
por Paulo Nogueira Batista Jr., em O Globo , via Projeto Nacional
Escrevo, leitor, sem ter conseguido digerir todos os aspectos da mais recente cúpula europeia. O assunto é extraordinariamente complexo, como se sabe.
Não há dúvida de que a dimensão da crise na área do euro está forçando as lideranças europeias a tomar decisões duras. Resta saber, entretanto, se elas serão suficientes.
Preocupa a possibilidade de que esteja faltando foco às iniciativas europeias. Não estaria havendo ênfase excessiva na dimensão fiscal da crise? Prevalece a visão alemã de que a raiz da crise está na falta de disciplina fiscal no Sul da Europa. A palavra de ordem passou as ser: regras fiscais mais rígidas, com sanções quase automáticas e cessão de soberania fiscal. Grande parte das decisões ontem anunciadas consiste de medidas nessa área. Consolidação fiscal e reformas estruturais constituiriam a chave para superar a crise.
Duvidoso. Não parece claro que a irresponsabilidade fiscal tenha sido a principal causa da crise atual na área do euro. Essa tese só é claramente verdadeira no caso da Grécia, que antes de 2008 teve déficits públicos muitos elevados. Na maioria dos países vulneráveis, o aumento do déficit e da dívida do setor público foi, em boa medida, efeito e não causa da crise financeira iniciada em 2007-2008.
A fragilização das finanças públicas na área do euro, desde 2008, reflete três fatores principais, cuja importância relativa varia de país para país: a) os efeitos da recessão sobre as contas públicas; b) as medidas de estímulo fiscal; e c) o custo do socorro às instituições financeiras.
Em outras palavras, a crise financeira metamorfoseou-se em crise fiscal. Sistemas financeiros superdimensionados, operando com grande liberdade, sem estar submetidos a adequada regulação e supervisão, são causas tão ou mais importantes da crise do que a falta de rigor fiscal no Sul da Europa.
A livre circulação de capitais, intermediados por sistemas financeiros inchados, gerou um ciclo de forte expansão do crédito na periferia europeia. O crédito externo estimulou um boom especulativo, financiou elevados déficits em conta corrente e mascarou os problemas de competitividade.
E, no entanto, essa dimensão da crise não parece atrair suficiente atenção. Pede-se com frequência reformas estruturais – dos mercados de trabalho e dos mercados de produtos – mas raramente se menciona a necessidade de reformas estruturais do sistema financeiro – o setor da economia que parece estar na origem da crise atual. As reformas financeiras propostas desde 2008-2009, embora insuficientes, enfrentam a resistência feroz dos poderosos lobbies financeiros (a turma da bufunfa não brinca em serviço).
Seja como for, reformas – financeiras, fiscais, trabalhistas – não apagam incêndio. E aqui surge outra dúvida cruel: onde está o Banco Central Europeu? Nas duas semanas que antecederam a cúpula europeia, os mercados estavam embalados pela perspectiva de que o BCE entraria maciçamente nos mercados de títulos secundários – se houvesse aceitação pelos outros europeus das regras fiscais teutônicas.
Na quinta-feira, logo antes da reunião dos líderes europeus, o presidente do BCE, Mario Draghi, jogou água na fervura. Perguntado se o BCE responderia com aumentos expressivos das suas compras de títulos públicos em resposta a um acordo fiscal entre os líderes europeus, Draghi respondeu “não”. Diante da insistência da imprensa, acrescentou: “Eu desejo tudo o de melhor aos nossos líderes, e o BCE está aqui. Isso não significa que o BCE responderá, aliás.”
Em matéria de dinheiro novo, a grande novidade da cúpula foi o anúncio, ainda sem detalhes, de que os membros da área do euro e outros países da União Europeia irão considerar, e confirmar dentro de pouco mais de uma semana, contribuições adicionais ao FMI no montante de até 200 bilhões de euros (US$270 bilhões). Os líderes europeus declararam também que esperam “contribuições paralelas da comunidade internacional”.
A discussão se desloca agora para o FMI.
Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e diretor-executivo representando o Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional (FMI). O economista expressou opiniões pessoais, que não devem ser atribuídas ao FMI ou aos países que representa na diretoria da instituição.


Eu tenho 23 escravos (a média-geral do site é de 25).
