Archive for September, 2009

“América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo”

A América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo, diz Noam Chomsky. Há aqui uma resistência real ao império; não existem muitas regiões das quais se possa dizer o mesmo. Entrevistado pelo La Jornada, um dos intelectuais dissidentes mais relevantes de nossos tempos assinala que a esperança e a mudança anunciada por Barack Obama é uma ilusão, já que são as instituições e não os indivíduos que determinam o rumo da política. Em última instância, o que Obama representa, para Chomsky, é um giro da extrema direita rumo ao centro da política tradicional dos Estados Unidos.

Presente no México para celebrar os 25 anos de La Jornada, o autor de mais de cem livros, lingüista, crítico antiimperialista, analista do papel desempenhado pelos meios de comunicação na fabricação do consenso, explica como a guerra às drogas iniciou nos EUA como parte de uma ofensiva conservadora contra a revolução cultural e a oposição à invasão do Vietnã. Apresentamos a seguir a íntegra das declarações de Chomsky ao La Jornada:

A América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo. Pela primeira vez em 500 anos há movimentos rumo a uma verdadeira independência e separação do mundo imperial. Países que historicamente estiveram separados estão começando a se integrar. Esta integração é um pré-requisito para a independência. Historicamente, os EUA derrubaram um governo após outro; agora já não podem fazê-lo.

O Brasil é um exemplo interessante. No princípio dos anos 60, os programas de (João) Goulart não eram tão diferentes dos de Lula. Naquele caso, o governo de Kennedy organizou um golpe de Estado militar. Assim, o estado de segurança nacional se propagou por toda a região como uma praga. Hoje em dia, Lula é o cara bom, ao qual procuram tratar bem, em reação aos governos mais militantes na região. Nos EUA, não se publicam os comentários favoráveis de Lula a Chavez ou a Evo Morales. Eles silenciados porque não são o modelo.

Há um movimento em direção à unificação regional. Começam a se formar instituições que, se ainda não funcionam plenamente, começam a existir, como é o caso do Mercosul e da Unasul.

Outro caso notável na região é o da Bolívia. Depois do referendo, houve uma grande vitória e também uma sublevação bastante violenta nas províncias da Meia Lua, onde estão os governadores tradicionais, brancos. Dezenas de pessoas morreram. Houve uma reunião regional em Santiago do Chile, onde se expressou um grande apoio a Morales e uma firme condenação à violência, o que foi respondido pelo presidente boliviano com uma declaração importante. Ele disse que era a primeira vez na história da América Latina, desde a conquista européia, que os povos tomaram o destino de seus países em suas próprias mãos sem o controle de um poder estrangeiro, ou seja, Washington. Essa declaração não foi publicada nos EUA.

A América Central está traumatizada pelo terror da era Reagan. Não é muito o que ocorre nesta região. Os EUA seguem tolerando o golpe militar em Honduras, ainda que seja significativo que não possa apoiá-lo abertamente.

Outra mudança, ainda que acidentada, é a superação da patologia na América Latina, provavelmente a região mais desigual do mundo. É uma região muito rica, sempre governada por uma pequena elite europeizada, que não assume nenhuma responsabilidade com o resto de seus respectivos países. Isso pode ser visto em coisas muito simples, como o fluxo internacional de bens e capitais. Na América Latina a fuga de capitais é quase igual à dívida. O contraste com a Ásia oriental é muito impactante. Aquela região, muito mais pobre, teve um desenvolvimento econômico muito mais substantivo e os ricos estão submetidos a mecanismos de controle. Não há fuga de capitais; na Coréia do Sul, por exemplo, ele é castigado com a pena de morte. O desenvolvimento econômico lá é relativamente igualitário.

O enfraquecimento do controle dos EUA
Havia duas formas tradicionais pelas quais os EUA controlavam a América Latina. Uma era o uso da violência; a outra, o estrangulamento econômico. Ambas foram debilitadas.

Os controles econômicos são agora mais fracos. Vários países se liberaram do Fundo Monetário Internacional através da colaboração. Também foram diversificadas as ações entre os países do Sul, processo no qual a relação do Brasil com a África do Sul e a China desempenhou um fator importante. Esses países passaram a enfrentar alguns problemas internos sem a poderosa intervenção dos Estados Unidos.

