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	<title>OCOMPRIMIDO.COM &#187; Entrevistas</title>
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	<description>Sua dose diária de contra-informação</description>
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		<title>Cerqueira César: Enchentes em SP refletem falta de governo</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 18:37:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thigo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

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		<description><![CDATA[
Júlio Cerqueira César Neto: &#8220;São Pedro e o lixo jogado na rua NÃO foram os responsáveis pelas enchentes de 8 de setembro e 8 de dezembro em São Paulo&#8221;
por Conceição Lemes, do Viomundo

Filho feio não tem pai. Já se o rebento tem pedigree, sobram candidatos.
O governador de São Paulo, José Serra, é hors concours na área.  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-1089" style="border: 1px solid black;" title="julio-carqueira" src="http://ocomprimido.tdvproducoes.com/wp-content/uploads/2010/02/julio-carqueira.jpg" alt="" width="230" height="239" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Júlio Cerqueira César Neto: &#8220;São Pedro e o lixo jogado na rua<strong> NÃO</strong> foram os responsáveis pelas enchentes de 8 de setembro e 8 de dezembro em São Paulo&#8221;</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>por </em><strong><em>Conceição Lemes, do <a href="http://www.viomundo.com.br/denuncias/cerqueira-cesar-enchentes-em-sp-refletem-falta-de-governo/" target="_blank">Viomundo</a><br />
</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Filho feio não tem pai. Já se o rebento tem <em>pedigree</em>, sobram candidatos.</p>
<p style="text-align: justify;">O governador de São Paulo, José Serra, é <em>hors concours </em>na área.  Assume como dele a criação do Programa Nacional de DST/Aids, do Ministério da Saúde, considerado um exemplo no mundo. Só que os <a href="http://www.viomundo.com.br/denuncias/aids-serra-assume-como-dele-programa-de-lair-e-adib-jatene/"><strong>verdadeiros criadores são a doutora Lair Guerra de Macedo Rodrigues e o professor Adib Jatene</strong></a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>“</strong><a href="http://www.viomundo.com.br/denuncias/genericos-jamil-haddad-denuncia-serra-e-psdb/"><strong>Serra, pai dos genéricos? PSDB, criador dos genéricos? Assumir como deles é um embuste!</strong></a><strong>”,</strong> disse em junho ao <em>Viomundo</em>, o médico Jamil Haddad, falecido na semana passada, aos 83 anos. Ex- deputado federal, ex-prefeito do Rio Janeiro e ministro da Saúde de outubro de 1992 a agosto de1993, Jamil Haddad é o verdadeiro pai dos genéricos do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Em compensação, Serra nunca é pai de perebentos. Inexoravelmente culpa os outros. Tanto que terceirizou a paternidade das inundações em São Paulo. Além do desplante de dizer que o noticiário negativo era obra do que chamou de <em>PT Press</em>,  o governador afirmou que problema da enchente foi a enorme, anormal, atípica chuva.</p>
<p style="text-align: justify;">Para colocar os pingos nos is, o <em><a href="http://viomundo.com.br"target="_blank"title="Acesse o site!" >Viomundo</a> </em>entrevistou o engenheiro Júlio Cerqueira César Neto. Durante 30 anos – está com 80 – foi professor de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica/USP. É considerado um dos grandes especialistas do Brasil nessa área.</p>
<p><span id="more-1088"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo</strong> – <strong>Nos últimos dois meses, São Paulo submergiu duas vezes. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o governador José Serra (PSDB) culparam principalmente a “quantidade anormal de chuvas no período” e “ lixo jogado na rua pela população”.  São Pedro e o povo são os responsáveis por essas duas inundações históricas?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Não.  Querendo dourar a pílula,  as autoridades lançaram mão de vários parâmetros para confundir a opinião pública. Esses fatores realmente existem.  Porém, São Pedro e a educação sanitária não são os causadores das enchentes de 8 de setembro e 8 dezembro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – São Pedro não teve mesmo culpa no cartório? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Nas duas inundações deste ano, São Pedro está completamente isento. As duas chuvas [8 de setembro e 8 dezembro] não foram catastróficas, elas foram moderadas. Aliás, sempre que acontece uma enchente dessas, o prefeito, o governador, os secretários aparecem dizendo que São Pedro foi o responsável. Nada deixa a população mais irritada do que essa desculpa esfarrapada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – E o lixo jogado na rua?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Prejudica um pouco, mas não é o principal. É só um fator colocado no debate pelas autoridades para confundir a opinião pública, e esconder os verdadeiros responsáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Então quais as causas principais dessas enchentes? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Uma delas, o assoreamento do Tietê. Assoreamento é o material sólido que vem na corrente líquida do rio: terra, erosão, lixo, entulho de obra. Na cidade de São Paulo, a declividade do Tietê é muito pequena e a velocidade, muito baixa. É como se o rio estivesse quase parado. Todo material sólido deposita-se, então, no fundo do canal, reduzindo a profundidade. Consequentemente, diminui também a capacidade de transporte de água na hora da chuva. É o que acontece com o Tietê. Em vez de ter espaço para passar, por exemplo, 1.000 metros cúbicos por segundo, só “cabem” 500. Os outros 500 transbordam.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Isso acontece também com os afluentes do Tietê?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Pelo contrário. Eles têm declividade forte e velocidade grande de água e não assoreiam. Consequentemente, das cabeceiras até chegar ao Tietê, eles têm facilidade de transporte de material sólido. E como o Tietê tem velocidade muito baixa, esse material se deposita no canal do próprio Tietê.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Sempre foi assim? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– O Tietê sempre teve velocidade baixa. Não dá para modificar isso. É a conformação geológica e topográfica do rio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Anualmente quanto de resíduos o Tietê recebe?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Na cidade de São Paulo, entre a barragem da Penha [Zona Leste] e o Cebolão [Zona Oeste], aproximadamente 1,2 milhão de metros cúbicos de terra. Se você deixar isso no fundo do rio, a capacidade dele diminui. E o que o Departamento de Águas e Energia Elétrica, o DAEE do governo do Estado de São Paulo, tem feito? O DAEE faz a limpeza, mas tira apenas 400 mil metros cúbicos por ano.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – O DAEE tira só um terço.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Deixa, portanto, anualmente uma quantidade muito grande de sedimentos no Tietê, diminuindo capacidade de ele transportar as vazões de enchentes. No dia 8 de setembro, às 16h30m, no Viaduto da Casa Verde, um engenheiro mediu a quantidade de água que passava no rio. Deu 735 metros cúbicos por segundo. Ali, naquele trecho, se o canal do Tietê estivesse limpo, poderia passar mais de 1.000 metros cúbicos por segundo. Se o Tietê já transbordou com 735 metros cúbicos é porque  estava assoreado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Se o Tietê não estivesse assoreado, a inundação de setembro não teria havido?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– A inundação aconteceu porque o Tietê estava com mais da metade da sua capacidade obstruída por resíduos depositados no fundo do seu canal e que não foram limpos adequadamente pelo governo do estado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – E no dia 8 dezembro? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Nenhum engenheiro foi lá medir.  