
por DIANA JOHNSTONE, no Counterpunch. Via VioMundo.
Nos dias de hoje os guerreiros humanitários estão se gabando, graças à proclamada vitória na Líbia. A única superpotência do mundo, com o apoio moral, militar e mercenário dos amantes da democracia do emirado do Qatar e com os poderes imperialistas históricos da Grã Bretanha e da França, foi capaz de esmagar sem surpresa o governo estabelecido de um estado esparsamente habitado do norte da África em apenas sete meses. O país foi violentamente ‘liberado’ e deixado para quem quiser pegar. Quem vai ficar com qual pedaço, entre as milícias armadas, as tribos e os islamistas da jihad, não é do interesse da mídia ocidental ou dos humanitários mais do que era a Líbia antes da TV do Qatar, a Al Jazeera, despertar o zelo cruzadista em fevereiro, com reportagens não-documentadas sobre atrocidades iminentes*.
A Líbia pode mergulhar de volta na obscuridade enquanto os campeões ocidentais de sua destruição brilham sob os refletores. Para apimentar a auto-congratulação, eles dedicam alguma atenção aos pobres palhaços que se negaram a embarcar na mesma canoa.
Nos Estados Unidos, mas ainda mais na França, os que se opuseram ao partido da guerra foram poucos em número e foram ignorados. Mas não deixa de ser uma oportunidade para isolá-los ainda mais.
Em seu artigo, “Líbia e a esquerda: Benghazi e depois”, Michael Bérubé usa a ocasião para juntar os críticos da guerra sob o rótulo de “maniqueístas da esquerda” que, segundo ele, simplesmente respondem com oposição automática ao que fizerem os Estados Unidos. Ele e os de sua turma, por contraste, refletem profundamente e apresentam razões para bombardear a Líbia.
Ele começa dizendo:
“No fim de março de 2011, um massacre foi evitado — não qualquer tipo de massacre. Pois se Kadafi e suas forças conseguissem esmagar a rebelião líbia em seu quartel-general de Benghazi, os choques resultantes teriam reverberado muito além do leste da Líbia. Como Tom Malinowski da Human Rights Watch escreveu, ‘a vitória de Kadafi — junto com a queda de Mubarak no Egito — teria sinalizado para os governos autoritários da Síria à Arábia Saudita à China que se você negociar com manifestantes você perde, mas se você matá-los você ganha…’”.
“Os ataques liderados pela OTAN contra as forças de Kadafi, na verdade, fizeram mais que prevenir uma catástrofe humanitária na Líbia — embora deve-se reconhecer que apenas isso seria justificativa suficiente. Ajudaram a manter viva a Primavera Árabe…”
Mas tudo isso é perfeitamente hipotético.
Qualquer massacre que tenha sido evitado em março, outros massacres aconteceram em vez daquele, mais tarde.
Ou seja, se esmagar uma rebelião armada é massacre, uma rebelião armada vitoriosa também implica em massacre, e assim temos uma escolha entre massacres.
E, se as propostas de mediação da América Latina e da África tivessem sido consideradas, o massacre hipotético poderia ter sido evitado por outros meios, mesmo que a rebelião armada tivesse sido derrotada — uma hipótese que o partido pró-guerra se negou a considerar desde o início.
Mas ainda mais hipotética é a noção de que o fracasso da rebelião líbia teria danificado fatalmente a “Primavera Árabe”. Isso é especulação pura, sem qualquer fiapo de prova.
Os governos autoritários certamente não precisavam de uma lição para ensiná-los a lidar com manifestantes, o que em último caso depende dos meios políticos e militares à disposição deles. Mubarak perdeu não por ter negociado com os manifestantes, mas porque o Exército financiado pelos Estados Unidos decidiu abandoná-lo. Em Bahrain, a Arábia Saudita ajudou a matar manifestantes. De qualquer forma, os governantes autoritários árabes, inclusive o emir do Qatar, odiavam Kadafi, que tinha a mania de denunciar a hipocrisia deles em encontros internacionais. Eles ficaram felizes com a queda de Kadafi.
Esses argumentos pró-guerra estão na mesma classe das “armas de destruição em massa” do Iraque ou da ameaça de “genocídio” em Kosovo — perigos hipotéticos usados para justificar a guerra preventiva. “Guerra preventiva” é o que permite a um superpoder militar, tão poderoso que nunca precisou se defender de ataque estrangeiro, atacar outros países. Caso contrário, qual é a justificativa para se ter um exército se não podemos usá-lo?, como perguntou certa vez [a ex-secretária de Estado] Madeleine Albright.
Mais adiante em seu artigo, Bérubé cita seu colega guerreiro humanitário Ian Williams, que argumentou que a série de objeções à intervenção na Líbia “foge da questão crucial: o mundo deveria deixar civis líbios morrer nas mãos de um tirano?”. Ou, em outras palavras, a “pergunta-chave” é: “Quando um grupo de pessoas que está prestes a ser massacrado pede ajuda, o que você faz?”.
