
Por Thiago Vilela
Um crescimento que superou os 600%. Este foi o aumento registrado no Produto Interno Bruto (PIB) de Catalão entre 1999 e 2006. Os números, fornecidos pela prefeitura da cidade, são o reflexo de um desenvolvimento econômico acima da média do Brasil. No mesmo período, o PIB brasileiro cresceu cerca de 240%, enquanto o de Goiás ficou em torno dos 320%.
Em números absolutos, isso significa dizer que o PIB de Catalão subiu de R$ 408,4 mil para R$ 2,488 milhões. Enquanto o PIB brasileiro pulou de R$ 960,8 milhões para R$ 2,322 trilhões. O resultado é que Catalão hoje, com apenas 81 mil habitantes, tem a sexta maior economia do Centro-Oeste e a terceira de Goiás.

O segredo do progresso é atribuído em grande parte à chegada da Mitsubishi em Catalão. “A vinda de grandes montadoras, como a Mitsubishi, trouxe muitos benefícios para a região e principalmente para o comércio local” – afirma Paulo César Souza, vendedor da Drogaria MEDJATO. A empresa foi instalada em 1998 e hoje já é responsável por três mil empregos diretos e por, aproximadamente, metade do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) do município.
Por que eu?
Empresas do porte da Mitsubishi não escolhem instalar sua fábrica em determinada cidade por acaso. Historicamente, o estado de Goiás desenvolve uma política de significativos incentivos fiscais. Uma estratégia adotada pelos governantes para atrair para o Centro-Oeste as empresas do badalado eixo Sul-Sudeste, onde se concentra a maioria da riqueza do Brasil. E Catalão seguiu à risca essa política.
“A Mitsubishi Motors do Brasil é a única montadora com o capital 100% brasileiro”, divulga a fábrica da Mitsubishi em seu site. É verdade. Só em 2010, serão gastos mais de R$4 bilhões em incentivos fiscais para as grandes empresas, quase 25% do orçamento do município.
Além disso, “no caso da Mitsubishi, o município doou o terreno, fez a terraplanagem, ofereceu incentivos fiscais e o governo federal, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), financiou a juros baixíssimos toda a construção da fábrica”, relata Marcelo Rodrigues Mendonça, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro da Associação Piratininga Vivo.
A localização da cidade também influenciou positivamente na escolha. Situada no sul do estado, Catalão está próxima do Triângulo Mineiro e praticamente equidistante dos principais portos e capitais do país, facilitando, e muito, a distribuição do que é produzido na região.
Você conhece alguém que trabalha na Mitsubishi? Ah sim, você trabalha lá…
Desde o início deste recente processo de industrialização, os governantes incentivam a integração das empresas com a cidade. Uma das medidas é o investimento em qualificação profissional. Os cursos profissionalizantes, oferecidos por instituições como Senac, Senar e SESI, contam com o apoio financeiro da Prefeitura, preocupada com a formação de mão-de-obra especializada.
Ano passado, por meio de acordos com o governo federal, foi inaugurado um Centro de Educação Profissional (CEP). Para o Deputado Estadual Jardel Sebba, a ideia é que os moradores da região tenham uma participação cada vez maior das grandes empresas: “Qualificando nossos jovens, vamos poder parar de importar mão-de-obra. Nesse sentido, os próximos cursos a serem criados estarão em conformidade com as demandas industriais, com participação direta das empresas”.
Segundo dados do Ministério da Educação, entre 2006 e 2009 aproximadamente 90% dos jovens alunos que fizeram o curso profissionalizante do CEP conseguiram emprego. O fato pode parecer normal, mas não é. No Brasil, quando uma grande empresa vai para uma cidade pequena costuma importar a grande maioria do quadro de funcionários de cidades maiores ou do exterior. Diferentemente, na Mitsubishi, mais de 70% do quadro de funcionários é da região, um dado que configura exceção à regra.
Um bom exemplo de como as coisas geralmente acontecem é a se passou na fábrica da Companhia Brasileira de Bebidas (AMBEV), situada na região metropolitana de Belo Horizonte. Segundo dados da Campus Repórter edição 3, “a maioria (dos empregados) é formada de contratados por empresa de terceirização, com sede em outras cidades (…) e quase a totalidade do quadro de gerência e supervisão é de (…) cidades como Belo Horizonte, Betim e Itaúna”.