Mas pelas consequências a coisa foi muito semelhante à de 8 de setembro. Se a vazão não foi 735 metros cúbicos por segundo, foi de 835, 800, ou algo parecido. Se não houvesse assoreamento, a cidade não teria inundado. Houve inundação, porque o Tietê estava ainda mais assoreado do que em setembro. As causas que levam às enchentes são principalmente o assoreamento e a má limpeza do rio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Ou seja, tem de se varrer todo dia o lixo da &#8220;casa&#8221;(rio). Se acumular, com o tempo a gente não passa mais&#8230;</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>&#8211; Você tem um rio que deveria ter capacidade de 1.000 metros cúbicos por segundo. Se ele está sujo, a capacidade dele fica reduzida para 500,  por exemplo. Assim, se a quantidade de água devido à chuva for de 700 metros cúbicos por segundo, ele extravasa. Não tem jeito. Encheu porque estava assoreado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Alargar o Tietê, avançando sobre as marginais, resolveria as enchentes? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Não acho que a solução seja por aí. Outro dia vi uma entrevista de um urbanista, dizendo que a prefeitura precisava tirar as marginais da várzea e colocá-las na encosta.  No meu entender, tirar as marginais do lugar é algo totalmente fora de propósito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – E o que fazer? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto</strong> – A calha do Tietê foi projetada há 20 anos. Na época, previa-se que a vazão de 1.000 metros cúbicos por segundo seria adequada para os nossos dias. Dez anos depois de iniciada a obra [levou 20 para ficar pronta], verificou-se que os 1.000 metros cúbicos já não seriam suficientes. Eram necessários 1.400. A urbanização foi muito mais intensa e mais rápida do que o imaginado. Ampliar o tamanho da calha não dá mais. A única forma de fazer com que a vazão voltasse a ser de 1.000 metros cúbicos por segundo é fazer piscinões. Infelizmente, pois são um mal necessário.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Por que infelizmente? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Do ponto de vista hidráulico, os piscinões são perfeitos. Retêm o pico das cheias dos afluentes, diminuindo a quantidade de água que chega ao Tietê.  É o único jeito de fazermos com que a vazão do Tietê baixe de 1.400 metros cúbicos por segundo para 1.000. Para isso, o governo do estado de São Paulo, via DAEE, projetou 134 piscinões. Entretanto, nos últimos dez anos, construiu apenas 43.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Um terço&#8230;</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Pois é. Com isso, não conseguiu baixar a vazão de 1.400 metros cúbicos para 1.000. Ou seja, mesmo que a calha do Tietê estivesse limpa, ela seria insuficiente para uma capacidade de 1.300 metros cúbicos por segundo, por exemplo, que são vazões que ocorrerão daqui para frente, no período chuvoso, que vai principalmente de janeiro a março.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Então até agora não choveu muito mesmo? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– As duas enchentes ocorreram com chuvas moderadas. São chuvas do período de estiagem. Ou seja, o pior está por vir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – E como resolver a questão das enchentes a curto prazo? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– A calha do Tietê tem duas deficiências importantes e não  há como resolvê-las de pronto. Vamos ter de conviver com a insuficiência da calha por muitos anos ainda.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Por quê?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto</strong> – Primeiro: temos de fazer 91 piscinões.  Se eles levaram [o governo São Paulo] 10 anos para fazer 43, levarão mais 20 para fazer os que faltam. Segundo: o governo do estado não está disposto a gastar mais do que a limpeza [de resíduos da calha] de 400 mil metros cúbicos por ano, quando são necessários  1,2 milhão. São duas deficiências que precisam ser resolvidas. Ou o governo do estado faz mais piscinões e limpa a calha do Tietê ou vamos ter enchentes frequentemente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – O senhor disse que os piscinões são um mal necessário. Gostaria que me explicasse por quê. </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto</strong> – Nós temos um sistema que conduz o esgoto doméstico e outro, as águas pluviais. Chama-se sistema separador absoluto. Porém, há 30 anos, a nossa &#8220;magnífica&#8221; Sabesp constrói redes coletoras de esgoto que jogam o esgoto diretamente no córrego mais próximo. O córrego é do sistema de drenagem e não do sistema de esgotos. Então, todos os córregos da região metropolitana de São Paulo e o próprio rio Tietê – deste eu nem preciso falar para você – são esgotos a céu aberto. Os esgotos saem da rede, entram nos córregos. Portanto, quando se faz um piscinão num córrego desses, você retém não apenas a água da chuva mas a do esgoto também.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Quer dizer que o piscinão é um “esgotão”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Na prática, os piscinões são verdadeiros esgotos, sim. Ainda mais quando a água fica parada. Daí, sim, ela decanta, formando um lodo no fundo. É uma situação sanitária extremamente desfavorável. Esse é um dos aspectos pelos quais eu não gosto dos piscinões. Na sequência, eles se tornam um tremendo problema; são foco de proliferação de doenças na cidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Ou seja, do ponto de vista de saúde pública o piscinão é péssimo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Sim. Por isso eu digo que é um mal necessário. Só deve ser feito onde não há outra coisa a fazer. Não façam, pelo amor de Deus, piscinões para resolver alagamentos das cidades da região metropolitana, que são as enchentes das prefeituras. Deixem a água correr normalmente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – A curto prazo, o senhor já disse que não tem solução para o Tietê. Se o governo acelerar hoje a limpeza do rio, o resultado não vai aparecer amanhã. E agora?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Esse trabalho tem de ser iniciado já. O governo do estado tem de passar a tirar 1,2 milhão metros cúbicos de resíduos do Tietê.  Precisa colocar mais dinheiro no orçamento do ano que vem, porque essas obras não são feitas em uma semana. E esse trabalho de limpeza tem de ser feito o ano inteiro – de janeiro a dezembro. Ininterruptamente. É tirar, tirar, tirar, para evitar o acúmulo de resíduos no fundo do rio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – E se governo do estado de São Paulo não fizer a limpeza diária como tem de ser feita, nem investir os recursos necessários?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Então que avise a população. Avise-a também que a cidade vai inundar. Quanto aos piscinões, em vez de levar 10 anos para fazer os que 91 que faltam, que faça em 5 anos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – E se o governo disser que não pode?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Pode, sim. É só colocar dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Isso implica estabelecer as enchentes como prioridade.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto</strong> – Se é que é uma prioridade&#8230; Não me parece.  Até agora, o governo de São Paulo não disse a que veio. Na quarta-feira, a Câmara Municipal aprovou o orçamento da Prefeitura. Para 2010, a verba de córregos e galerias para o sistema de drenagem pluvial da cidade foi cortada pela metade. E olha que provavelmente nem o orçamento inicial seria suficiente. Mas não cortaram a verba de publicidade da prefeitura. Com essas atitudes, o  recado que deram é o de que enchente não é um problema importante.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Será que a Prefeitura e o Governo do Estado de São Paulo estão contando  com a ajuda  especial  de São Pedro nos próximos meses? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Eu não vejo com otimismo a nossa próxima estação chuvosa, não. Janeiro, fevereiro e março são os meses  das grandes chuvas. E nós vamos ter situações piores do que as tivemos em setembro e dezembro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Há quatro anos, quando foi concluído o bilionário rebaixamento da calha do Tietê, se propagandeou que São Paulo não teria mais enchentes. E agora? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– Essa informação de que não teríamos mais enchentes em São Paulo era simplesmente uma mentira. Primeiro, a calha não tem a capacidade que deveria ter. Segundo, faltam 91 piscinões. Terceiro, se o governo não se propuser a tirar do fundo do rio a quantidade necessária de resíduos, nós vamos continuar tendo mais enchentes . Portanto, é mentira que não teríamos mais enchentes aqui.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Viomundo – Mas não tem jeito mesmo de se evitar inundação nesses próximos meses em Sâo Paulo? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Júlio Cerqueira César Neto </strong>– A não ser que São Pedro se transforme num anjinho e diga: “Não chova mais na região de São Paulo, a não ser umas gotinhas&#8230;” Mas isso a gente não pode esperar, concorda?</p>