Com esta seleção de perguntas “cruciais” e “chaves”, explorando o sentimento de culpa, Bérubé e Williams varrem de lado todas as objeções legais, éticas e políticas ao ataque da OTAN na Líbia.
Mas nada autorizava estes senhores a decidir qual é a “questão-chave”. Na realidade, a “questão-chave” deles levantava uma série de outras questões.
Primeira delas: Qual grupo de pessoas? Elas estão mesmo perto de ser massacradas? Qual é a fonte desta informação? Teria havido exagero? Ou teria havido invenção pura e simples, com o objetivo de forçar poderes estrangeiros a intervir?
Um jovem cineasta francês, Julien Teil, fez uma entrevista marcante com o secretário-geral da Liga de Direitos Humanos da Líbia, Slimane Bouchuiguir, na qual ele admite candidamente que “não tinha provas” das alegações feitas perante a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, que levaram à expulsão imediata do representante oficial da Líbia e, a partir disso, às resoluções da ONU autorizando o que viria a ser a troca de regime feita pela OTAN. Na verdade, nenhuma prova foi produzida do “bombardeio a civis líbios” denunciado pela Al Jazerra, o canal de TV financiado pelo emir do Qatar, que emergiu com uma grande fatia dos negócios de petróleo líbios depois da “guerra de libertação” da qual o Qatar participou.


Texto escrito por Georges Bourdoukan, jornalista e escritor. Neste texto ele nos conta um pouco sobre a sua visita a Líbia em 1979, por ocasião do décimo aniversário da Revolução que levara Kadafi ao poder. Informações via CorreiodaCidadania.
Notadocomprimido:
O que você sabe sobre a Líbia? O que estudamos na escola?
Nada.
Depois de toda a repercussão da mídia ocidental por conta do assassinato do Kadafi por manifestantes, o mínimo que poderia ser feito é contar o que estava acontecendo naquele país, antes completamente ignorado pelo mundo.
O texto, por ser muito longe, foi dividido por mim em capítulos, e não é nada mais do que um relato de um estrangeiro numa terra longínqua. Para ler basta clicar em cada um dos botões abaixo.
Me acompanharam na ocasião o cinegrafista Luis Manse e o operador de Nagra Nelson Belo, Belo (por onde andarão?).
Estávamos ali pelo Globo Repórter, do qual eu era o diretor em São Paulo.
Primeira surpresa. O hotel, para onde o governo nos enviou, estava totalmente ocupado por diplomatas.
Perguntei ao embaixador do Brasil a razão dessa concentração.
A resposta me surpreendeu ainda mais.
Na Líbia de Kadafi, os aluguéis estavam proibidos.
Aos líbios que não tivessem casa, era só solicitar que o governo imediatamente providenciava a construção de uma.
O país era um imenso canteiro de obras.
E mais: Uma lei em vigor, A LEI DO COLCHÃO, determinava que, qualquer cidadão líbio que soubesse da existência de casa alugada, era só atirar um colchão no quintal que a casa passava a ser sua.
Inúmeras embaixadas sofreram com essa lei já que foram ocupadas por líbios.
O próprio embaixador me contou na ocasião que a embaixada brasileira não ficou imune a essa lei.
Um motorista líbio que ali trabalhava informou a um amigo que ainda não tinha casa, que a embaixada do Brasil era alugada.
Imediatamente esse amigo atirou um colchão e reivindicou a propriedade (uma mansão que pertencia a um italiano que retornou à Itália apos a subida ao poder de Kadafi).
O governo líbio precisou intervir para evitar maiores dissabores.
O Brasil acabou ganhando a embaixada e o líbio uma casa nova.
Isto tudo aconteceu na década de 70, quando a Líbia era uma potência riquíssima, com apenas 3 milhões de habitantes, em quase 1.800.000 quilômetros quadrados.
Os líbios, por lei, eram proibidos de trabalhar como empregados de estrangeiros.
O líbio que não quisesse trabalhar recebia o equivalente, valores de hoje, a cerca de 7 mil dólares por mês.
E mais: médico, hospital e remédios era tudo de graça.
Ninguém pagava escola e o líbio que quisesse aperfeiçoar seus estudos fora do país ganhava uma substancial bolsa.
Conheci muitos desses líbios na França, Itália, Espanha e Alemanha, e outros países onde estive como jornalista.
Estamos em Trípoli, ano 1979.
Esta noite quase não consegui pegar no sono.
No hotel onde estava hospedado, alem dos diplomatas e alguns jornalistas, estavam também delegações de países africanos de língua portuguesa. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, etc.
E foram eles que não me deixaram pegar no sono já que, sabendo que eu teria um encontro com Kadafi no dia seguinte, queriam que eu lhe pedisse mais explicações sobre o socialismo Líbio.
Disseram que nunca haviam visto algo igual. Nem mesmo em livros.
Ficaram admirados com a Lei do Colchão (veja post abaixo), com a assistência médica, remédios e educação, tudo gratuito.
E pelo fato de ninguém ser obrigado a trabalhar na Líbia e mesmo assim receber uma remuneração “ fantástica” no dizer de um angolano.