É isso mesmo, caro senhor feudal. Não, não fiquei louco. O fato é que, apesar de vivermos numa sociedade que se auto intitula “livre”, convivemos e, mais do que isso, financiamos diariamente a escravidão e o trabalho sob condições sub-humanas – sem perceber.
Baseado em informações geográficas e comportamentais, o site Slavery Footprint (algo como “pegada da escravidão”) diz para você quantas pessoas são exploradas para que você tenha seu padrão de vida. Além disso, o site mostra onde estão essas pessoas e em que ramo elas são escravizadas através de um mapa interativo. Entre outras coisas, o Slavery Footprint questiona o visitante sobre sua alimentação e uso de equipamentos eletrônicos, e com base nessa informação aumenta ou diminnui o número de escravos no final (tudo na base de dados e de relatórios divulgados internacionalmente).
Ficou curioso? visite e faça o teste (em inglês).
Via Vista-se, rede social.

Texto por Jeanne Callegari, do site Blogueiras Feministas.
Terça foi dia de faxina em casa. Eu e marido aproveitamos o feriado chuvoso pra esfregar tetos, paredes e chão no banheiro e na cozinha. Depois de duas horas da maior ralação, fomos para o chuveiro e saímos para almoçar. Comemos o picadinho como dois refugiados, em silêncio. Exaustos. Depois de um tempo, e por conta de nosso cansaço após somente duas horas de esforço pesado, começamos a discutir o trabalho doméstico.
Meu marido nasceu nos Estados Unidos, e lá ter uma empregada é um luxo inacessível para a maioria das pessoas – inclusive para muitas que aqui podem pagar por esse serviço. Desde pequeno, ele se acostumou a limpar o que suja. Mais que isso, ele está acostumado a ser o mais auto-suficiente possível no que diz respeito aos cuidados da casa: de pintar as paredes do apartamento a construir penduradores de panelas, prateleiras e suportes para plantas, ele prefere fazer tudo a contratar o serviço de alguém. Para ele, a auto-suficiência é um valor, e ele se sente bem, e orgulhoso, de fazer as coisas por ele mesmo.
Eu venho de outra realidade. Brasileira de classe média, tive, por muito tempo, empregada em casa. Com exceção do último ano, sempre tive, ao menos, faxineira. E sei que essa é a realidade de muita gente que conheço, gente que não é rica mas que pode pagar uma pessoa para limpar a casa. Dentro desse microcosmo, de certa forma, o valor não está em fazer as coisas por suas mãos, mas em ter as condições para contratar alguém pra fazer.
É curioso como essa situação, muitas vezes, não é entendida como o que ela é de fato: um privilégio. De alguma forma, ter uma faxineira ou empregada parece o natural, quase um direito garantido em constituição. O trabalho doméstico parece estar acima das forças das pessoas. É interessante notar como gente que faz trabalhos intelectuais altamente qualificados se sente impotente perante uma privada para limpar, ou mesmo de uma pilha de louças sujas. E, aqui, me incluo na crítica: tem dias que parece mais fácil encontrar a saída para a fome no mundo que esfregar a gordura de uma frigideira. (E sim, esse é um dilema bem “classe média sofre”; mas acho importante saber de onde estamos falando para poder identificar os problemas e dificuldades dessa posição.)
Não pretendo discutir aqui o fato de o trabalho doméstico ser uma herança das relações coloniais. É, assim o sabemos. A questão é: o que fazemos com esse trabalho, agora que chegamos até aqui e vivemos o que vivemos? De um lado, muitas mulheres dependem das empregadas e babás para poderem ter suas profissões sem serem esmagadas por jornadas triplas e quádruplas. De outro, essas empregadas e babás salvadoras têm suas próprias casas para limpar, seus próprios filhos para olhar. (Uma das soluções, claro, é que tanto as patroas quanto as empregadas contem com a participação dos companheiros e dos filhos. Se todo mundo dividir o trabalho doméstico, não fica tão pesado para ninguém).