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		<title>Entrevista com o jornalista espanhol Pascual Serrano</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 23:28:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thigo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
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		<description><![CDATA[
Por Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Nilton Viana e Tatiana Merlino, do BrasildeFato
O silêncio é, paradoxalmente, um dos principais mecanismos adotados pelos meios de comunicação para manipular os fatos. Se uma notícia não interessa aos donos da imprensa – e, consequentemente, aos donos do mundo –, ela simplesmente não é veiculada. Tal denúncia é feita pelo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-1067" style="border: 1px solid black;" title="pascual_serrano" src="http://ocomprimido.tdvproducoes.com/wp-content/uploads/2010/01/pascual_serrano.gif" alt="" width="419" height="161" /></p>
<p style="text-align: justify;">Por Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Nilton Viana e Tatiana Merlino, do <a href="http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/entrevistas/201cdevemos-buscar-uma-revolucao-midiatica201d/view" target="_blank">BrasildeFato</a></p>
<p style="text-align: justify;">O silêncio é, paradoxalmente, um dos principais mecanismos adotados pelos meios de comunicação para manipular os fatos. Se uma notícia não interessa aos donos da imprensa – e, consequentemente, aos donos do mundo –, ela simplesmente não é veiculada. Tal denúncia é feita pelo jornalista espanhol Pascual Serrano, um dos fundadores da página alternativa Rebelión e autor do livro “Desinformación. Cómo los medios ocultan el mundo”, lançado em meados do ano passado.</p>
<p style="text-align: justify;">“Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião”, diz, em conversa na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP). Portanto, segundo ele, os meios, além de ignorarem seletivamente determinados fatos, lançam mão de outros expedientes, como a descontextualização e a linguagem enviesada. Para Serrano, só há um modo da esquerda se defender de tamanha manipulação: Criar seus próprios meios &#8211; em vez de ficar esperando por pequenos espaços na grande mídia.</p>
<p><span id="more-1066"></span><strong>Brasil de Fato – Você tem um livro chamado “Desinformação. Como os meios ocultam o mundo”. Quais são os principais mecanismos que os meios utilizam para ocultar o mundo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Pascual Serrano –</strong> Eu dividiria em dois mecanismos. Por um lado, os estruturais: ou seja, os mecanismos cotidianos de funcionamento da imprensa que, por seu modelo de trabalho, são incompatíveis com a explicação do mundo. Fundamentalmente, seria a falta de antecedentes sobre um contexto para se compreender uma situação complexa, a dinâmica da televisão – que, com seu ritmo trepidante, impede a compreensão, sobretudo, de assuntos complicados – e o culto ao sensacionalismo da imagem – que ocorre muito na televisão. Isso impede aprofundar as questões e enviar uma mensagem complexa.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, quando você quer dar um sentido simples – que o Irã tem bomba atômica ou que o Chávez é um ditador –, isso pode ser dito em poucas palavras. Mas se você quer explicar que a política dos EUA está provocando um genocídio no Afeganistão, isso exige uma explicação mais complexa. Uma outra situação é quando há um consenso e um plano premeditado por parte dos grandes meios para enviar uma mensagem concreta. Isso contempla estigmatizar ou criminalizar líderes políticos que não são do gosto do establishment mundial, até criminalizar movimentos sociais, ou determinados coletivos ou causas. Atentem para o fato de que o mecanismo não é somente a mentira, que essa existe, mas não é a mais habitual. Porque eles sabem que sua principal carta é a credibilidade. Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião. Ou seja, o plano é mais refinado: utilizam-se de silenciamentos de notícias que eles não gostam.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo: a missão Milagre, realizada em uma parceria entre Venezuela e Cuba, que fez com que um milhão de pessoas de origem humilde na América Latina e Caribe conseguissem recuperar a visão, é notícia, parece evidentemente relevante , mas isso está silenciado. Além disso, eles também jogam com o enquadro, o enfoque da notícia, buscando elementos dentro de um contexto que levem para uma tese e não para outra. E o que fica claro no livro é que o modelo muda de uma região para outra, de um tema para outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo: no conflito Palestina-Israel, o problema é a falta de contexto. Ninguém, neste momento, parece saber dizer a origem deste conflito, apesar dele estar presente todos os dias no noticiário. Utilizam a linguagem como método de manipulação, de maneira que sistematicamente chamam de terrorista os palestinos. Chamam de sequestrados os soldados israelenses capturados. Chamam de detidos os civis palestinos que são sequestrados pelo exército israelense.</p>
<p style="text-align: justify;">Na África, por exemplo, aplica-se o silenciamento, ou apresenta-se os conflitos como questões tribais, em vez de mostrarem os interesses de empresas e poderes coloniais como França e EUA. E, na América Latina, utilizam a estigmatização e criminalização constante dos líderes, como Hugo Chávez, Evo Morales ou Fidel Castro. No caso da Venezuela, é curioso, porque apresentam como escândalos notícias que se apresentam como normais em outros países. Reivindicam como escândalos a não renovação de uma concessão de TV cujo prazo acabou e a mudança de um fuso horário. Há outra pauta habitual em relação à América Latina, através da qual o presidente ou o líder político são apresentados sempre em meio a uma imagem de crise, desestabilizações e caos. Isso faz com que, na Europa, todo mundo conheça os nomes dos presidentes da Bolívia e da Venezuela, mas não conheçam o nome do presidente do Peru ou do México. Inclusive, se você pergunta quem teria sido outro presidente da Bolívia ou da Venezuela, não sabem dizer. E dos últimos anos, Evo Morales e Hugo Chávez, todo mundo sabe quem é.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quais foram os métodos utilizados para fazer o livro, como foi a pesquisa?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O livro nasceu um pouco da minha experiência como diretor da Telesur, onde observei que tudo que chega das agências de notícia e, inclusive, os hábitos dos jovens jornalistas, impedem explicar em profundidade o está acontecendo no mundo. Então, refleti sobre como explicar o mundo com suficiente complexidade na televisão. Tudo que eu quis fazer na Telesur muitas vezes não é possível fazer em uma televisão por imperativos técnicos, econômicos, logísticos ou de imagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, comecei a entrevistar especialistas e jornalistas que considero autores de confiança e que conhecem em profundidade diferentes regiões – por exemplo, sobre Afeganistão, Congo, Cuba, China. Enfim, perguntei a estes especialistas sobre a zona que conheciam. Perguntei se o que passa na imprensa se ajusta ao que acontece. Eles, evidentemente, opinaram e mostraram como determinadas situações não estão ajustadas ao que está sendo contado nos meios de comunicação. Falei com as organizações de direitos humanos que estão nos locais. Busquei analistas que trabalham com meios de comunicação, observatórios de meios de comunicação, especialistas nos seguimentos de notícia em âmbito acadêmico. Conversei com meios alternativos que não estão tão influenciados por interesses publicitários ou de grupos econômicos empresariais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Você acredita que existe uma espécie de plano estabelecido entre os diversos meios para desinformar ou as coisas acontecem de forma mais natural e automática, como sendo uma espécie de ação de imprensa que vai se estabelecendo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não é um plano desenhado, mas parte da evolução espontânea do mecanismo de funcionamento dos meios de comunicação. Seguindo a ideia: meios de comunicação são propriedades de grandes grupos empresariais. Interesses econômicos de grandes empresas multinacionais pedem grandes investimentos em publicidade. Políticos liberais que não gostam de políticas progressistas reagem em conjunto com estes atores. Ou seja, assim se forma um consenso para satanizar o Hugo Chávez ou para satanizar ou criminalizar a Revolução Cubana. A grande imprensa não se reúne para dizer: “como vamos atacar Cuba ou Chávez?”. Os interesses destes grupos econômicos é que vão atuar em consenso, sem necessidade de se coordenarem.</p>