Prometi que tentaria obter uma resposta, desde que, de fato, eu conseguisse falar com Kadafi, por saber que ele era imprevisível e não poucas vezes deixou jornalistas aguardando ad infinitum.
Antes, preciso esclarecer que as portas dos apartamentos dos hotéis não possuíam fechaduras.
Por isso todos podiam entrar no apartamento de todos razão pela qual nossos apartamentos eram sempre “visitados”.
Perguntei ao gerente do hotel a razão da falta de fechaduras.
Respondeu que na Líbia não havia ladrões como na “época da colonização italiana e por isso as fechaduras eram prescindíveis”.
Mas um diplomata me esclareceu que a falta de fechaduras era para que os “fiscais” do governo pudessem entrar a qualquer hora do dia ou da noite para ver se não havia mulheres “convidadas” nos apartamentos.
“Porque, prosseguiu o diplomata, os líbios até hoje falam que durante a colonização italiana e o reinado de Idris, os hotéis serviam apenas para orgias”.
No dia seguinte me preparo para o encontro com Kadafi.
Manse, com a sua câmera e Belo com seu gravador Nagra me aguardavam ao lado do elevador.
Com cara de sono, reclamaram que seus apartamentos foram “penetrados” umas três vezes de madrugada e foi um susto só.
O carro enviado pelo governo nos esperava na entrada, mas Manse queria tomar mais um cafezinho.
Entrei no carro e aguardei.
Cinco minutos depois Luis Manse, com sua inseparável câmera, chegava sozinho.
Perguntei pelo Belo, ele disse que o imaginava comigo.
Perguntei ao nosso acompanhante se ele havia visto o nosso companheiro.
Imediatamente ele foi à portaria perguntar.
Um rapaz simpático respondeu que tinha visto Belo acompanhado por dois policiais uniformizados a caminho da praça que ficava a uns cinqüenta metros do hotel.
Fiquei preocupado, imaginando o pior.
Jornalista acompanhado por policiais no Brasil nunca era um bom augúrio
Perguntei o que estava acontecendo.
Um dos policiais me disse que o meu companheiro não parava de apontar a chave do carro na ignição. E que eles não sabiam a razão, pois Belo não falava o árabe e nem eles o “brasileiro”.
Então era por isso que eles saíram juntos do hotel.
Nada preocupante.
Belo me explicou e eu traduzi para o policial que ele, ao ver a chave na ignição, ficou preocupado de alguém roubar o carro.
Os dois policiais começaram a rir e disseram tratar-se de um carro abandonado.
Era um costume no país.
Quem não gostasse do carro bastava abandoná-lo com a chave dentro. O interessado podia levá-lo.
Essa era a Líbia da época.
Muita fartura, nenhuma miséria e a abundância ao alcance de todos.
Alias isso podia se observar nas pessoas.
Os mais velhos, que viveram sob o domínio dos colonialistas e durante a monarquia, eram pessoas alquebradas, corpo seco.
As crianças e os jovens eram saudáveis e alegres.
Só para se ter uma idéia da Líbia sob Kadafi, tudo custava mais ou menos o equivalente a 3 dólares.
Havia supermercados gigantescos, mas nada era vendido a varejo.
Quem quisesse arroz, por exemplo, pagava 3 dólares pelo saco de 50 quilos.
Tudo era nessa base.
Fomos visitar o parque industrial de Trípoli e eu pedi para conhecer uma tecelagem.
Perguntei como era a relação com os clientes e um técnico alemão que ali se encontrava para montar o maquinário, começou a rir.
“Os líbios são loucos”, me disse. E completou: “eles não vendem nada aqui por metro, somente a peça inteira. E para qualquer um que entrar na fábrica e pedir”.
Perguntei o preço da peça: 3 dólares a peça de 50 metros…
Mas se você, por exemplo, quisesse comprar uma gravata, qualquer uma, o preço mínimo era o equivalente a 200 dólares.
Um cachimbo, 300 dólares.
Ou seja, todo produto que lembrasse os colonizadores e, de acordo com eles, representasse ou sugerisse consumo supérfluo, era altamente taxado.
Bebida alcoólica, nem pensar. Dava prisão sumária.
E foi o que aconteceu com dois jornalistas argentinos, cuja “esperteza” os remeteu ao porto e ali compraram de um cargueiro uma garrafa de uísque.
Um dos funcionários do hotel sentiu o bafo e os denunciou.
É verdade que eles não foram presos, porque eram convidados do governo.
Mas não puderam entrevistar ninguém, muito menos o Kadafi…
E nós só soubemos disso porque o embaixador do Brasil, uma figura simpaticíssima, uma noite nos convidou para a Embaixada e, ali, nos ofereceu um uísque de não sei quantos anos (guardado a sete chaves num cofre), que Manse e Belo acharam delicioso.
Claro que eu também bebi um gole, apesar de detestar uísque.
Seja de que marca for, de que ano for.
Sempre me lembrou o gosto de iodo.
Evidentemente não faria uma desfeita ao embaixador tão solícito.
Não estalei a língua porque aí seria demais.