A violência não terminou. Ocorreram três golpes de Estado neste início de século XXI. O venezuelano, abertamente apoiado pelos EUA, foi revertido, e agora Washington tem que recorrer a outros meios para subverter o governo, entre eles, ataques midiáticos e apoio a grupos dissidentes. O segundo foi no Haiti, onde a França e os EUA depuseram o governo e enviaram o presidente para a África do Sul. O terceiro, em Honduras, foi de um tipo misto. A Organização dos Estados Americanos (OEA) assumiu uma postura firme e a Casa Branca teve que segui-la e proceder com muita cautela e lentidão. O FMI acaba de aprovar um enorme empréstimo a Honduras, que substitui a redução da ajuda do governo dos EUA. No passado, estes eram assuntos rotineiros. Agora, essas medidas (a violência e o estrangulamento econômico) ficaram debilitadas.

Os Estados Unidos estão reagindo e dando passos para remilitarizar a região. A Quarta Frota, dedicada à América Latina, que tinha sido desmantelada nos anos 1950, foi retomada, e as bases militares na Colômbia são um tema importante.

A ilusão de Obama
A eleição de Barack Obama gerou grandes expectativas de mudança para a América Latina. Mas são ilusões. Sim, há uma mudança, mas o giro é porque o governo de Bush foi tão ao extremo do espectro político estadunidense que qualquer coisa que se movesse iria para o centro. De fato, o próprio Bush, em seu segundo período, foi menos extremista. Desfez-se de alguns de seus colaboradores mais arrogantes e suas políticas foram mais moderadamente centristas. E Obama, de maneira previsível, continua com esta tendência.

Tivemos um giro rumo à posição tradicional. Mas qual é essa tradição? Kennedy, por exemplo, foi um dos presidentes mais violentos do pós-guerra. Woodrow Wilson foi o maior intervencionista do século XX. O centro não é pacifista nem tolerante. De fato, Wilson foi quem se apoderou da Venezuela, tirando os ingleses de lá, em função da descoberta de petróleo. Apoiou um ditador brutal. E dali seguiu rumo ao Haiti e à República Dominicana. Enviou os “marines” e praticamente destruiu o Haiti. Deixou nestes países guardas nacionais e ditadores brutais. Kennedy fez o mesmo. Obama é um regresso ao centro.

A história se repete com o tema de Cuba, onde, por mais de meio século, os EUA se envolveram em uma guerra, desde que a ilha ganhou sua independência. No princípio, esta guerra foi bastante violenta, especialmente com Kennedy, quando houve terrorismo e estrangulamento econômico, ao qual a maioria da população estadunidense se opõe. Durante décadas, quase dois terços da população tem estado a favor da normalização das relações, mas isso não está na agenda política.

As manobras de Obama rumaram em direção ao centro; suspendeu algumas das medidas mais extremas do modelo de Bush, o que até foi apoiado por boa parte da comunidade cubano-estadunidense. Moveu-se um pouco em direção ao centro, mas deixou muito claro que não haverá maiores mudanças.

As “reformas” de Obama
O mesmo ocorre na política interna. Os assessores de Obama durante a campanha foram muito cuidadosos em não deixá-lo comprometer-se com nada. As consignas foram “a esperança” e “a mudança, uma mudança na qual acreditar”. Qualquer agência de publicidade teria feito com que essas fossem as consignas, pois 80% do país pensavam que este andava por trilhos equivocados. McCain dizia coisas parecidas, mas Obama era mais agradável, mais fácil de vender como produto. As campanhas são só assuntos de técnica de mercado; assim entendem a si mesmas. Estavam vendendo a “marca Obama” em oposição à “marca McCain”. É dramático ver essas ilusões, tanto fora como dentro dos EUA.

Nos Estados Unidos, quase todas as promessas feitas no âmbito de reforma trabalhista, de saúde e energia ficaram quase anuladas. Por exemplo, o sistema de saúde é uma catástrofe. É provavelmente o único país no mundo onde não há uma garantia básica de atenção médica. Os custos são astronômicos, quase o dobro de qualquer outro país industrializado. Qualquer pessoa que tenha a cabeça no lugar sabe qual é a consequência de um sistema de saúde privado. As empresas não procuram saúde, mas sim lucro.

É um sistema altamente burocratizado, com muita supervisão, altíssimos custos administrativos, onde as companhias de seguros têm formas sofisticadas de evitar o pagamento de apólices, mas não há nada na agenda de Obama para fazer algo a respeito. Houve algumas propostas “light”, como, por exemplo, “a opção pública”, que acabou anulada. Se alguém ler a imprensa de negócios, encontrará que a capa da Business Week reportava que as seguradoras estavam celebrando a sua vitória.

