Nos dez meses desde que George W. Bush saiu de cena, o governo Obama retratou as tarefas que enfrenta como uma série de desafios decorrentes basicamente de uma péssima herança presidencial. Da economia à saúde, da Rússia à Coreia do Norte e ao Irã, palavras como “resgate”, “reforma”, “redefinição” e “reengajamento” se destinam a salientar que o problema foi criado no plantão de outra pessoa. Isto é particularmente verdadeiro na arena geopolítica, um dos poucos lugares em que um presidente tem ampla margem de manobra para agir independentemente do Congresso.
Para a maioria dos presidentes, o prazo de vencimento dessa abordagem retórica é, aproximadamente, de dois anos – o período entre a posse e a primeira eleição de meio de mandato. Depois disso, a regra geralmente é “quebrou, comprou”. Mas, para Barack Obama, os acontecimentos conspiraram para encurtar muito essa lua de mel.
Antes do fim do seu primeiro ano no cargo, parece que Obama deverá enfrentar decisões do tipo “quebrou, comprou” sobre as ameaças nucleares representadas por Coreia do Norte e Irã, e a guerra no Afeganistão, baseando o sucesso dessas empreitadas diplomáticas e militares nos ombros do presidente.
O Afeganistão, com seu potencial para esgotar os recursos nacionais e devastar o capital político de Obama, situa-se no topo desses desafios e a política de Obama para o país está em um ponto de virada. O novo presidente cumpriu as promessas de campanha de acrescentar soldados (cerca de 20 mil) à “boa guerra”, enquanto se move para definir uma data de saída do Iraque. Mas as eleições de setembro no Afeganistão foram um golpe para a caracterização da guerra feita por Obama. A ONU e outros observadores relataram fraudes maciças em benefício do presidente afegão, Hamid Karzai, minando a meta de longo prazo de construir um governo central com credibilidade em Cabul, capaz de, finalmente, assumir a luta contra o Taleban.
Pouco depois da votação, um memorando que vazou para o jornal The Washington Post detalhava um pedido de mais 30 mil soldados, feito pelo comandante escolhido por Obama para o Afeganistão, general Stanley McChrystal. O vazamento estimulou os críticos da guerra, especialmente os liberais do próprio partido de Obama, a exigir uma retirada.
Essa continua sendo uma posição minoritária, mas a guerra perdeu um apoio significativo entre o público americano e a incerteza sobre onde se situa Washington em relação à questão só pode apressar as decisões da Otan e de outros aliados americanos mobilizados no Afeganistão de remover suas próprias forças.
Além de representar um risco para a presidência de Obama se as baixas e o apoio público caminharem em direções claramente opostas, um revés sério para os Estados Unidos no Afeganistão a esta altura reforçaria a narrativa que pinta a potência americana em forte declínio e possivelmente revigoraria os adversários a testarem áreas da situação global amplamente sustentadas pelos EUA desde o fim da Guerra Fria.
Os quebra-cabeças nucleares no Irã e na Coreia do Norte demonstram que alguns paí-ses já estão testando a influência de Washington. A equipe de Obama usou esses casos de proliferação para pôr à prova a teoria de que a política do governo anterior de manter esses países “vilões” a distância, afinal, foi improdutiva. Mas os primeiros gestos na direção de ambos os regimes foram rejeitados.
O verão trouxe sinais que alimentaram o otimismo da Casa Branca sobre o tema. O navio norte-coreano que estaria transportando armas proibidas para Mianmar – um possível ponto de passagem para o Irã, como especularam autoridades da inteligência – foi rastreado e, afinal, forçado a recuar. Pouco depois, o levante pós-eleitoral no Irã, depois da polêmica reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, ofereceu uma rara visão das profundas fissuras existentes na oposição da república islâmica.
Mas nenhum dos países agiu com restrição, de qualquer forma, nem as iniciativas diplomáticas de Obama produziram frutos evidentes. A Coreia do Norte realizou uma segunda rodada de testes nucleares em maio e passou o verão rejeitando as iniciativas para retomar as negociações multinacionais. O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, vai à Coreia do Norte na próxima semana, em um último esforço para reiniciá-las.
Enquanto isso, o Irã sugeriu uma disposição de manter conversações com os EUA, mas igualmente insiste que as questões nucleares ficarão de fora (e que Israel deveria ser eliminado da face da terra). Na última semana, quando a Assembleia-Geral da ONU foi inaugurada em Nova York, surgiram novamente especulações sobre a frequente determinação de Israel em usar a força militar, se necessário, para evitar que o Irã desenvolva uma arma nuclear. O Irã realizou uma série de testes de mísseis deliberadamente públicos.
Por Nouriel Roubini, da CartaCapital