Antes de nos despedirmos, o embaixador nos ofereceu um litro de leite para cada um, pois segundo ele o leite disfarçaria o nosso hálito.
Na porta, perguntei ao embaixador se ele poderia nos dar um depoimento.
“O Kadafi é um Gênio”, respondeu.
Surpreso, perguntei.
O senhor considera o Kadafi um Gênio?
Sim! Um Gênio!
Então o senhor considera Kadafi um Gênio?
Sim! Respondeu o embaixador. Um Gênio! E amanhã o senhor vai ter uma prova disso.
Não entendi.
Amanhã vai haver um desfile em comemoração ao décimo aniversario da Revolução. Assista e veja se não tenho razão.
O dia seguinte amanheceu glorioso. E eu já estava preocupado.
Se o país vai parar para comemorar o décimo aniversário da Revolução, será que Kadafi vai encontrar tempo para a entrevista?
A população lotava a praça e as ruas onde seriam realizados os desfiles.
Um fato me chamou a atenção.
Havia milhares de meninas adolescentes com uniformes militares prontas para o desfile.
Sorriam um sorriso que somente as adolescentes possuem.
Impressionante a sua alegria.
Foi assim que Kadafi libertou as mulheres, que antes não podiam atravessar a porta de casa e nem tirar as vestimentas que cobriam seu corpo de cima abaixo, me confidenciou o embaixador.
É ou não um gênio?
Essas adolescentes saem de casa bem cedinho usando o uniforme militar e retornam para suas casas no fim do dia. Elas só não dormem no quartel.
E têm autorização para não tirar o uniforme.
Depois do serviço militar elas jamais voltam a se vestir como anteriormente.

Então é por isso que as mulheres líbias se vestem como as ocidentais?
Mas vez ou outra deparamos com mulheres com roupas tradicionais.
Terminado o desfile, um membro do governo me diz que Kadafi nos receberia não mais em Trípoli, mas em Benghazi, a bela cidade mediterrânea.
E que nos buscariam de madrugada pra viajarmos os 600 quilômetros que separam as duas cidades.
Fico sabendo nesse dia que a energia elétrica que ilumina o país é de graça.
Ninguém recebe a conta de luz, seja em casa ou no comércio.
E quem tiver aptidão para empresário, pode buscar os recursos necessários no banco estatal e não paga nenhum centavo de juros.
A divisão da riqueza do país com sua população, em nome do islamismo, criou um sério problema para os demais países muçulmanos, principalmente Arábia Saudita.
E desde então, Kadafi nunca poupou os dirigentes sauditas que acusou de terem se apossado de um país que jamais lhes pertenceu e de serem “infiéis que conspurcavam o verdadeiro islamismo”.
“Trocaram o Profeta pelo petróleo”.
Pela primeira vez usava-se o Alcorão contra aqueles que se diziam seus defensores.
Os sauditas, acuados, só conseguiam dizer que ele era “comunista”.
Kadafi respondia que ele apenas seguia o Alcorão ao pé da letra.
Várias revoltas começaram a eclodir na Arábia Saudita e países do Golfo.
Estados Unidos e mídia associada começaram a arregaçar as mangas.
Era preciso defender a vassala Arábia Saudita e transformar Kadafi num pária.
Na volta ao hotel, dou de cara com revolucionários da África do Sul. Estavam na Líbia em busca de fundos para lutar contra o apartheid.
Vamos falar francamente.
Eu estava me esforçando para realizar um programa que dificilmente seria exibido.
Naquela época o Globo Repórter registrava uma audiência enorme, entre 50 e 65, com pico de 72.
Alem do mais, vivíamos sob o tacão da ditadura.
Mas já que estávamos lá, vamos tocar o barco e ver no que vai dar.
À noite, no hotel, alguém abre a porta e me pergunta se posso conversar um pouco.
Era o chefe da delegação de Guiné-Bissau e estava empolgado. Nunca imaginara conhecer um país como a Líbia.
Perguntou como foi o meu encontro com Kadafi.
Respondi que o encontro seria no dia seguinte em Benghazi.
Enquanto conversávamos, um “fiscal” do governo, entra no quarto e nos cumprimenta sorridente.
Dá uma olhada rápida e com aquele sorriso de comissária de bordo, nos agradece e vai embora.
Mal passaram 10 minutos e a porta novamente é aberta. Um jornalista do Rio de Janeiro, meu vizinho de quarto entra desesperado.
- Uma coca cola pelo amor de Deus. Meu reino por uma coca-cola. Vou descer até saguão, alguém precisa me informar onde consigo comprar coca cola nesse país de birutas.
E nem esperou o elevador. Desceu pela escada mesmo.
- Maluco esse seu vizinho, me confidenciou o guine-bissauense( é assim mesmo que se diz?). E alem do mais ainda ofendeu Shakespeare.
Em seguida ele me revela que conheceu muitos revolucionários de países diferentes que se encontravam na Líbia em busca de recursos.
Inclusive sul-africanos.
- Entregaram uma carta de Nelson Mandela para o Kadafi pedindo para ele não esquecer seus irmãos africanos, respondeu feliz, dando a entender que eles foram atendidos.