Aqui, dou um passo atrás no debate. De certa forma, torna-se quase desnecessário discutir se é válido ter, ou não, uma faxineira. O próprio desenvolvimento econômico vai dando conta da situação: à medida que inflaciona o mercado das empregadas, menos gente vai poder ter acesso a esse serviço. E, portanto, ao dilema do trabalho doméstico. Não adianta muito reclamar: o serviço vai ficar mais caro (e é bom que assim seja; diminui o enorme buraco que existe entre as remunerações no país). Quem é mais pobre nunca pôde ter faxineira, quem é mais rico sempre poderá ter, independente do custo. A questão mesmo, o dilema, fica na área cinzenta do meio, nas pessoas que podem ter ou não, conforme suas prioridades. Com o aumento do preço cobrado pelas faxineiras, essa área cinzenta está ficando menor, e isso está deixando muita gente brava. Sim, pois quem gosta de perder privilégios?
E aí é preciso achar soluções com as quais a gente não se preocupava antes (embora devesse). Arrumar formas eficazes de manter a casa, formas mais fáceis de fazer as coisas. Roupas que não precisem ser passadas, por exemplo (sempre brinco com minha mãe que ela é da última geração que passava lençol…). Produtos de limpeza mais eficazes – sem que isso signifique poluir mais o ambiente. Ter menos coisinhas, bricabraques que peguem poeira. Lavar a louça após comer, para não juntar bichos e não engordurar a pia inteira. Não varrer todo dia. Pressionar a indústria por soluções que sejam práticas e não agressivas para a natureza, ao mesmo tempo. Organizar-se, dividir tarefas. Soluções que simplifiquem a vida – independente de quem irá executar o trabalho da casa, se a empregada, a dona de casa, o marido, os filhos.
Vejo pessoas que tiveram que deixar de ter empregadas dizendo que flexibilizaram seus padrões de limpeza, que agora não precisam ver tudo brilhando, impecável. Sim, afinal, é fácil ter mania de limpeza quando não é a gente que tem que limpar, né?
Não estou dizendo para as pessoas que podem arcar com o custo, cada vez mais alto, de ter uma faxineira, para dispensar essa ajuda. Na minha opinião – e sei que essa não é a opinião de todas as feministas – não existe diferença essencial entre contratar trabalho doméstico e contratar outros tipos de trabalho; se não cozinho sempre minha própria comida, porque deveria, necessariamente, limpar minha própria sujeira? Na minha visão, é assim: quer ter uma empregada? OK: mas faça a coisa direito, pagando um salário justo, dando os benefícios necessários, combinando previamente as tarefas, dando as condições de trabalho adequadas, sem abuso, sem desrespeito. O que estou questionando é como a ideia de ter alguém para fazer esses serviços por nós quase que se naturalizou, a ponto de gente jovem, saudável e forte não se sentir capaz de gastar umas horinhas do seu tempo a organizar a própria bagunça.
De um lado, sei a resposta: fomos criados assim. Ao morar com minha mãe e ter empregada, operava-se o Milagre da Roupa: de suja e espalhada no chão, ela aparecia dobrada, limpa e cheirosa no armário. A louça, então, só podia ser obra de uma Fada da Pia, que vinha de noite para deixar tudo brilhando (meu marido gosta muito de invocar essa figura, aliás, para me fazer ver que, se eu não fizer minha parte, alguém fará, e certamente não será a Fada). Penso na minha prima, que aos 18 anos lavou o banheiro pela primeira – e até então, única – vez há algumas semanas, sem ter muita ideia de como realizar essa complexa operação. E repito: não somos de família rica.
Pra sair dessa posição de privilégio, não tem jeito: é revisar as próprias atitudes, ver o quanto reclamamos de barriga cheia e o quanto podemos mudar, o quanto podemos contribuir pessoalmente para diminuir a exploração de outras mulheres e a desigualdade entre as pessoas. Parar de chamar a empregada de “folgada”, por exemplo, porque ela foi embora cedo, depois de fazer o serviço do dia, ou porque comeu alguma coisa da geladeira. Temos que valorizar o trabalho doméstico, que é sempre invisível, e não julgá-lo inferior apenas porque não é necessário diploma para exercê-lo. Afinal, as pessoas não deixam de estudar porque querem, mas porque as oportunidades não são oferecidas de forma igual para todos – não dá para dizer que nossa sociedade é meritocrática, né?