Foram realizadas campanhas muito exitosas contra esta reforma, organizadas pelos meios de comunicação e pela indústria para mobilizar segmentos extremistas da população. É um país onde é fácil mobilizar as pessoas com o medo e colocar na cabeça delas todo tipo de idéias loucas, como a de que Obama vai matar as suas avós. Assim, conseguiram reverter propostas legislativas já por si débeis. Se, de fato, tivesse ocorrido um compromisso real no Congresso e na Casa Branca, isso não teria prosperado, mas os políticos estavam mais ou menos de acordo.

Obama acaba de fazer um acordo secreto com as companhias farmacêuticas para assegurar-lhes que não fará esforços governamentais para regular o preço dos medicamentos. Os EUA são o único país no mundo ocidental onde não se permite que o governo use seu poder de compra para negociar o preço dos medicamentos. Cerca de 85% da população se opõem, mas isso não significa diferença alguma, até que todos vejam que não são os únicos que se opõem a estas medidas.

A indústria petroleira anunciou que vai utilizar as mesmas táticas para derrotar qualquer projeto legislativo de reforma energética. Se os Estados Unidos não implantarem controles firmes sobre as emissões de dióxido de carbono, o aquecimento global destruirá a civilização moderna.

O jornal Financial Times assinalou com razão que se houvesse uma esperança de que Obama pudesse ter mudado as coisas, agora seria surpreendente que cumprisse minimamente suas promessas. A razão é que ele não queria mudar tanto assim as coisas. É uma criatura daqueles que financiaram sua campanha: as instituições financeiras, instituições de energia, empresas. Tem a aparência do bom moço, seria uma boa companhia para o jantar, mas isso é insuficiente para mudar a política; afeta-a muito pouco, na verdade. Sim, há mudança, mas é de um tipo um pouco mais suave. A política provém das instituições, não é feita por indivíduos. E as instituições são muito estáveis e muito poderosas. Certamente, encontram a melhor maneira de enfrentar os acontecimentos.

Mais do mesmo
Os meios de comunicação estão um pouco surpresos de que esteja regressando para o ponto onde sempre esteve. Reportam, é difícil não fazê-lo, mas o fato é que as instituições financeiras se pavoneiam de que tudo está ficando igual a antes. Ganharam. Goldman Sachs nem sequer tenta esconder que depois de ter arruinado a economia está entregando generosos bônus a seus executivos. Creio que no trimestre passado reportou os lucros mais altos de sua história. Se fossem um pouquinho mais inteligentes tentariam esconder isso.

Isso se deve ao fato de que Obama está respondendo aqueles que apoiaram sua campanha: o setor financeiro. Basta olhar quem ele escolheu para sua equipe econômica. Seu primeiro assessor foi Robert Rubin, responsável pela derrogação de uma lei que regulava o setor financeiro, o que beneficiou muito a Goldman Sachs; assim mesmo, ele se converteu em diretor do Citigroup, fez uma fortuna e saiu justo a tempo, antes do desastre. Larry Summers, a principal figura responsável pelo bloqueio de toda regulação dos instrumentos financeiros exóticos, agora é o principal assessor econômico da Casa Branca. E Timothy Geithner, que como presidente do Federal Reserve de Nova York, supervisionava o que ocorre, é o secretário de Tesouro.

Uma reportagem recente examinou alguns dos principais assessores econômicos de Obama. Concluiu-se que grande parte deles não deveria estar na equipe de assessoria do presidente, mas sim enfrentando demandas legais, pois estiveram envolvidos em manejos irregulares de contabilidade e em outros assuntos que detonaram a crise.

Por quanto tempo podem se manter as ilusões? Os bancos estão agora melhor do que antes. Primeiro receberam um enorme resgate do governo e dos contribuintes e utilizaram esses recursos para se fortalecerem. São maiores do que nunca, pois absorveram os mais fracos. Ou seja, está se assentando a base para a próxima crise. Os grandes bancos estão se beneficiando com uma apólice de seguros do governo que se chama “demasiado grande para quebrar”. Caso você seja um banco enorme ou uma grande casa de investimentos, é demasiado importante para fracassar. Se você é o Goldman Sachs ou o Citigroup, não pode fracassar porque isso derrubaria toda a economia. Por isso podem fazer empréstimos de risco, para ganhar muito dinheiro, e se algo dá errado, o governo se encarregará do resgate.

