Afinal, o que está acontecendo no Suriname?

Por Thiago Dutra Vilela

G1: “No dia 24, o acampamento em que brasileiros e chineses viviam em Albina foi invadido por descendentes de quilombolas após o assassinato de um surinamês por um brasileiro. ” Eles acham que são donos daqui e que podem humilhar os brasileiros”, afirma brasileira (…)

FolhaOnline: “Ataque deixou pelo menos 4 mortos no Suriname, diz brasileiro (…)”

R7: “Ataque mata ao menos sete no Suriname; três das vítimas são brasileiras, diz padre”

Abril.com: “De acordo com a Embaixada do Brasil no Suriname, a situação na Região de Albina está retornando à normalidade”

Ok, houve um ataque, no Suriname, contra um grupo de trabalhadores brasileiros. Mas peraí, por que isso aconteceu? Qual foi a motivação dos surinameses? O que os brasileiros fizeram? Eles foram o alvo ou só estavam no lugar errado na hora errada?

A cobertura de notícias na América Latina, pela imprensa brasileira, é tão ruim que qualquer pessoa que procure estar minimamente informada dos acontecimentos encontrará uma dificuldade enorme. Numa pesquisa rápida que fiz pelos grandes portais na internet, além de informações contraditórias e antigas, não encontrei absolutamente nada sobre a conjuntura do Suriname, a situação política, econômica, etc.

O país, assim como a maioria dos nossos vizinhos, são simplesmente ignorados pela cobertura internacional.

Felizmente, graças ao trabalho do professor Igor José, e de outros especialistas no assunto, ocomprimido conseguiu material suficiente para se aprofundar no assunto – e entender que esse conflito, na verdade, é apenas uma parte pequena de um problema muito maior.

Ruim com eles, pior sem eles

Bom, para começar, vamos voltar um pouco no tempo e relembrar um pouco da História do nosso continente. Com a descoberta do Brasil e a intenção portuguesa de colonizá-lo, os holandeses se ofereceram para emprestar o capital que iria ser destinado à criação dos engenhos de cana no Nordeste – exigindo em troca os direitos de refinação e distribuição no mercado europeu. Na prática, os holandeses ficavam com todo o lucro da operação – e os latifundiários só conseguiam aumentar suas dívidas.

Dessa maneira, o desenrolar da história foi tal que os holandeses foram expulsos do nordeste – mas, ao contrário do que os brasileiros imaginaram, foi a partir daí que o negócio do açucar declinou de vez. Sem a tecnologia necessária e enfrentando a concorrência holandesa (agora ocupando as ilhas do Caribe), os agricultores brasileiros não tinham como competir.

Foi assim, dentre diversos outros motivos, que surgiu uma colônia holandesa no que hoje é o Suriname. Como em todo local onde foi introduzido o sistema de plantation, sua população acabou dividida entre os de “cor clara” e “escura” – os primeiros, descendentes  dos colonizadores – pertencentes em sua maioria à elite; e os segundos, descendentes de indianos, javaneses e escravos africanos – levados ao país como força de trabalho.

Entre os “escuros”, os descendentes dos escravos (maroons) são os que mais sofreram as agruras da colonização.

Albina

Albina, cidade situada no extremo leste do Suriname, próximo ao mar do Caribe, faz fronteira com a Guiana Francesa. Fica no distrito de Moroowijne, do qual é capital.  Do outro lado da fronteira a cidade mais próxima é Saint-Laurent-du-Maroni, capital do Distrito de mesmo nome na Guiana e cuja população é em grande parte maroon emigrada do Suriname.

Apesar do que afirma a imprensa, a população de Maroons no Suriname não é comparável ao que conhecemos como “Quilombolas”. A diferença básica é que lá os quilombos não foram  derrotados nos séculos 17 e 18.

Em 1762, o governo branco reconheceu os quilombolas Saramaka (um dos grupos de maroons) como negros livres: podiam viver livres no interior e recebiam dinheiro de “proteção”, para não atacar as plantações dos grandes fazendeiros (muitos deles eram Judeus Portugueses, que fugiram do Brasil). Também o grupo chamado de Ndyuka (1756) assinou acordo com os plantadores (leste do Suriname). Em 1767, o grupo Matawai também fez acordos com os platandores. É como se o quilombo de Palmares não tivesse sido derrotado e os plantadores de cana começassem a pagar tributos a Zumbi.

Maroons: Histórias diferentes

Os outros dois grandes grupos então existentes continuaram a ser perseguidos (Boni/Aluku e Kwinti). Percebe-se, portanto, a diversidade que o nome “maroons” esconde. Há vários grupos diferentes e com status políticos totalmente diferenciados.

Aqueles que atacaram os brasileiros são, provavelmente, os Ndyuka, Matawai e Paramaka. Os autores costumam fazer uma divisão entre maroons do oeste (Saramaka, Matawai e Kwindi) e leste (Ndyuka, Boni, Paramaka, Broos-Maroons). Havia os que recebiam impostos e os que continuavam sendo caçados.

