
Texto por José Correia Leite, professor universitário, autor do livro “Fórum Social Mundial: A história de uma invenção política“
1. Em 2010 não ocorrerá um Fórum Social Mundial centralizado (o último foi em Belem, em janeiro de 2009 e o próximo ocorrerá em Dakar, no Senegal, na África, em janeiro de 2011). Serão realizados dezenas de Fóruns ao longo do ano de 2010 e também atividades de tipo “cúpula” ou “cumbre” alternativa (como foi o Klimaforum, em Copenhague).
No Brasil teremos agora, duas atividades na mesma data do fórum econômico de Davos, um Fórum em Porto Alegre, com o apoio da prefeitura da capital (Fogaça, do PMDB, e o vice, Fortunatti do PDT) e de mais seis prefeituras da área metropolitana (todas do PT: Canoas, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapiranga e Gravatai), entre os dias 25 e 29 de janeiro, e em Salvador com o apoio do governo estadual (Jacques Wagner, do PT), entre os dias 29 e 31 de janeiro. O grupo de entidades que tradicionalmente organiza o FSM no Brasil está participando somente de Porto Alegre, embora haja participações individuais de pessoas deste grupo em Salvador.
2. Originalmente iríamos fazer em Porto Alegre apenas um Seminário por ocasião dos 10 anos do FSM. Mas este seminário cresceu na seqüência da discussão da crise de 2008 e do Fórum de Belém (que pela primeira vez aprofundou o debate de orientações distintas de atuação), onde já que começaram a se delinear duas linhas de abordagem distintas no interior do processo FSM: uma dialogando mais tranquilamente com o novo desenvolvimentismo que ressurge na América Latina e outra baseada no diagnóstico de crise de civilização e que quer desenvolver um novo paradigma de organização social, econômica e política – em bases sócio-ambientais e apoiado na integração dos povos de nosso continente. Definimos, por isso, que faríamos em Porto Alegre um seminário não tanto de avaliação, mas uma atividade mais voltada para o futuro, analisando a nova etapa em que o mundo entra e o que deve ser a nova agenda da esquerda neste cenário. O seminário de Porto Alegre, intitulado “Dez anos depois: desafios e propostas de outro mundo possível” ganhou, assim, o caráter de sistematização de uma nova agenda para o processo fórum (isto é, para a esquerda mundial) e de retroalimentação de todas as múltiplas iniciativas em curso. Veja isso no blog do seminário em http://seminario10anosdepois.wordpress.com/
Lembremos, neste sentido, que Evo Morales acabou de convocar uma cúpula climática alternativa com os movimentos sociais para abril na Bolívia, com o apoio dos paises da ALBA e que o principal foco de resistência e crítica nas questões climáticas está em nosso continente – onde até mesmo o governo brasileiro começou a se mexer com desenvolvura. Além disso, a próxima reunião climática mundial, a COP 16 será em dezembro de 2010 na Cidade do México.
Ao mesmo tempo, o comitê gaúcho do FSM, que foi ativo nos fóruns anteriores resolveu assumir, com o apoio de prefeituras petistas da região metropolitana,a iniciativa de lançar o Fórum Social Grande Porto Alegre 10 anos, que além disso recebeu um apoio decisivo da prefeitura de Porto Alegre (ver o site http://www.fsm10.org/).
3. O Fórum Temático de Salvador surgiu de uma iniciativa do Carlos Tiburcio, da Secretaria de Governo do Palácio do Planalto, com o apoio do governo Jacques Wagner. Ele procurou pessoas históricas do mundo Fórum no Brasil para assumirem a proposta, mas elas já estavam comprometidas com Porto Alegre e avaliaram:
1) que a iniciativa de Salvador tinha um protagonismo muito grande do governo;
2) não tínhamos fôlego para impulsionar os dois processos. Frente a isso desejamos que o Fórum de Salvador fosse assumido como uma iniciativa da sociedade civil, perdendo seu caráter inicial estatal, e remarcamos as datas de Porto Alegre, de modo que os convidados internacionais pudessem participar dos dois eventos (Porto Alegre de 25 a 29; Salvador de 29 a 31).
Inicialmente o Fórum de Salvador patinou, mas depois as centrais sindicais ligadas ao PT e ao PCdoB entraram no processo. Em seguida, entraram também outras entidades da sociedade civil não sindicais, inclusive ligadas a outros partidos como o PSOL. No último período uma dinâmica mais positiva se afirmou e o governo da Bahia aportou recursos importantes (ver http://www.fsmbahia.com.br/).
4. A cada Fórum regional foram se agregando outras atividadas, algumas auto-organizadas, outras com um caráter mais estruturante.
Em Porto Alegre, além do Seminário 10 anos, o maior e mais bem preparado de todos, cujo endereço está acima, vamos realizar também o seminário “Progresso: para que e para quem? O novo desenvolvimentismo e a necessidade de ultrapassá-lo”, uma avaliação sobre o movimento por justiça climática e um seminário de estratégia sobre o processo entre a COP15 e a COP16, uma reunião preparatória sobre o Fórum de Crise de Civilização e o Encontro Cultura Livre FSM 10 anos – além de uma atividade com todos os comitês organizadores do Fóruns que ocorrerão pelo mundo até Dakar, em janeiro de 2011 (e eles são muitos).
Em Salvador, será realizado o Seminário Crise e Oportunidade, que vem sendo impulsionado pelo Ladislau Dobwor (ver o blog http://criseoportunidade.wordpress.com/), para o qual irão vários dos participantes do encontro de Porto Alegre, depois do evento. A Luana do Instituto Paulo Freire foi deslocada para alavancar esta atividade. Mas o tom forte de Salvador é dado principalmente pelas atividades culturais.
Em ambos os fóruns foram inscritas muitas atividades auto-organizadas, mas não teremos fóruns tão amplos como os centralizados.
5. Salvador nasceu com a idéia de que o Fórum seria a contrapartida da sociedade civil de uma cúpula América Latina – África de chefes de estado. Isso não parece ter se viabilizado. Em Porto Alegre marcou-se, para o dia 28 de janeiro, com o caráter complementar, uma mesa com os chefes de estado latino-americanos. Mas, de qualquer forma, as duas iniciativas ainda estão pendentes de aprovação pelo Planalto, já que exigem a atuação do Itamaraty.
Em síntese, são dois fóruns muito diferentes, que eu resumiria em: Porto Alegre, uma discussão mais sistemática de uma nova agenda para a esquerda na linha sócio-ambiental e organização da continuidade de lutas e processos globais estruturantes do FSM; Salvador, o seminário Crise e oportunidade e um forte destaque às dimensões de africanidade e aos aspectos culturais da política. Mas cada um pode formular sua própria opinião acessando os sites dos fóruns e seminários.