Minha irmã tem uma faxineira que vai à sua casa uma vez por mês. Antes de a moça vir, porém, minha irmã lava toda a louça, pois, conforme o acordo que elas têm, não é tarefa da empregada, contratada para a limpeza dos ambientes, lavar pratos e panelas. Achei isso de uma clareza impressionante, e bem diferente da postura de muita gente que já conheci, que uns três dias antes da vinda da faxineira já começa a empilhar um Everest de pratos. Mesmo se vamos contar com ajuda, é importante saber que isso é um privilégio, e não ser totalmente dependente dessa ajuda; saber cuidar de si mesmo é desejável, e cada vez mais, essencial, pois que alguns dos privilégios que sempre achamos serem nossos por direito tendem a desaparecer. E, mais uma vez, é bom que seja assim.

Uma análise das relações entre 43.000 empresas transnacionais concluiu que um pequeno número delas – sobretudo bancos – tem um poder desproporcionalmente elevado sobre a economia global. A conclusão é de três pesquisadores da área de sistemas complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, na Suíça. Este é o primeiro estudo que vai além das ideologias e identifica empiricamente essa rede de poder global.
Nota introdutória publicada por Ladislau Dowbor em sua página: The Network of Global Corporate Control – S. Vitali, J. Glattfelder eS. Battistoni – Sept. 2011.
Um estudo de grande importância, mostra pela primeira vez de forma tão abrangente como se estrutura o poder global das empresas transnacionais. Frente à crise mundial, este trabalho constitui uma grande ajuda, pois mostra a densidade das participações cruzadas entre as empresas, que permite que um núcleo muito pequeno (na ordem de centenas) exerça imenso controle. Por outro lado, os interesses estão tão entrelaçados que os desequilíbrios se propagam instantaneamente, representando risco sistêmico.
Fica assim claro como se propagou (efeito dominó) a crise financeira, já que a maioria destas mega-empresas está na área da intermediação financeira. A visão do poder político das ETN (Empresas Trans-Nacionais) adquire também uma base muito mais firme, ao se constatar que na cadeia de empresas que controlam empresas que por sua vez controlam outras empresas, o que todos “sentimos” ao ver os comportamentos da mega-empresas torna-se cientificamente evidente. O artigo tem 9 páginas, e 25 de anexos metodológicos. Está disponível online gratuitamente, no sistemaarxiv.org
Um excelente pequeno resumo das principais implicações pode ser encontrado no New Scientist de 22/10/2011 (e está publicado a seguir).
(*) O gráfico em forma de globo mostra as interconexões entre o grupo de 1.318 empresas transnacionais que formam o núcleo da economia mundial. O tamanho de cada ponto representa o tamanho da receita de cada uma
A rede capitalista que domina o mundo
Conforme os protestos contra o capitalismo se espalham pelo mundo, os manifestantes vão ganhando novos argumentos.
Uma análise das relações entre 43.000 empresas transnacionais concluiu que um pequeno número delas – sobretudo bancos – tem um poder desproporcionalmente elevado sobre a economia global.
A conclusão é de três pesquisadores da área de sistemas complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, na Suíça
Este é o primeiro estudo que vai além das ideologias e identifica empiricamente essa rede de poder global.
“A realidade é complexa demais, nós temos que ir além dos dogmas, sejam eles das teorias da conspiração ou do livre mercado,” afirmou James Glattfelder, um dos autores do trabalho. “Nossa análise é baseada na realidade.”
Rede de controle econômico mundial
A análise usa a mesma matemática empregada há décadas para criar modelos dos sistemas naturais e para a construção de simuladores dos mais diversos tipos. Agora ela foi usada para estudar dados corporativos disponíveis mundialmente.
O resultado é um mapa que traça a rede de controle entre as grandes empresas transnacionais em nível global.
Estudos anteriores já haviam identificado que algumas poucas empresas controlam grandes porções da economia, mas esses estudos incluíam um número limitado de empresas e não levavam em conta os controles indiretos de propriedade, não podendo, portanto, ser usados para dizer como a rede de controle econômico poderia afetar a economia mundial – tornando-a mais ou menos instável, por exemplo.
O novo estudo pode falar sobre isso com a autoridade de quem analisou uma base de dados com 37 milhões de empresas e investidores.
A análise identificou 43.060 grandes empresas transnacionais e traçou as conexões de controle acionário entre elas, construindo um modelo de poder econômico em escala mundial.