<p style="text-align: justify;">Um exemplo claro são os países latino-americanos que passam por reformas nas leis de comunicação. A reação dos grandes meios de comunicação na Venezuela, na Argentina e no Equador foi igual. Governos que iniciam processos de democratização dos meios de comunicação, cedendo espaço aos movimentos sociais, meios independentes e imprensa livre, encontram sistemática oposição de grupos midiáticos espanhóis, bolivianos, argentinos e equatorianos. E, se amanhã houver uma iniciativa como essa no Brasil, será igual.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, se por um lado não há um plano, por outro existe uma articulação dos meios, como, por exemplo, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) ou a ONG Repórteres Sem fronteira.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como é esta articulação?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sim, eles têm mecanismos de combate comum. E é bom decifrar como operam e como não têm nenhuma legitimidade ou representatividade. Por exemplo, quando se fala da Sociedade Interamericana de Imprensa, não devemos nos cansar de explicar que se trata de uma associação patronal. Que defende as empresas e não representa nenhuma liberdade de expressão. É como se empresas que constroem estradas falassem da falta de liberdade de movimento porque estão impedidas de construírem uma estrada na Amazônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Não, liberdade de movimento é diferente de construir estradas. Além disso, temos que esclarecer que quando as empresas falam de liberdade de expressão, estão reivindicando o seu direito de censura. Ou seja, querem continuar com seu direito de manter o oligopólio e o controle da informação. Dizer o que pode ir ou não para a tela e chegar ao público. A Repórteres Sem Fronteiras é algo similar. Tem denunciado os jornalistas mortos no Iraque, mas muda de reação quando fala da Colômbia. Recentemente, fiz em uma entrevista com um jornalista colombiano que disse que uma vez perguntou a um representante da Repórteres Sem Fronteiras como ele considerava a liberdade de expressão na Colômbia. Ele respondeu: “Sim, é verdade que nos matam, mas na Colômbia a liberdade de expressão existe”!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quais são os países onde a desinformação é maior? Em qual nação os meios estão mais concentrados?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito que o país mais desinformado é os EUA, considerando a quantidade de recursos que o governo estadunidense tem para infiltrar analistas, comprar jornalistas, pressionar as linhas informativas aos seus interesses. Ademais, os lobbies das empresas, como as de armas, sobre conteúdos jornalísticos, ficou claro na guerra do Iraque. Em alguns países, as denúncias de que não haviam armas de destruição massiva ou de que era uma invasão ilegal ao país do Oriente Médio tiveram uma certa aceitação. Nos EUA, dados de analistas e informações mostraram que a desinformação publicada a respeito da invasão era totalmente a favor da intervenção. Ao ponto em que 51% dos estadunidenses acreditavam que Saddam Hussein havia participado pessoalmente nos atentados de 11 de setembro. O que demonstra claramente que foram enganados. Mas acredito que o país onde a desinformação levou ao enlouquecimento manipulador de maneira mais violenta e radical é a Venezuela.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro narra exemplos impressionantes. Não só como os meios de comunicação venezuelanos tratavam o Chavéz, mas como as informações chegavam a outros países. Me lembro de uma manifestação a favor de Chávez que as televisões, ao vivo, para mostrarem que haviam poucas pessoas, filmaram a dois quilômetros de onde estava acontecendo o ato. Ou mostravam e repassavam para outros países imagens de manifestação em oposição a Chávez com imagens gravadas há anos!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como é possível se contrapor a este poder?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Neste momento, o principal mecanismo de combate que o capital e a burguesia possuem contra os governos progressistas não é sequer a ameaça de um golpe militar, são os meios de comunicação. Já conseguiram coisas que nenhuma empresa e nenhum governo conseguiram. Maior impunidade, menos controle por parte das legislações. Creio que os governos progressistas reagiram demasiadamente atrasados. Evo Morales ou o Lula passaram anos reclamando que os meios de comunicação não paravam de atacá-los e agredi-los. Apenas reclamar me parece uma política ineficaz.</p>
<p style="text-align: justify;">Se um governo progressista é atacado, o que ele tem a fazer é desenvolver políticas públicas para evitar isso. É como em educação: se não há colégio para todas as crianças, os governos não devem vir se queixar, devem construir escolas. E estes governos devem criar políticas públicas de democratização da comunicação. Mas estes meios públicos e comunitários não podem se converter em meios de governo, presidentes e partidos. Devem ser participativos, democráticos e estar sob controle do cidadão. Esses são pontos imprescindíveis e que estão se desenvolvendo lentamente, mas com passos firmes. A Venezuela está na primeira linha de desenvolvimento de meios comunitários e públicos, à frente da Europa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Você acredita que a esquerda, de maneira geral, já se deu conta da importância dos meios de comunicação como mecanismo de resistência à dominação das elites?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda se deu conta, ela é consciente de que tem grandes inimigos nos meios de comunicação, mas não sabe o que fazer. Durante muitos anos, a esquerda achou que deveria pactuar com os grandes meios. Organizando entrevistas coletivas, passando as informações, dando subvenção fiscais. Assim, acreditaram em um acordo com o capital, pensando que ele os poderiam deixar governar. A esquerda tradicional, seja em governos progressistas ou em partidos políticos, precisa compreender que não há pacto possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Os grandes meios somente hipotecam espaços, mas não deixarão que nada se mova. O que devemos buscar é uma revolução midiática. Pois o dilema da mídia é o mesmo dilema que há em outros setores. Então, não há pacto com latifundiário, porque ele nunca vai querer perder o latifúndio, nem de terra, nem de mídia. Porque são empresas de comunicação e, por trás, grupos de empresários e um modelo econômico.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como é o panorama da imprensa de esquerda na Espanha?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">É deprimente. O México tem um excelente jornal, que é o La Jornada. No Brasil, vocês têm o Brasil de Fato, que é uma experiência muito bonita de coordenação dos movimentos sociais para ter uma publicação, o que é algo muito difícil. Na Itália, ainda há o Il Manifesto e outros ligados à esquerda. Mas na Espanha não.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>QUEM É?</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Nascido em Valencia (Espanha) em 1964, Pascual Serrano fundou em 1996, juntamente com um grupo de jornalistas, a página Rebelión (<a href="www.rebelion.org" target="_blank">www.rebelion.org</a>). De 2006 a 2007, Serrano foi assessor editorial da Telesur. Hoje, colabora com publicações espanholas e latino-americanas e, mensalmente, com Le Monde Diplomatique. Entre seus livros sobre política e comunicação, destacam-se: “Desinformación. Cómo los medios ocultan el mundo”, de 2009; “Perlas 2. Patrañas, disparates y trapacerías en los medios de comunicación”, de 2007, e “Medios violentos. Palabras e imágenes para el odio y la guerra”.</em></p>


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		<title>Experiências de Almir na União Soviética</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Dec 2009 21:41:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thigo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Thiago Dutra Vilela

Conheci o Almir pela internet, numa comunidade do orkut. Depois de participar de alguns tópicos obtive a informação de que ele havia morado na União Soviética entre as décadas de 70 e 80. E atualmente mora na minha cidade!