Novamente o “fiscal” com sorriso de comissária de bordo entra. Desta vez para nos convidar a assistir no salão do hotel a um filme sobre os “horrores” da herança colonialista.
Na verdade não era um filme, mas um documentário de 15 minutos e se a idéia era para que a platéia se indignasse, o efeito foi o contrário.
O documentário mostrava a noite em Trípoli. Garotas seminuas andando nas ruas em busca de clientes, “inferninhos”, cabarés, bebidas alcoólicas, muitas bebidas, e por aí vai.
E o pior, terminada a exibição vários aplausos da platéia, principalmente de jornalistas, pedindo a volta dos colonizadores…
Isso sim é que era época boa, exclamou o jornalista carioca, agora ao lado de um colega mineiro que completou: “eta paizinho que nem coca-cola tem”.
Quatro da manhã somos acordados. Do aeroporto de Trípoli seguimos para Benghazi, onde finalmente vamos entrevistar Kadafi.
Quando desembarcamos em Benghazi, a belíssima Benghazi, tamareiras enfeitavam suas praias.
Estavam ali como os coqueiros nas praias do nordeste.
Era colher e comer tâmaras dulcíssimas.
Um jornalista suíço que chegara a Benghazi uma semana antes, me confidenciou que não deveria perder um casamento. Qualquer um, disse.
Estava realmente deslumbrado com a festa e o que o deixou mais impressionado, é que os noivos, depois da cerimônia, recebem um envelope do governo com o equivalente a 50 mil dólares de presente.
Bem, essa era a Líbia que pouca gente conhecia e a mídia ocidental não fazia nenhuma questão de mostrá-la.
E não poderia, pois como explicar a seus leitores que havia ascendido ao poder um jovem coronel que não utilizou a riqueza em benefício próprio?
Pelo contrário.
Havia dividido a riqueza com a população do país.
Que não queria ver ninguém sem teto, sem fome, sem educação e sem muitas outras coisas mais.
Eu, naturalmente, iria sem dúvida nortear a minha entrevista a partir desses pontos.
Mas antes da entrevista, fomos a três festas com músicos árabes de diversos países.
E haja doce.
E haja suco.
E nem um “uisquinho”, lamentavam alguns jornalistas que, sinceramente, acho que estavam no país sem saber porque e para que.
As festas corriam em tendas beduínas, algo que Kadafi sempre prezou.
Finalmente cara a cara com Kadafi.
Em sua tenda.
Aparentava cansaço.
Alguns dos assuntos discutidos:
1-Socialismo líbio;
2-Educação;
3-Reforma agrária;
4-Moradia
5-Alinhamento
6-Arabismo
7-Socialismo chinês, soviético, cubano;
8-Apoio aos movimentos revolucionários;
9-Che Guevara;
10-Estados Unidos;
11-Brasil;
12-liberação feminina
13-Reencarnação de Omar Moukhtar.
A entrevista, que seria de 40 minutos, durou mais de duas horas e creio que passaríamos a noite conversando se ele não fosse a toda hora solicitado.
Naturalmente a Globo achou melhor não colocar o programa no ar, pois poderia melindrar a ditadura.
Foi feita uma proposta para que um programa de 15 minutos fosse ao ar no Fantástico.
Foi realizada a reedição, mas o programa teria sido proibido pelos censores oficiais da ditadura (civil-militar-midiática).
Tudo culpa da ditadura.
Será?
Oh, céus! Oh, terra! Quando nos livraremos desse sistema putrefato?
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Conclusões (por Georges Bourdoukan)
Qual foi o grande erro de Kadafi?
Eu não tenho a menor dúvida.
Foi acreditar nos euro-estadunidenses e desistir de sua bomba atômica.
Os pacifistas que me perdoem.
Aqui não se trata de incentivar a produção de ogivas nucleares, mas de persuasão.
O Brasil que tome jeito e comece a produzir a sua.
Caso contrário, a própria mídia brasileira, associada ao Império, fará de tudo para que o país seja invadido e ocupado.
Kadafi não ficou rico, como os produtores de petróleo do Golfo.
Dividiu a riqueza do país com a população.
Apoiou todos os movimentos revolucionários de esquerda do mundo.
Inclusive os brasileiros.
Em nenhum momento esqueceu a população negra da África.
E da África do Sul, onde, em agradecimento, um neto de Nelson Mandela chama-se Kadafi.
Quando Nelson Mandela tornou-se o primeiro presidente da África do Sul em 1994, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, fez de tudo para que Mandela parasse com os agradecimentos quase diários a Kadafi pelo seu apoio à luta dos revolucionários africanos.
“Os que se irritam com nossa amizade com o presidente Kadafi podem pular na piscina”, respondeu Mandela.
O presidente de Uganda Yoweri Museveni afirmou que “quaisquer que sejam as falhas de Kadafi, ele é um verdadeiro nacionalista. Prefiro nacionalistas do que marionetes de interesses estrangeiros”.