Poder econômico mundial
Refinando ainda mais os dados, o modelo final revelou um núcleo central de 1.318 grandes empresas com laços com duas ou mais outras empresas – na média, cada uma delas tem 20 conexões com outras empresas.
Mais do que isso, embora este núcleo central de poder econômico concentre apenas 20% das receitas globais de venda, as 1.318 empresas em conjunto detêm a maioria das ações das principais empresas do mundo – as chamadas blue chips nos mercados de ações.
Em outras palavras, elas detêm um controle sobre a economia real que atinge 60% de todas as vendas realizadas no mundo todo.
E isso não é tudo.
Super-entidade econômica
Quando os cientistas desfizeram o emaranhado dessa rede de propriedades cruzadas, eles identificaram uma “super-entidade” de 147 empresas intimamente inter-relacionadas que controla 40% da riqueza total daquele primeiro núcleo central de 1.318 empresas.
“Na verdade, menos de 1% das companhias controla 40% da rede inteira,” diz Glattfelder.
E a maioria delas são bancos.
Os pesquisadores afirmam em seu estudo que a concentração de poder em si não é boa e nem ruim, mas essa interconexão pode ser.
Como o mundo viu durante a crise de 2008, essas redes são muito instáveis: basta que um dos nós tenha um problema sério para que o problema se propague automaticamente por toda a rede, levando consigo a economia mundial como um todo.
Eles ponderam, contudo, que essa super-entidade pode não ser o resultado de uma conspiração – 147 empresas seria um número grande demais para sustentar um conluio qualquer.
A questão real, colocam eles, é saber se esse núcleo global de poder econômico pode exercer um poder político centralizado intencionalmente.
Eles suspeitam que as empresas podem até competir entre si no mercado, mas agem em conjunto no interesse comum – e um dos maiores interesses seria resistir a mudanças na própria rede.
As 50 primeiras das 147 empresas transnacionais super conectadas
Barclays plc
Capital Group Companies Inc
FMR Corporation
AXA
State Street Corporation
JP Morgan Chase & Co
Legal & General Group plc
Vanguard Group Inc
UBS AG
Merrill Lynch & Co Inc
Wellington Management Co LLP
Deutsche Bank AG
Franklin Resources Inc
Credit Suisse Group
Walton Enterprises LLC
Bank of New York Mellon Corp
Natixis
Goldman Sachs Group Inc
T Rowe Price Group Inc
Legg Mason Inc
Morgan Stanley
Mitsubishi UFJ Financial Group Inc
Northern Trust Corporation
Société Générale
Bank of America Corporation
Lloyds TSB Group plc
Invesco plc
Allianz SE 29. TIAA
Old Mutual Public Limited Company
Aviva plc
Schroders plc
Dodge & Cox
Lehman Brothers Holdings Inc*
Sun Life Financial Inc
Standard Life plc
CNCE
Nomura Holdings Inc
The Depository Trust Company
Massachusetts Mutual Life Insurance
ING Groep NV
Brandes Investment Partners LP
Unicredito Italiano SPA
Deposit Insurance Corporation of Japan
Vereniging Aegon
BNP Paribas
Affiliated Managers Group Inc
Resona Holdings Inc
Capital Group International Inc
China Petrochemical Group Company
Retirado da CartaMaior

Por Tiago Gillot, do Esquerda.NET
Num espaço de escassos dias, ficámos a saber que Alexandre Soares dos Santos quase duplicou a sua fortuna num único ano e que 1.500 trabalhadores do seu Pingo Doce precisam desesperadamente de ajuda para comer e viver. Entretanto, o novo Governo trata os pobres como reles pedintes e massacra os trabalhadores precários, mas oferece milhões aos amigos no negócio do BPN. Tudo com muita classe, no país das desigualdades e do privilégio dos poderosos.

Os ricos estão mais ricos, enquanto a pobreza aumenta e cada vez mais atinge gente que trabalha mas não ganha o suficiente para viver.
Acumulação e caridade. A fórmula é antiga e a oportunidade da crise apenas a torna mais evidente. O enriquecimento é a exigência dos privilegiados, que sabem que a distribuição de migalhas é uma estratégia eficaz e tem hoje uma janela de legitimidade pelo desespero da maioria. O Governo e o homem que detém a segunda maior fortuna do país têm a mesma intuição, porque têm também, no essencial, o mesmo objectivo: identificam a “emergência social”, sabem que ela precisa de paliativos e evitam a todo o custo falar nas suas causas.