Foi a chance de obter mais informações sobre essa época tão pouco estudada e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Thiago Dutra Vilela</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://img224.imageshack.us/img224/8232/almir2ei2.jpg" alt="Foto do Almir" /></p>
<p style="text-align: justify;">Conheci o Almir pela internet, numa comunidade do orkut. Depois de participar de alguns tópicos obtive a informação de que ele havia morado na União Soviética entre as décadas de 70 e 80. E atualmente mora na minha cidade!</p>
<p style="text-align: justify;">Foi a chance de obter mais informações sobre essa época tão pouco estudada e tão mal lembrada &#8211; pela direita e pela esquerda. Acredito que há de se compreender o que aconteceu para poder aprender com todos os erros e acertos do chamado &#8220;socialismo real&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">E para termos acesso à verdade não basta apenas investigar os relatos de Moscou. Adianta menos ainda apenas analisarmos a propaganda dos Estados Unidos e da mídia Internacional. Apresento, então, o ponto de vista de Almir, um comunista, na época estudante universitário, estagiário e posteriormente um trabalhador do país. Almir fala sobre a juventude, a imprensa, a economia e a política soviética na sua época.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vamos começar então perguntando, porquê e quando você foi para a URSS Almir? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Tive que fugir da Ditadura Brasileira, onde inclusive fiquei preso durante um tempo. Fui estudante e estagiário (sou engenheiro geólogo-petroleiro) em um campo de exploração de petróleo na Bielorússia (cidade de Rhêtchitsa). Estive na URSS de 1974 a 1985.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-738"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E como era o perfil da juventude soviética? A escola era bem vista? Muitos faziam faculdade?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A juventude que conheci era bastante tranqüila. Após cursar uma escola de 11 anos todos estavam preparados para a vida adulta. Podiam então ou continuar estudando ou trabalhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Se decidissem pelo ensino superior todos os estudantes eram bolsistas. Praticamente não havia cursos noturnos para jovens. Os cursos noturnos destinavam-se a adultos que desejavam fazer alguma suplementação.</p>
<p style="text-align: justify;">Como praticamente todos os rapazes serviam as forças armadas eles ingressavam na universidade um pouco mais maduros que as jovens. Uns poucos &#8220;escapavam&#8221; do serviço militar e ingressavam na universidade, mas eram obrigados a &#8220;servir&#8221; em épocas especiais (verão e início do outono) durante os estudos.</p>
<p style="text-align: justify;">Como a diferença salarial não era muito grande, não havia a pressão muito grande para entrar na universidade. Havia inúmeros cursos técnicos de segundo grau (incluidos na formação geral de 11 anos) e os cursos superiors de duração menor (chamados de &#8220;térrnikum&#8221;). Terminada a universidade havia a opção de continuar uma pós-graduação ou trabalhar. Havia a &#8220;rhaspridilênie&#8221; (distribuição) &#8211; que era o emprego através de uma guia de encaminhamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Como havia regiões que o governo queria desenvolver (Sibéria, Mar Branco e outras) havia o incentivo salarial e outros benefícios. Se o salário em Moscou era 100, naquelas regiões especiais chegava a ser 140, ou mais&#8230; além de incentivos como moradias novas e outros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Muito interessante. E quanto as problemas sociais, haviam &#8220;crianças de rua&#8221; e mendigos nesse período?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Há um fenômeno extremamente degradante nas ruas das nossas cidades (moro em Niterói). Em muitos cruzamentos (sinais ou semáforos) há crianças (adultos, velhos, adolescentes) vendendo coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ultimamente as crianças tentam fazer os chamados &#8220;malabares&#8221;. Morei onze anos na URSS, viajei (como estudante de geologia) a várias repúblicas (Ucrânia, Moldávia, Bielorússia) e conheci o &#8220;profundo campo&#8221; &#8211; interior do país.<br />
Nunca vi uma criança descalça ou mal vestida. Todas as crianças estavam na escola integral. Ainda sobre crianças, havia uma organização chamada &#8220;pioneiros&#8221;. Nos clubes dos &#8220;pioneiros&#8221; havia atividades culturais, esportivas e educacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Perto do circo (novo) de Moscou (estação de metrô &#8220;leninskye góri) está o &#8220;Palácio dos Pioneiros&#8221; &#8211; um capítulo a parte. Lá no &#8220;palácio (uma área enorme com vários prédios) havia vários &#8220;círculos&#8221;. Fui voluntário de um destes &#8220;círculos&#8221; que se chamava &#8220;Clube Internacional da Amizade&#8221; &#8211; em russo KID. No KID as crianças aprendiam línguas estrangeiras. Eu dei aula de português.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente vários adultos russos falam português que aprenderam comigo no &#8220;Palácio dos Pioneiros&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vamos entrar então num assunto mais polêmico. Todo mundo sabe que durante a Guerra Fria os EUA não pouparam esforços para satanizar o Estado Soviético. Isso era nítido desde as produções cinematográficas até o noticiário local.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vocês tinham acesso a jornais internacionais? Como eram as publicações soviéticas? Como era o sistema de televisão soviético?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A imprensa soviética era muito ampla, com dezenas de títulos dos mais variados. De acordo com o interesse você podia encontrar publicações desde futebol e xadrez até ciência popular. Claro que havia a imprensa especializada para os mais diferentes círculos de leitores: Revista de geologia, por exemplo, se podia adquirir por assinatura.</p>
<p style="text-align: justify;">As editoras lançavam catálogos de publicações para o ano seguinte e você podia fazer encomenda. Quando o livro chegava na livraria, você recebia um aviso e ia lá adquirí-lo. Os preços dos livros, jornais e revistas eram muito baixos.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia jornais (semanais) com resumos dos jornais estrangeiros (jornal &#8220;Zarubijom&#8221; &#8211; que significa &#8220;no exterior&#8221;). As publicações de diversos paises socialistas eram adquiridas dos &#8220;kiosks&#8221; (banca de jornal) também a preço baixo. As bancas dos jornais recebiam todo tipo de publicação do exterior como &#8220;Veja&#8221;, &#8220;Jornal do Brasil&#8221;, &#8220;Newsweek&#8221;, &#8220;Times&#8221;, &#8220;Der Spigel&#8221;, &#8220;Corrieri de la serra&#8221;, &#8220;Le monde&#8221; &#8220;Tribula Ludo&#8221; (da Polônia), &#8220;L&#8217;Humanite&#8221;, Lunitá (enfim todos os jornais dos PCs de todo o mundo &#8211; naturalmente a nossa &#8220;Voz Operária&#8221;).</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a televisão, haviam programas especiais sobre noticiário internacional &#8220;Cevódnia v mire&#8221; (&#8220;Hoje no mundo&#8221; -programa diário). O programa &#8220;Vrêmia&#8221; (&#8220;Tempo&#8221;) era uma grande revista noticiosa diária com vários segmentos (tipo JN); programas infantis (os desenhos eram muito bons) como &#8220;Spakóinaia nótch malichí&#8221; (&#8220;boa noite pequeninos&#8221;). Ainda na TV: muitos filmes das mais variadas origens (do exterior &#8211; basicamente dos paises do CAME-Conselho de Ajuda Mútua Econômica-, mas havia bons filmes dos paises capitalistas também).</p>
<p style="text-align: justify;">Nas repúblicas federadas havia os programas locais em língua local e os programas nacionais (de toda a União) em russo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E como a população, de forma geral, entendia o lado oposto do sistema? Como era visto a interferência estadunidense? O que sabiam da América Latina? O que pensavam sobre Cuba, por exemplo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A população era muito bem informada sobre o que acontecia &#8220;do outro lado&#8221;. No entanto havia uma certa dúvida.</p>