E disse mais:
” Kadafi deu contribuições importantes para a Líbia, para a África e para o Terceiro Mundo. Devemos lembrar ainda que, como parte desta forma independente de pensar, ele expulsou bases militares britânicas e americanas da Líbia após tomar o poder”.
Alem disso, o ex-líder líbio também teve papel importante na formação da União Africana (UA).
A principal coordenadora da guerra contra a Líbia, Hillary Clinton, andou pela África pregando abertamente o assassinato de Muammar Kadafi.
Como não teve sucesso, começou a recrutar mercenários.
Alias foram esses mercenários, inclusive os esquadrões da morte colombianos, que lutaram na Líbia. E eles não foram dizimados graças à Organização Terrorista do Atlântico Norte (OTAN) e EUA.
Quem puder pesquisar, quando Kadafi nacionalizou as empresas petrolíferas e os bancos, a mídia Ocidental referia-se a ele como Che Guevara Árabe.
Antes de ser deposto e linchado pelos mercenários a mando dos terroristas OTAN e EUA, a Líbia possuía o maior índice de desenvolvimento humano da África, e até hoje maior que o do Brasil.
E o que pouca gente sabe, em 2007 inaugurou o maior sistema de irrigação do mundo.
Transformou o deserto (95% da Líbia) em fazendas produtoras de alimentos.
Alias, assim que subiu ao poder os líbios que quiseram produzir alimentos receberam terra, equipamentos, sementes e 50 mil dólares para sobreviver até a safra.
Foi uma Reforma Agrária total e irrestrita.
Ele também pressionou pela criação dos Estados Unidos da África (EUA) para rivalizar com os EUA e união européia.
Ele lutou por uma África una: “Queremos militares africanos para defender a África. Queremos uma moeda única. Queremos um só passaporte africano”.
Lamentavelmente esqueceu a Bomba Atômica. E pagou por isso.

Bar. Bebida. Uma ótima oportunidade para discussão política. Momento ideal para que os ânimos se exaltem e todos manifestem aquilo que estava entalado em suas gargantas. E escutei, dentre diversas coisas, a seguinte frase que me fez refletir sobre várias coisas.
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Internet. Texto. Hora, pelo contrário, de dar asas à imaginação e escrever um pouco sobre o que eu pensei e imaginei na hora e alguns momentos depois (sim, minha mente funciona de modo um pouco estranho às vezes).
Ok, partiremos do pressuposto o exemplo de que, numa suposta sociedade socialista, todos receberiam o mesmo salário. Vou tentar seguir uma linha de raciocínio tendo esta premissa como válida, para descobrir se, afinal de contas, esta frase está – ou não – correta dentro desta perspectiva. Independente de várias outras variáveis que possam ter sido ditas depois ou que possam ser consideradas. Me limito ao fato que me despertou para a imaginação de uma história.
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Mônica, 19 anos, é de classe média e estuda há 1 ano no cursinho para passar no vestibular de Medicina. Sacrificou muitas horas de lazer com amigos e família. Resultado? Passou para a Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Paula, 20 anos, faz cursinho há dois anos, mas não se dedica como Mônica. Vai em todas as festas, falta aula e está sempre adiando os afazeres. Resultado? Não conseguiu passar para a Universidade Pública.
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Voltamos agora à frase inicial. De fato, se de uma hora para outra o socialismo é instituído como forma de governo, e aceitando a premissa de que todos os salários seriam iguais, a mim também parece injusto de que Paula receba a mesma coisa que sua amiga que tanto se esforçou.
Não há o que discutir aqui, é injusto e ponto. Mas, continuemos a história.
Alexandre, 23 anos, também quer cursar Medicina. Sua família não tem dinheiro para pagar cursinho, mas ele estuda há 5 anos por conta própria, dia e noite (quando não está trabalhando). Ele se sacrificou tanto ou, se formos sinceros, bem mais do que Mônica. Resultado? Não conseguiu entrar na Universidade. As contas apertaram, e provavelmente no próximo ano ele não terá mais tempo de estudar…
As coisas já não parecem tão justas assim. O sistema parece meritocrático, mas nem tanto, me parece que depende mais da maneira como o indivíduo é educado (e quanto está disposto a pagar por isto) quanto do esforço individual.
Mas não paremos por aí.
Mônica, 6 anos mais tarde, já está formada. Feliz, ela conseguiu um emprego num hospital privado onde dá plantão 3 vezes por semana e folga aos domingos. Recebe 6.000 reais/mês, o que compensa a sua falta de tempo para lazer e vida pessoal.
Paula, depois de desistir da ideia de entrar numa universidade pública, convenceu seus pais a pagar-lhe uma faculdade particular. Hoje ela tem uma clínica particular onde atende familiares e amigos ricos. Trabalha das 10:00 às 17:00 e folga nos finais de semana. Recebe 5.000 reais/mês.
Alexandre teve que arrumar dois empregos para ajudar seus pais a pagar as contas, e deixou de estudar. Todo ano ele tenta passar no vestibular, mas não consegue. Recebe 700 reais/mês numa fábrica de tecidos e tem um bico como ambulante nos finais de semana.