O “Fundo de Emergência Social” da Jerónimo Martins vai “dar” senhas de alimentação e cheques para cuidados de saúde urgentes aos seus funcionários, cujos rendimentos deixaram de ser suficientes para viver; a decisão foi anunciada através duma “Carta Aberta”, mas a operação de marketing não fala dos baixos salários nem de qualquer intenção de os aumentar. O “Plano de Emergência Social” (PES) do Governo prevê, entre outras, a distribuição de refeições aos mais necessitados e a cedência de medicamentos em fim de prazo a quem já nem sequer tem rendimentos suficientes para garantir os cuidados de saúde mínimos; a decisão, já prevista e destacada no programa do Governo, foi anunciada pelo ministro Pedro Mota Soares, mas a operação de marketing oculta e não resolve o empobrecimento causado pela agressiva austeridade em curso.
É evidente que Alexandre Soares dos Santos poupa muito mais com anos de salários miseráveis (em Portugal e na Polónia) do que vai “gastar” no “apoio” que agora anuncia aos trabalhadores que empobreceram a enriquecê-lo. Já sabemos que os milionários em Portugal acostumaram-se a isto: negócios fáceis, lucros garantidos, pouca concorrência, vender caro o que compram barato, ofertas do Estado, autorização para explorar o trabalho e sufocar a economia. A burguesia portuguesa não é incompetente – está habituada e sabe que pode.
Os governos são o outro lado desta história. O actual executivo comporta-se como um carrasco de direitos e rendimentos em contra-relógio, porque sabe que não há graça que lhe valha mais do que escassos meses de ofensiva sobre o conjunto da população. Também por isso, precisava de apresentar alguma coisa que simule a ideia duma “consciência social do Governo”. O PES, como bem denunciou a CGTP, é menos que um paliativo – é sobretudo um acto de propaganda, que subtilmente culpa os pobres pela pobreza e desresponsabiliza a governação perante o aumento da miséria.
Percebe-se a tentativa do Governo. Sabem que a imagem duma coragem serena na dura tarefa de salvar o país, vítima dos seus cidadãos gastadores, não pode durar nem resistir à implementação do seu programa. Por um lado, a distribuição de privilégios a poucos contrastará cada vez mais com o sacrifício da maioria – sem outras considerações, basta uma comparação simples: o PES custará, pelas contas do Governo, 400 milhões de euros no primeiro ano; de uma assentada, foram oferecidos 510 milhões de euros ao BIC para ficar com o BPN, depois de milhares de milhões de euros gastos com os nossos impostos e ainda com o patrocínio do Estado no futuro despedimento de centenas de funcionários. Por outro lado, o propalado rigor será cada vez mais visivelmente selectivo – basta ver como Pedro Mota Soares quer cobrar cegamente as dívidas injustas à Segurança Social aos trabalhadores a falsos recibos verdes: os patrões mantêm-se impunemente a salvo depois de negarem contratos de trabalho, enquanto acumula a dívida total à Segurança Social (cerca de 7 mil milhões de euros, a maioria dos quais da responsabilidade das empresas e sem perspectiva de recuperação).
Parece o que é. Os ricos estão mais ricos, enquanto a pobreza aumenta e cada vez mais atinge gente que trabalha mas não ganha o suficiente para viver. Do lado de lá – os donos de Portugal, os seus governos e comentadores oficiais – vão dizer-nos que não há alternativa, ao mesmo tempo que tratam os mais pobres como arma: ora de propaganda, ora de arremesso. Quer distribuindo esmolas, quer tratando quem passa dificuldades como preguiçosos obrigados a trabalho gratuito, são dados passos para desvalorizar e desmantelar os instrumentos colectivos de redistribuição e solidariedade, precisamente quando aumentam as desigualdades. É a instalação de um perigoso populismo segregacionista, que exige toda a fibra, toda o combate social para o enfrentar.
Notadocomprimido: É mais ou menos o que eu falei no último texto. Os ricos, cada vez mais ricos. Pobres, cada vez mais pobres. Essa é a crise, ela nunca atinge igualmente todas as camadas sociais.