<p style="text-align: justify;">Vou dar um exemplo concreto: Houve um filme feito aqui no Brasil baseado na obra de Jorge Amado &#8220;Capitães da Areia&#8221;. Ali são apresentadas as crianças pobres de Salvador tendo que &#8220;se virar&#8221; para ganhar a vida. Mal sabia Jorge Amado que a situação iria piorar e muito.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, um motorista de taxi perguntou-me se realmente há crianças tão pobres ou se aquilo era &#8220;propaganda do governo&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Na cabeça dos soviéticos não cabia uma realidade tão cruel &#8211; as cenas daquele filme lhes parecia coisa inventada. Eles já haviam esquecido que as crianças russas já tinham passado por aquela mesma situação na época do czar. Ou seja, aquela situação para eles era um passado remoto.</p>
<p style="text-align: justify;">As informações sobre a América Latina e sobre Cuba eram amplas. Muitos soviéticos passavam férias em Cuba &#8211; como em outros paises do CAME (URSS, Polônia, RDA, Hungria, Romênia, Bulgária, Tchecoeslováquia, Mongólia, Cuba).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mudando um pouco de assunto, qual é a sua opinião sobre Stálin? Como o povo soviético o considerava?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Bem, personalidades históricas têm que ser vistos dentro do contexto em que viveram e atuaram. Não podemos perdoar Stálin pelos seus erros (como diziam os soviéticos &#8211; evitando a palavra crimes). Foi uma grande infelicidade a morte prematura de Lênin. O modelo de democracia interna do partido foi destroçado pela personalidade forte e centralizadora de Stálin.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua personalidade doentia causou profundos males na construção do socialismo na URSS. Conhecemos as vítimas famosas de Stálin (como Burrárin, Preabrajênski, Kaminev, Trótski, Zinoviév), mas muitas foram as vítimas anônimas dentro do partido. O que se atribui a Stálin como o êxito obtido na transformação de um país atrasado em primeira potência da Europa, deve-se ao estoicismo do povo soviético.</p>
<p style="text-align: justify;">Os soviéticos eram muito discretos quando se referiam a ele. Uma vez eu vi um caminhão (durante uma prática geológica na Criméia) com a foto do Stálin no pára-brisa. Comentamos com o professor-orientador e ele respondeu: &#8220;Aní ivó uvajáiut&#8221; &#8211; &#8220;Eles o respeitam&#8221;. Lembrando que o governo de Bréjneve foi de certo modo uma reação à desestalinização de Rruchóv.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, hoje sabemos de todos aqueles acontecimentos lamentáveis de 1936-1938 (o grande expurgo) e Stálin passa para a História como um sanguinário como foram Ivan &#8220;Gróznyi&#8221;(conhecido como terrível-em russo ameaçador) e tantos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho me perguntado: &#8220;pode uma personalidade tão ruim produzir coisas boas?&#8221; A resposta é sim. Pois com toda a perversidade de uma personalidade doentia, a União Soviética foi, na prática o melhor Estado para o povo trabalhador. Nenhum país capitalista pode oferecer ao seu povo trabalhador os benefícios que a URSS proporcionou ao seu povo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Estamos chegando na parte central da entrevista.<br />
Como eram as relações de produção na URSS?<br />
De quem era o controle efetivamente?<br />
O trabalhador tinha autonomia na produção?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como diria o médico nazista vamos por partes, cada item é um tema vasto!</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Relações de produção</em></p>
<p style="text-align: justify;">A URSS era um estado socialista. Portanto, as relações de produção eram radicalmente diferentes das relações no capitalismo. Aqui podem ser feitas muitas perguntas sobre a relação &#8220;empregado&#8221; x &#8220;empregador&#8221;, já que não se pode usar a expressão &#8220;capital-trabalho&#8221;. O grande empregador era o Estado, mas não no sentido de &#8220;funcionários públicos&#8221;, como a burguesia adora difundir.</p>
<p style="text-align: justify;">O direito ao trabalho era garantido pela constituição. A partir daí não havia a figura do &#8220;desempregado&#8221;. O trabalho era um direito mas também um dever (como é o voto no Brasil), consequentemente não havia a figura do parasita &#8220;vivendo de rendas&#8221;. Só não trabalhavam os crianças, os velhos aposentados e os incapazes (físicamente e ou mentalmente).</p>
<p style="text-align: justify;">Os prisioneiros (conforme a pena) eram obrigados a trabalhar. Um capítulo a parte pode ser os famosos &#8220;gúlag&#8221; que nada mais é do que uma sigla da administração penitenciária.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Controle de produção</em></p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a produção, cada uma obedecia a um plano. Os planos foram introduzidos em 1928. Nas últimas décadas falava-se em plano quinquenal, sendo que alguns objetivos a ser alcançados tinham uma maturação de até 15 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada setor (ou ente econômico &#8211; não sei como chamam isso) da produção tinha o próprio objetivo a ser alcançado, ou seja, as metas. As metas eram distribuidas no tempo. Metas semanais, mensais, sazonais, semestrais, anuais.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim que havendo cumprido a meta (obrigatória) partia-se para a produção &#8220;além do plano&#8221; (&#8220;sver plana&#8221;).</p>
<p style="text-align: justify;">Para sobrecumprir a meta havia o &#8220;interesse material&#8221; (&#8220;materiálhnaia zaintereçôvnasth&#8221;) compensado através dos &#8220;prêmios&#8221; (adicional de salário).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E se as metas não fossem atingidas, haviam punições ou castigos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Bom, aí cabia um estudo das causas: se o plano foi bem feito, se houve circunstâncias desfavoráveis etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Os planos eram elaborados pelo &#8220;Gasplan&#8221; &#8211; ministério da planificação, mas os setores produtivos opinavam sobre a possibilidade da realização do plano. Muitas vezes o plano era corrigido &#8220;para cima&#8221;. Não havia a maracutaia de fazer uma &#8220;meta&#8221; pequena e depois sobrecumprí-la em 300% para ganhar um &#8220;prêmio&#8221; três vezes maior. Os prêmios tinham limite.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Autonomia sobre a produção</em></p>
<p style="text-align: justify;">Individualmente um trabalhador não tinha autonomia sobre a produção. Ele tinha que cumprir a meta. Naturalmente que a meta era exequível. Se por algum motivo a meta não era cumprida em um dia, ela seria cumprida ao longo do tempo. Novamente: as metas não podiam ser irreais. Frequentemente lá pelo mês de outubro alguns &#8220;entes&#8221; econômicos já anunciavam: &#8220;já cumprimos o plano do ano&#8221;. E aí era um festival de &#8220;já estamos &#8220;sobrecumprindo&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Naturalmente que a imprensa dava grande destaque ao sobrecumprimento do plano, principalmente naqueles setores mais importantes da economia, como a produção industrial e a produção agrícola.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E o controle da burocracia, era opressivo? Haviam muitos casos de &#8220;sabotagem&#8221;?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O controle era necessário e severo. Eu não diria opressivo. Todos sabiam que as coisas não andariam sem controle.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu como estudante tinha minhas metas e sabia que se não cumprisse em uma semana já estavia &#8220;devendo&#8221; para a próxima; então havia que &#8220;apretar los pantalones&#8221; e cumprir a meta.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve sabotagem nos primeiros anos do poder soviético. Mas os sabotadores não se criavam; logo eram descobertos e (em russo: oi, oi,oi!) &#8211; popularmente: estavam ferrados. Durante a guerra houve tentativas de sabotagem dos &#8220;contras&#8221; que tinha a vã esperança de serem &#8220;libertados&#8221; pelos alemães! Esses também não sobreviveram para contar a história.</p>
