e a conexão.
Sim, eu sei, as novas tecnologias de informação rebaixaram enormemente os custos para montar um negócio, jornalístico ou não.
Mas, a não ser que você tenha uma ideia genial que não envolva produção/estoque/venda/entrega e cobrança, é forçar a barra dizer que a mera existência das novas mídias cria um campo de negócios em que todos possam competir.
Acesso a capital, portanto, continua sendo tão essencial quanto antes. A não ser que você ganhe na loteria, receba herança ou seja de família rica, precisa de dinheiro para tocar o negócio. Para muitos significa dupla de jornada de trabalho.
Muito embora o acesso a empréstimos no Brasil tenha melhorado muito nos últimos anos, ainda estamos longe do ideal. Os candidatos a pequenos empresários precisam oferecer bens como garantia para obter empréstimos. O capitalismo dos ‘pequenos’ envolve, portanto, riscos relativamente muito maiores. O capitalista corre o risco de perder seu capital. Você corre o risco de perder a casa!
Se uma grande empresa tem capital para manter uma equipe de advogados e para se desvencilhar dos trâmites burocráticos — para não falar do poder de pressão — o que dizer dos jovens empresários?
Dito isso, falemos especificamente do mercado para jornalistas na rede.
Há dinheiro neste negócio que justifique tentar a sorte por conta própria?
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A pouca união da classe jornalística é visível. As razões para isso são muitas, a começar pela forte carga política presente na atividade jornalística, que faz com que, enquanto alguns lutam por uma sociedade diferente e por uma mídia diferente, deixando de priorizar a luta de classe, muitos outros simplesmente se acomodam às determinações das grandes empresas que dominam a comunicação brasileira, simplesmente por uma busca por um emprego razoável para si mesmo. Nos Estados onde a mídia é mais concentrada a dificuldade de se organizar como classe é ainda mais forte.
Ainda assim, algumas ações localizadas contrariam essa lógica. Nessa semana, a demissão de um jornalista baiano desencadeou uma dessas exceções. Depois de escrever algumas reportagens sobre processos sofridos pelo setor de construções civis de Salvador, o repórter Aguirre Peixoto, do jornal A Tarde, foi processado por uma das empresas denunciadas. Na manhã dessa terça-feira, foi demitido, o que causou revolta entre seus companheiros de redação.
Cem funcionários do A Tarde assinaram uma carta aberta de protesto, e pararam por duas horas na tarde de terça. A carta de protesto defende a exatidão e a isonomia das reportagens escritas por Aguirre, explicando que o Ministério Público Federal reconheceu esses aspectos. As matérias baseavam-se em denúncias do MPF contra empresas imobiliárias que operam na Bahia, a partir de investigações da Polícia Federal. A reportagem final não traz qualquer carga de opinião ou especulação. É puro relato das investigações e denúncias.
Segundo o Sindicato dos Jornalistas da Bahia, a redação do A Tarde vinha sofrendo pressões internas. Além disso, conforme a carta dos funcionários do jornal, os anunciantes ligados ao setor imobiliário vinham escasseando. Finalmente, o jornal parece ter cedido. Após – ainda segundo a carta – ter pautado o repórter e publicado suas matérias, parece ter se arrependido, e a demissão de Aguirre soa como uma mea culpa frente aos anunciantes. Em entrevista, um diretor do jornal justificou a demissão como “muito mais um problema de ordem diretiva da empresa”. Ou seja, não justificou.
Não é novidade que, nos grandes jornais brasileiros, os interesses editorias são totalmente subordinados aos interesses comerciais. Isso foi afirmado e demonstrado em inúmeros posts anteriores aqui no Jornalismo B. Mas esse caso específico chegou a um extremo que beira o non sense. Em primeiro lugar, porque o repórter teve a coragem de escrever contra interesses poderosos, inclusive interesses de anunciantes. Mas o mais estranho da história toda é que o jornal publicou as matérias e depois demitiu seu autor. As pressões internas que o Sindicato afirma serem constantes na redação se manifestaram de forma retardada, o que pode indicar que tais pressões chegaram a níveis extremamente altos após a publicação das reportagens.
É por isso que pouco vemos nos veículos ligados às grandes coorporações de mídia reportagens incisivas sobre a defesa do meio ambiente, sobre a necessidade de reformas urbana e agrária, sobre prédios abandonados ou mal construídos, sobre movimentos de sem-teto, sobre ocupações ilegais de espaços públicos por empreiteiras. Os interesses comerciais impedem que esses veículos trabalhem em direção aos interesses sociais.
Se confirmadas as denúncias do MPF contra as empresas citadas nas matérias, a atitude dessas empresas é inaceitável já em primeira instância. É inaceitável também que, a seguir, pressionem o jornal e o jornalista para que denúncias já formalizadas pelo Ministério Público sejam omitidas da sociedade. É um total desrespeito à imprensa, um atentado à liberdade de expressão. Finalmente, é inaceitável que o jornal ceda a essas pressões, se foi isso mesmo o que aconteceu. Fica claro novamente que a censura e os ataques à liberdade de expressão são práticas recorrentes justamente para quem se define como defensor desta liberdade: os próprios veículos de mídia são os grandes censores contemporâneos. A pressão contra ações desse tipo precisa ser intensificada e, a cada caso noticiado, a mobilização de denúncia deve ser maior. Porque é relativamente fácil calar uma voz, mas as vozes da democracia na comunicação são cada vez em maior número, e cada vez têm maior força.
Sobre o assunto, leia também a matéria do Portal Imprensa.
Texto por Alexandre Haubrich, do blog Jornalismo B.
Por Luiz Carlos Azenha, do VioMundo
A rede Teleamazonas, do Equador, voltou ao ar depois de cumprir suspensão de 72 horas por divulgar notícia falsa. O canal, que faz oposição cerrada ao governo de Rafael Correa, noticiou que a pesca seria suspensa por seis meses na ilha de Puná, onde a empresa venezuelana PDVSA perfura um poço em busca de gás. O governo classificou a notícia de “mentirosa”.
Depois que a notícia foi divulgada, moradores da ilha ocuparam as instalações da PDVSA, que eram guardadas por militares equatorianos: “Imaginem se os fuzileiros navais tivessem respondido e disparado, quantos mortos teria havido?”, perguntou o presidente Rafael Correa. A suspensão foi determinada pela Superintendência de Telecomunicações obedecendo a leis vigentes no país, que garantem à cidadania acesso a informação veraz, “não baseada em suposições”.