Nem tão bem-vindos assim…
Assim como em Belo Horizonte, “alguns dos cargos mais importantes destas empresas são ocupados por pessoas de fora, inclusive do exterior. A maioria fica nos hotéis da cidade, mas alguns possuem casa na região”, relata Giovane de Souza, gerente de vendas da Concessionária da Mitsubishi da cidade.
Para o professor da Universidade Federal de Goiás Marcelo Rodrigues, esse processo ocasiona vários problemas para a cidade: “Um dos efeitos mais notórios é o encarecimento do custo de vida, como é o caso dos aluguéis de imóveis”.
Fernanda Belizária, corretora de imóveis há 4 anos, confirma: “nos últimos 10 anos a procura por imóveis realmente subiu muito e, consequentemente, aumentaram também os valores para venda e aluguéis aqui, superando, hoje os preços de Uberlândia, Anápolis e até mesmo da capital”.
Salário? Não, desconto!
Um dos problemas gerados com essa recente ‘profissionalização’ da cidade é a falta de um sindicato organizado. Criado em 2004, após muita briga e confusão, o Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Catalão (SIMECAT) conseguiu, no último dia 24 de novembro, reduzir a jornada de trabalho e aumentar o piso salarial da categoria (continue lendo…)
Como medida para maquiar os baixos salários, a Mitsubishi criou uma série de ‘vantagens’ para os trabalhadores, tais como: auxílio creche, aulas de ginástica laboral, seguro de vida subsidiado e empréstimo consignado com juros menores que o mercado; além de convênios firmados entre a Mitsubishi e outras empresas da região.
“O que mais me incentivou a ir trabalhar na fábrica foram os benefícios. O salário é menor do que eu ganharia aqui fora, no comércio, mas o plano de saúde, o vale-compra, o valecard e os descontos que a gente ganha em açougue, farmácia, essas lojas assim, compensam. E também é um dinheiro fixo, é mais seguro”, garante Antônio Hilton, trabalhador na área de logística da Mitsubishi há um mês.
Como explica Paulo César Souza, vendedor de uma das farmácias conveniadas: “O ValeCard é um cartão que oferece descontos na compra de medicamentos. O desconto varia entre 20 e 30%, e o trabalhador só paga no próximo mês. Por causa desse convênio, as vendas aumentaram muito nos últimos tempos”.
O caso da Fosfértil ilustra bem a situação em Catalão. Em 2004, ocorreu um acidente numa barragem da empresa e uma grande área foi inundada, causando inúmeros danos ambientais. A partir deste acontecimento, a empresa começou a apoiar projetos culturais e projetos sociais. “Até mesmo o dinheiro das multas que foram pagas pela empresa, usado pela prefeitura em projetos sociais, foi relacionado com a empresa no sentido de auto-promoção”, relata Marcelo Rodrigues da UFG.
Internacionalmente, essa tática já é conhecida: “As empresas gastam milhões em relações públicas e passamos a acreditar que elas têm personalidade, que são boas ou más, que são instituições criadas para atingir fins públicos. Elas não são. Na prática, elas estão dando passos muito pequenos e não vão sacrificar o retorno aos acionistas em prol de um bem social”, revela Robert B. Reich, ex-secretário do Trabalho de Bill Clinton em entrevista para a revista Exame em 2007.
Perspectivas
A tendência, para os próximos anos, é aumentar cada vez mais a participação e o número de grandes empresas na região. A própria Mitsubishi, no último ano, transferiu parte de sua produção para a cidade – deixando de ser apenas montadora e tornando-se também fábrica. Outras montadoras, de olho no crescente mercado na América Latina, planejam fazer o mesmo.
Isso trará mais desenvolvimento? Mais problemas? Soluções? Dúvidas? Se a cidade quer continuar oferecendo qualidade de vida aos seus cidadãos, estudar os erros e acertos deste processo de industrialização é a primeira tarefa.
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Fiz esta reportagem para a Disciplina “Técnicas de Jornalismo“, da Universidade de Brasília. Visitei a cidade, pesquisei dados em livros, jornais e na internet, entrevistei a população, as autoridades, os trabalhadores e o patrão. Acho que consegui mostrar os vários lados envolvidos nessa história e quem ganha e quem perde com isso tudo. Não sei qual é a solução para a cidade, mas, como disse no final da matéria, continuaremos estudando e apontando os erros e acertos do processo de industrialização brasileiro. Até lá!
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