<p style="text-align: justify;">Os soviéticos tinham consciência de que a propriedade dos meios de produção era social &#8211; pertencia a toda a sociedade. Assim que não havia &#8220;sabotagem&#8221;. Um ou outro que fazia &#8220;corpo mole&#8221; logo era admoestado pelos próprios colegas de trabalho. Eram muito frequentes as (&#8220;sabránia&#8221;) reuniões de trabalho para descobrir onde estava o furo, se a meta não estivesse sendo alcançada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em relação a distribuição, muito se fala que, devido ao peso dado ao complexo industrial militar, sobravam poucos recursos para investir na indústria leve . E a população tinha ainda que esperar em imensas filas para poder consumir esses produtos &#8220;básicos&#8221;. O mesmo se passava em relação aos alimentos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Na sua experiencia lá na URSS, deu para perceber alguma coisa neste sentido? Ou tudo não passa de exagero da imprensa?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para responder a essa pergunta vou voltar um pouco no tempo. Já na época da Rússia imperial, vemos que esta estava industrializando-se rapidamente desde as últimas décadas do século 19. Em 1904-1905 ela enfrentou uma guerra com o Japão. De 1914 a 1921 a Rússia passou pela &#8220;guermânskaia vainá&#8221; (I GM) e pela &#8220;grajdânskaia vainá&#8221; (guerra civil), sendo que logo após o final das hostilidades na frente ocidental os ex-aliados (França e Inglaterra) não aceitaram a &#8220;Paz de Brest- Litovski&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Em consequência, o &#8220;exército das 14 nações&#8221; (que eram 18!) caiu feito ave de rapina sobre a jovem república<br />
soviética na tentativa de sufocá-la. Os &#8220;brancos&#8221; (a reação imperial) uniram-se aos estrangeiros intervencionistas. A capital teve que ser mudada para Moscou por ser mais segura. O saldo destes tempos de guerra foi uma enorme destruição do parque industrial russo.</p>
<p style="text-align: justify;">Conquistada a paz, o poder soviético iniciou a construção socialista. As dificuldades eram enormes. Tudo era urgente. A paz era extremamente instável.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante do quadro de penúria aguda foi decidido retomar a industrialização. O PCUS priorizou a indústria pesada.</p>
<p style="text-align: justify;">Siderúrgicas, trilhos, tanques &#8211; armas; os bens de consumo ficaram para depois. De 1921 a 1941 a URSS gozou da paz ameaçada em duas frentes &#8211; a ocidental e a oriental. Antes da Grande Gerrra Patriótica (II GM) houve entreveiros com a Finlândia e com os japoneses na Mongólia (1939). Realmente a indústria bélica era prioritária.</p>
<p style="text-align: justify;">A pátria não seria defendida com as bugingangas da índústria leve. O resultado da guerra é conhecido. Iniciou-se imediatamente a guerra fria e a corrida armamentista. Dessa vez mais cara ainda pois já havia a chantagem atômica por parte dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Novamente a reconstrução, pois houve enorme destruição na parte ocidental ocupada pelos nazistas. A indústria pesada continuou prioritária pois estave relacionada com a segurança (o arsenal bélico de ponta não pode ser comprado dos capitalistas).</p>
<p style="text-align: justify;">A indústria leve continuou esperando sua vez. Finalmente, com o campo socialista fortalecido (anos 60) é que a indústria leve de bens de consumo desenvolveu-se rapidamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Os bens duráveis e de consumo passaram a ser produzidos com prioridade. A demanda era enorme e naturalmente a distribuição tinha que ser feita ordenadamente (inscrições).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mas e os supermercados, haviam filas enormes como divulgavam os meios de comunicação internacionais?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sobre os supermercados, os soviéticos gostavam da expressão &#8220;u nas vció iêst&#8221; &#8211; nós temos tudo. Claro que era necessário ter paciência para fazer as compras. Lembra do plano cruzado no Brasil? (1986). A diferença para a situação brasileira é que na URSS todos podiam consumir. Se havia fila é porque havia o produto, isso é em qualquer lugar do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por causa da &#8220;dificuldade&#8221; de se obter o que se necessitava para casa, as pessoas compravam muito e tinham o mau hábito de estocar, o que por vezes ampliava o problema. Moscou sofria da síndrome de ser a capital e por isso pessoas vinham do interior fazer compras e as lojas ficavam lotadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A única fila realmente quilométrica que eu presenciei foi a fila para ver o túmulo de Lênin. As outras eram absolutamente normais, como eu já disse filas são normais em qualquer lugar do mundo, afinal, há de se respeitar a ordem de chegada na loja.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E como era o abastecimento das cidades distantes?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eram abastecidas. Estive em várias e notei que alguns produtos muito procurados em Moscou estavam ali (&#8220;birí &#8211; ni ratchú&#8221; &#8211; expressão russa para dizer que os vendedores das lojas ofereciam aos consumidores e estes se faziam de rogado). Este era o sonho de consumo dos soviéticos: ter em abundância tudo. Eles já estavam conseguindo isso em meados dos anos 70.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente as coisas não melhoraram do final da década de 70 para o início dos anos 80. Houve o que os russos chamam de &#8220;zastôi&#8221; &#8211; estagnação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Porquê?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Olha eu não sou economista, mas atribuo a estagnação aos esforços dispendidos com a nova corrida armamentista que acirrou-se a partir do governo Reagan. Consequentemente sobravam poucos recursos para continuar investindo na indústria leve.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em relação aos salários. Qual era a diferença entre o &#8220;maior&#8221; e o &#8220;menor&#8221; salário? Os burocratas ganhavam mais, tinham privilégios? Como era a punição para ladrões e corruptos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sobre o salário mínimo, creio que era  de P$80,00 (oitenta rublos). Professores universitários ganhavam entre P$250 a P$400. Mineiros e petroleiros tinham um salário básico (piso) e uma parte variável dependendo da produtividade. As tarefas pesadas eram muito bem remuneradas pois era necessário encontrar gente para fazê-las (é o caso dos mineiros e petroleiros, motoristas de máquinas pesadas etc).</p>
<p style="text-align: justify;">Todos tinham igualdade de oportunidade, pois o trabalho era obrigatório. Sobre ladrões e corruptos, a vida deles não era fácil, principalmente porque não haveria onde investir o produto do furto.</p>
<p style="text-align: justify;">Também não é fácil enganar pessoas que têm no mínimo 11 anos de escolaridade. E a &#8220;exteriorização de riqueza&#8221; era indício fácil de ser observado pelos órgãos de segurança, que não dormiam no ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">Os &#8220;burocratas&#8221; da alta cúpula não podiam ter muitos bens pois não havia como aproveitar-se deles para fazer fortuna. Salários altos (em torno de 5 a 10 vezes maior do que o salário mínimo) podiam significar algum conforto a mais (a compra de um automóvel por exemplo ou de traquitanas eletrônicas ou eletrodomésticos importados, etc.).</p>