A questão é que o desenvolvimento histórico desses grupos é diferente. Os maroons do oeste ficaram mais livres, enquanto os do leste continuaram perseguidos (Albina é no extremo leste). Muitos destes maroons do leste acabaram migrando para a Guiana Francesa, onde formam um grupo considerável que prospera sob a cidadania francesa concedida para alguns (apesar de migrantes maroons não documentados continuarem chegando).

Depois da independência (1975), a situação social dos maroons tem piorado. Desde lá, dois golpes militares e uma guerra civil (1986-1992, onde principalmente os Ndyuka combateram o governo central) comprometeram muito a vida dessas populações. O interior do Suriname é praticamente autônomo e o governo central tem pouca ingerência.

Faroeste Latino-americano

Principal atividade econômica, desde o final da guerra civil os garimpos de ouro têm se desenvolvido num cenário de faroeste. Localizados principalmente em terras maroons, esses garimpos levaram milhares de brasileiros ao Suriname, e é nessas minas que os conflitos com grupos de estrangeiros têm se desenvolvido: com brasileiros, garimpeiros, chineses, comerciantes, etc. O esquema de exploração do garimpo conhecemos de longa data: exploração intensa, sem nenhum cuidado com o meio-ambiente e de caráter absolutamente predatório. O cenário de encontro dos brasileiros e maroons é um cenário sem estado, onde quase todos andam armados.

Veja a situação: uma região habitada por maroons, que foram perseguidos até meados do século XX, e profundamente pauperizados; pouca presença do Estado; um dos grupos de maroons foi o principal ator na guerra civil; desenvolvimento selvagem de minas de ouro e outros negócios de caráter ilegal (drogas, contrabando).

E agora?

Depois de apresentados estes fatos, é fácil chegar à conclusão de que o “ataque”, longe de ser uma retalhação por um suposto crime cometido por um brasileiro, é, antes de tudo (e além de tudo), uma insatisfação secular do povo do Suriname. Não, não estamos, de maneira alguma, defendendo a violência daquela população. Também não estamos culpando os brasileiros – eles apenas pagaram o pato. O que estamos sugerindo é uma pausa para reflexão.

Acho que o texto que melhor exemplifica o que eu quero transmitir, neste momento, é um relato escrito pelo Eduardo Guimarães, em seu blog:

A América Latina é isso, de ponta a ponta. Gente anomalamente pobre cometendo atos de horror inimagináveis em profusão todos os dias, não devido aos maníacos serem o que são por padecerem de maluquice pura e simples, mas porque são literalmente empurrados para a irracionalidade e para a selvageria.

Eu tinha que dizer às pessoas para notarem que a pobreza e a desigualdade potencializam nossos demônios interiores, mas que sinto que a desigualdade é pior. Ela açula instintos mais perversos, transtorna mais mentes que poderiam se satisfazer com o mínimo de dignidade.

A violência injustificada decorre de um fomento a ela através de um sistema vigente nesta parte do mundo que esbofeteia os prejudicados pela desigualdade com o desfile incessante – hoje potencializado pelas mídias – do sucesso dos privilegiados.

Sim, essa violência contra os brasileiros foi resultado da Guerra civil; da pobreza; da desigualdade; da ausência do Estado; do tráfico de drogas – e as causas não terminam nunca! São tantos problemas entrelaçados que, sem um estudo e uma pesquisa realmente séria e profunda, não temos como imaginar o que a população pode fazer para superar essa situação.

Organizar militarmente a população e enfrentar os grupos revoltosos? Foi exatamente isso que aconteceu na Guerra Civil e de nada adiantou. Tirar os brasileiros do Suriname? É o que o governo brasileiro está fazendo, mas isso não resolve o problema dos surinamenses, uma vez que os imigrantes continuarão chegando, nem dos brasileiros, que agora não tem onde morar. Ocupar o Suriname, como o Brasil e a ONU fazem no Haiti? Trocar uma dominação por outra não ajudou em nada a ilha, que continua em situação ruim – e continuamos desinformados como nunca sobre o que acontece lá, diga-se de passagem.

Nota docomprimido: Uma coisa é certa, a situação como está não pode continuar. Esse caos não interessa a ninguém, o conflito de forças é tão grande que mesmo quem está no poder não está seguro. A única saída para acabar com esse Velho Oeste caboclo é uma ação conjunta dos países vizinhos para ajudar a região. Como? Ainda não está claro…

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  • Mariana

    Não deu pra entender completamente, mas deu pra entender bastante coisa. Achei ótimo você se propor a falar do assunto, afinal só escutamos falar que houve um atentado, que brasileiros foram mortos/feridos. Mas não passa disso. Dão muito visibilidade ao fato mas não dão nenhuma explicação.