Ah sim, e nessa história ainda tem o Saulo, filho de um grande empresário que herdou o negócio dos pais. Acaba de terminar sua graduação em administração na Inglaterra, onde conheceu bebidas e prostitutas de todo tipo (e deve lá ter estudado alguma coisa). Um de seus sócios administra a fábrica de tecidos onde Alexandre trabalha. Só neste empreendimento o lucro mensal é de 100.000 reais/mês. Seus rendimentos ultrapassam o meio milhão de reais.
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Os personagens estão um pouco caricatos, mas acho que deu para entender. A argumentação é simples: ainda que se admita o fato de que no socialismo há a mesma remuneração para qualquer tipo de serviço (o que, por diversos motivos, é falso), ainda assim constatamos que a suposta diferença de um salário de gari (900 reais, por exemplo), que supostamente não se esforçou para estudar, para o de um médico iniciante (6.000 reais, por exemplo) é muito menor do que a diferença entre o mesmo médico e um grande empresário que herdou uma empresa e nunca teve que se esforçar ou trabalhar diretamente nela.
Estamos aqui comparando médicos e empresários apenas a título de exemplo, acho que todos já entenderam onde eu quero chegar.
O capitalismo tem um discurso lindo de que todos podem enriquecer. Yes, We Can. Can? Um velho barbudo já havia alertado, há muito tempo atrás, de que não é bem assim. Se você nasce pobre, há 90% de chance de que você morra pobre. A mobilidade social, por mais que seja maior do que no Feudalismo ou diversos outros sistemas, é muito baixa. E não por falta de riqueza sendo gerada. Nunca se produziu tantos produtos, comida, serviços. Revolução Industrial, Revolução no campo… Mas cada vez menos pessoas tem acesso a uma vida de qualidade.
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Precisamos desconstruir o senso comum de que no socialismo todo mundo receberia a mesma coisa e de que é injusto ou desmotivador. Em primeiro lugar, existem centenas de teorias e correntes diferentes. Afirmar qualquer coisa sobre o socialismo, de maneira assim genérica, é simplesmente impossível. Pode-se, sim, fazer algumas ponderações sobre o socialismo real na ex-URSS, por exemplo. Mas mesmo lá havia diferença de salários (saiba mais nesta entrevista com um brasileiro que morou na URSS), só para constar.
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A base de uma sociedade socialista, na visão de alguns dos autores de que eu leio e estudo, poderia ser resumida na frase mais simples de que se tem notícia:
Isto significa que, no MÍNIMO, cada pessoa teria o direito aos seus meios de subsistência. Porque? Simplesmente por ter nascido humano. Simples assim. Direitos de todo cidadão, como, aliás, nossa Constituição cinicamente afirma garantir e os famosos Direitos Humanos, que já foram aprovados na ONU há tanto tempo, afirmam proteger. Comida, moradia, transporte, saúde. Essas banalidades.
Mas agora vem a segunda e mais importante parte. De cada um de acordo com as suas possibilidades.
Existiriam pessoas que trabalhariam menos do que as outras, ou que simplesmente não trabalhariam?
Às que decidissem trabalhar menos horas do que as outras, bem, receberiam menos, ou seriam despedidas. Às que decidissem não trabalhar, teriam seus recursos de subsistência – e só. Justo não?
Mas você realmente acha que alguém não faria absolutamente nada só porque tem comida e moradia? E ficaria fazendo o que, sentado em casa sem fazer nada? Vagabundeando nas ruas? E como pagaria a conta de luz? E o dinheiro para sair à noite?
Quem produz vagabundos é o sistema capitalista, onde trabalhar é uma obrigação e onde a desigualdade é tanta que existem indivíduos vivendo – e muito bem, obrigado – apenas de rendimentos. Porque aí a situação é outra. Uma coisa é não trabalhar e só ter dinheiro para não morrer de fome. Outra, bem diferente, é não trabalhar e ser sustentado às custas de mais-valia alheia ou ainda de papai e mamãe.
Numa sociedade socialista, qualquer um tem acesso ao ensino público de qualidade. Até hoje a Rússia é o país da europa com maior número de diplomados (+informações aqui).
Não existe essa de que numa sociedade socialista os indivíduos seriam acomodados.
Não vou citar novamente o exemplo da ex-URSS e de todos os avanços tecnológicos de que foi responsável para não parecer que este é o modelo de socialismo o qual defendo. Não é. Agora, quem arriscaria me dizer quais são os efeitos negativos de que uma sociedade em que todo cidadão tem direito a comida, trabalho, moradia, transporte e saúde de qualidade? Qual o efeito negativo de uma sociedade em que as pessoas trabalham somente 4 ou 5 horas por dia?
Salas de cinema lotadas?
Filas nas bibliotecas?
Ohh que horror, olha quantos jovens nos parques da cidade!!
A verdade é que o nosso ritmo de vida está completamente errado. Numa sociedade com todos estes direitos realmente garantidos, as possibilidades de inovação e de evolução enquanto seres humanos é ilimitada.