<p style="text-align: justify;">Claro que as senhoras de posse compravam casacos de pele vistosos e os exibiam, porém não era de bom tom. É difícil falar em privilégios como nós entendemos aqui. Ter um carro? Vestir-se bem? Os &#8220;abonados&#8221; não podiam usufruir de privilégios no que se refere à escola dos filhos ou hospitais melhores (todas eram públicas mesmo, assim como os hospitais). As casas de campo (&#8220;datcha&#8221;) eram relativamente baratas e não havia aquela neura de possuir uma &#8220;datcha&#8221; (ainda mais que o país vinha de uma urbanização recente e quase todos tinham um pé no campo). Burocrata no sentido &#8220;brasileiro&#8221; não se criava.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas diziam em tom jocoso que a &#8211; &#8220;verrúxka&#8221; (alta cúpula) &#8211; vivia já no comunismo. A idéia é que eles tinham todas as suas necessidades satisfeitas &#8211; como é o objetivo da sociedade comunista. (Risos)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Já que você tocou no assunto, como era o sistema de saúde? Como era o atendimento à população?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O sistema de saúde era totalmente público e gratuito. As farmácias vendiam livremente vitaminas e salvo engano aspirinas. No mais eles gostavam muito de fórmulas a ser manipuladas (como tínhamos aqui nos anos em que as farmácias &#8211; pharmácia &#8211; tinham farmacêutico e aviavam remédios), com receita médica.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos hospitais os remédios eram ministrados de acordo com a prescrição. Resumindo: nem se pensava em pagar coisa alguma.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, eu soube de uma &#8220;policlínica paga&#8221; e fui conferir. Realmente, serviços dentários considerados estéticos eram cobrados, mas a policlínica era do Estado. O tratamento era muito barato &#8211; eu diria até que era simbólico.</p>
<p style="text-align: justify;">Os estudantes (de nível superior) eram obrigados a um exame de saúde anual. Principalmente aqueles que se<br />
candidatavam a trabalhar (&#8220;studéntski atriádi&#8221; &#8211; destacamentos estudantis de trabalho) nas férias de verão. Mas esse é um capítulo a parte.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Entrando agora na parte política, você chegou a presenciar alguma seção dos soviets? Eles tinham alguma influência sobre as decisões da cúpula?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os soviets eram os órgãos formais de poder do Estado. Os dirigentes do PCUS formalmente não detinham o poder. Por isso todos eles eram deputados do Soviet Supremo ou dos soviets republicanos, regionais, provinciais etc.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo era nomeado pelos soviets. Claro que sendo o PCUS a única força política ela quem decidia tudo, pois o governo nomeado pelos soviets era indicado pelo PCUS. As sessões referendavam os atos da mesa (presidium &#8211; presidência) e duravam alguns dias (não tenho certeza da periodicidade, mas parece-me que eram semestrais ou sazonais). Havia deputados &#8220;sem partido&#8221; &#8211; uma minoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante as campanhas eleitorais (mornas) falavam no &#8220;bloco&#8221; dos &#8220;partíni e bezpartíni&#8221; &#8211; membros do partido e sem partido! Algo assim meio difuso, difícil de compreender para nós ocidentais acostumados ao fragor da luta política. O eleitor só tinha que pegar um cédula impressa e depositar na urna. Pronto, já tinha votado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas havia um processo prévio de escolha dos canditados durante a campanha nas reuniões do Partido.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os sem-partido não poderiam ser chamados de oposição &#8220;capitalista&#8221;?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não, não, os &#8220;bezpartíni&#8221; (sem partido) estavam afinados com a política do partido, não constituiam uma &#8220;oposição&#8221; no sentido que conhecemos. Não havia uma opoAh!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E como era o sistema de voto?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Funcionava o sistema de voto distrital. Os altos dirigentes do partido portanto eram candidatos por um bairro de Moscou ou de qualquer outro distrito importante.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E as cooperativas agrícolas? Ainda funcionavam da mesma forma estabelecida por Stálin (Sovkozes e Kolkozes)?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os kalrrózes eram maioria em relação aos savrrózes (siglas de &#8220;kalektívnaia rraziáistva&#8221; e &#8220;saviétskaia rraziáistva&#8221;). Sim, o modelo era o mesmo desde a coletivização de Stálin.</p>
<p style="text-align: justify;">Formalmente o kalrróz era mais democrático pois sua direção era escolhida em assembléia e os membros do mesmo eram formalmente proprietários da fazenda (rraziáistva). O savrróz era propriedade do Estado e sua direção era nomeada. Os trabalhadores (do savrrõz) eram empregados como todos os outros empregados de uma fábrica urbana ou de uma repartição pública.</p>
<p style="text-align: justify;">Os kalrrózes faziam um contrato com o Estado onde eram estabelecidas metas de produção e preços mínimos garantidos. Os trabalhadores &#8220;kalrrózniki&#8221; recebiam no final do ano um prêmio por excedente de produção e por participação individual. Na casa do &#8220;kalrróznik&#8221; havia uma pequena área para produção própria e criação de pequenos animais domésticos (porco, galinha, pato etc., frutas, verduras&#8230; Esta área variava de região para região.</p>
<p style="text-align: justify;">A produção própria podia ser vendida a preço livre no &#8220;mercado do produtor&#8221; &#8211; rínak. Nos &#8220;rínaki&#8221; &#8211; mercados, havia uma grande variedade de produtos agrícolas (carne, frutas, verduras, legumes etc.) de ótima qualidade, mas de preço salgado.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro que os mercados eram complementares (uma espécie de luxo). As pessoas podiam não ir ao mercado e<br />
abastecer-se nos &#8220;magazíni&#8221; &#8211; supermercados, mercearias, açougues etc. Resumindo: percentualmente a economia &#8220;de mercado&#8221; era marginal (como dizem os economistas &#8211; % baixo ou insignificante), mas tinham função social importante e representavam um estímulo material ao produtor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Para descontrair um pouco. Dizem que os russos consomem tanta vodka como nós consumimos cerveja (nas mesmas quantidades). É verdade?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">(Risos). É folclore! Como a vódka é bebida destilada (40 graus) não dá para &#8220;entornar&#8221; como fazemos com a cerveja.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles apreciam também a cerveja no verão. Acontece que muitos incautos não sabem bebericar e dão logo vexame, aparentando que beberam muito. Não tem como beber vódka na mesma quantidade que bebemos cerveja.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Para terminar Almir, quais as suas perspectivas para o futuro? Acredita num socialismo brasileiro?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O comunismo é a esperança da humanidade. Alguns esperam alcançar o paraíso após a morte. Fico com a opinião de Engels: estamos na pré-História da humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o advento do comunismo então o humanidade conhecerá a era da fraternidade, do desenvolvimento harmonioso, solidário e fraterno. Começará a História.</p>
<p style="text-align: justify;">Se outros países chegarem ao comunismo, acredito como brasileiro que também chegará a nossa vez.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo não dará a última palavra. Confiemos na História e na racionalidade humana, mesmo que esteja difícil.</p>
<p><strong>Profile de Almir no Orkut:</strong> <a href="http://www.orkut.com.br/Profile.aspx?uid=12493806977072221346">http://www.orkut.com.br/Profile.aspx?uid=12493806977072221346</a></p>


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