Hoje a produtividade das empresas é enorme. Há muito já não é mais necessário trabalharmos 8 horas por dia 7 dias por semana. Sem fazer absolutamente nada, só deixando as máquinas trabalharem pela gente, podemos ter muito mais tempo de VIDA.
Ser socialista é muito mais do que defender “salários iguais para garis e médicos”. É defender que a profissão de gari já não faz sentido, como, aliás, já não existe em várias partes do mundo. Profissões como cobrador de ônibus, vendedor de bilhetes, cobrador de caixa de supermercado, tudo está se modernizando e cada vez mais se precisa de menos gente para executar estes serviços. Isto deveria ser refletido em melhoria na qualidade de vida da população e no surgimento de empregos mais qualificados. Deveria se refletir em pessoas seguindo a carreira de que gostam e fazendo aquilo que amam – não em desemprego para esta gente que foi substituída por uma CPU.
Um socialista luta por uma sociedade mais justa. Só o que pedimos, no final das contas, são não mais deveres sem direitos, não mais direitos sem deveres, como, aliás, diz uma conhecida canção…
O crime de rico, a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido
À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres
Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional
(A Internacional Comunista, 1871.)

por Slavoj Zižek, London Review of Books, vol. 33, n, 16. Via Viomundo.
A repetição, segundo Hegel, tem papel crucial na história: se alguma coisa acontece uma única vez, pode ser descartada como acidente, algo que poderia ter sido evitado se a situação tivesse sido conduzida de modo diferente; mas quando um mesmo evento repete-se, é sinal de que está em curso um processo histórico mais profundo. Quando Napoleão foi derrotado em Leipzig em 1813, pareceu má sorte; quando foi derrotado outra vez em Waterloo, ficou claro que seu tempo acabara. Vale o mesmo para a continuada crise financeira. Setembro de 2008 foi apresentado como anomalia que podia ser corrigida com melhores regulações e controles; hoje se acumulam sinais de quebradeira nas finanças e já é evidente que estamos lidando com fenômeno estrutural.

Dizem e repetem e repetem que atravessamos uma crise da dívida e que todos temos de partilhar a carga e apertar os cintos. Todos, exceto os (muito) ricos. Aumentar impostos sobre muito ricos é tabu: se se fizer isso, diz o mesmo argumento, os ricos não terão incentivo para investir, haverá menos empregos e todos sofreremos mais. A única salvação, nesses tempos duros, é os pobres ficarem cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. O que devem fazer os pobres? O que podem fazer?
Embora os tumultos de rua na Grã-Bretanha tenham sido desencadeados pela morte de Mark Duggan, todos concordam que manifestam mal-estar mais profundo – mas que tipo de mal-estar? Como quando se queimaram carros nos subúrbios de Paris em 2005, os agitadores de rua na Grã-Bretanha não tinham mensagem alguma a comunicar. (Há aí claro contraste com as manifestações massivas de estudantes em novembro de 2010, que também geraram violência. Os estudantes deixaram bem claro que rejeitavam as propostas de reformas na educação superior.) Por isso é difícil pensar sobre os agitadores de rua britânicos em termos marxistas, como uma instância da emergência do sujeito revolucionário; encaixam-se muito mais facilmente na noção hegeliana de “ralé”, “escória” [orig. ‘rabble’], espaços marginais organizados, que manifestam o próprio descontentamento mediante explosões ‘irracionais’ de violência destrutiva – que Hegel chamava de “negatividade abstrata”.
Há uma velha história sobre um operário suspeito de roubo: todas as tardes, ao sair da fábrica, o carrinho-de-mão que ele empurra é cuidadosamente revistado. Os guardas nada encontram; o carrinho está sempre limpo. Até que a ficha cai: o operário roubava um carrinho-de-mão por dia. Os guardas não viam a mais visível verdade, exatamente como os jornalistas e especialistas e autoridades que comentaram os tumultos de rua. Dizem-nos que a desintegração dos regimes comunistas no início dos anos 1990s marcaram o fim da ideologia: o tempo dos projetos ideológicos em grande escala que culminaram em catástrofe totalitária está acabado; teríamos entrado numa nova era de política racional, pragmática. Se o lugar-comum de que vivemos numa era pós-ideológica é correto em algum sentido, pode-se ver nas recentes explosões de violência. Foi protesto de grau-zero, ação violenta sem demandas. Em sua tentativa desesperada para encontrar algum sentido nos tumultos, sociólogos e jornalistas deixaram passar sem qualquer registro o enigma que os tumultos nos impuseram.
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Olá pessoal,
recebi via SEJAMÍDIA uma sugestão muito interessante. É um vídeo do Café Filosófico, canal do youtube que discute vários temas interessantes. O debate em questão é o da educação e do trabalho.
A escola não serve para formar cidadãos mas sim para criar mão-de-obra barata. Desde a Revolução Industrial a instituição nada mais é do que uma extensão da fábrica. É fundamental mudarmos esta realidade e para isso precisamos entendê-la. Voltarei a essa discussão ainda essa semana com um novo documentário. Até lá!