A guerra contra o narcotráfico
A guerra contra a droga, que se espalha por vários países da América Latina, entre eles o México, tem velhos antecedentes. Revitalizada por Nixon, foi um esforço para superar os efeitos da guerra do Vietnã, nos EUA. A guerra foi um fator que levou a uma importante revolução cultural nos anos 60, a qual civilizou o país: direitos da mulher, direitos civis. Ou seja, democratizou o território, aterrorizando as elites. A última coisa que desejavam era a democracia, os direitos da população, etc., razão pela qual lançaram uma enorme contraofensiva. Parte dela foi a guerra contra as drogas.

Ela foi desenhada para transportar a concepção da guerra do Vietnã: do que nós estávamos fazendo aos vietnamitas ao que eles não estavam fazendo a nós. O grande tema no final dos anos 60 nos meios de comunicação, inclusive os liberais, foi que a guerra do Vietnã foi uma guerra contra os EUA. Os vietnamitas estavam destruindo nosso país com drogas. Foi um mito fabricado pelos meios de comunicação nos filmes e na imprensa. Inventou-se a história de um exército cheio de soldados viciados em drogas que, ao regressar para casa, converteram-se em delinquentes, aterrorizando nossas cidades. Sim, havia uso de drogas entre os militares, mas não era muito diferente do que existia em outros setores da sociedade. Foi um mito fabricado. É disso que se tratava a guerra contra as drogas. Assim se mudou a concepção da guerra do Vietnã, transformando-a em uma guerra na qual nós éramos as vítimas.

Isso se encaixou muito bem com as campanhas em favor da lei e da ordem. Dizia-se que nossas cidades se desgarravam por causa do movimento anti-guerra e dos rebeldes culturais, e que por isso era preciso impor a lei e a ordem. Ali cabia a guerra contra a droga.

Reagan ampliou-a de maneira significativa. Nos primeiros anos de sua administração intensificou-se a campanha, acusando os comunistas de promover o consumo de drogas. No início dos anos 80, os funcionários que levavam a sério a guerra contra as drogas descobriram um incremento significativo e inexplicável de fundos em bancos do sul da Flórida. Lançaram uma campanha para detê-lo. A Casa Branca interveio e suspendeu a campanha. Quem o fez? George Bush pai, neste período o encarregado da guerra contra as drogas. Foi quando a taxa de prisões aumentou de maneira significativa, principalmente a prisão de negros. Agora o número de prisioneiros per capita é o mais alto do mundo. No entanto, a taxa de criminalidade é quase igual a dos outros países. É um controle sobre parte da população. É um assunto de classe.

A guerra contra as drogas, como outras políticas, promovidas tanto por liberais como por conservadores, é uma tentativa para controlar a democratização das forças sociais.

Há alguns dias, o Departamento de Estado emitiu sua certificação de cooperação na luta contra as drogas. Os três países que foram “descertificados” são Myamar, uma ditadura militar – não importa, está apoiada por empresas petroleiras ocidentais -, Venezuela e Bolívia, que são inimigos dos EUA. Nem México, nem Colômbia, nem Estados Unidos, em todos os quais há narcotráfico.

Um lugar interessante
O elemento central do neoliberalismo é a liberalização dos mercados financeiros, que torna vulneráveis os países que têm investimentos estrangeiros. Se um país não pode controlar sua moeda e a fuga de capitais, está sob o controle dos investidores estrangeiros. Eles podem destruir uma economia se não gostarem de algo que esse país faz. Essa é outra forma de controlar povos e forças sociais, como os movimentos operários. São reações naturais de um empresariado muito concentrado, com grande consciência de classe. Claro que há resistência, mas fragmentada e pouco organizada e por isso podem seguir promovendo políticas às quais a maioria da população se opõe. Às vezes isso chega ao extremo.

O setor financeiro está o mesmo que antes; as seguradoras de saúde ganharam com a reforma de saúde, as empresas de energia ganharam com a reforma do setor, os sindicatos perderam com a reforma trabalhista e, certamente, a população dos EUA e do mundo perde porque a destruição da economia é grave por si mesma. Se o meio ambiente é destruído, os que mais sofrerão serão os pobres. Os ricos sobreviverão aos efeitos do aquecimento global.

Por isso a América Latina é um dos lugares no mundo hoje verdadeiramente interessantes. É um dos lugares onde há uma verdadeira resistência a tudo isso. Até onde chegará? Não se sabe. Não me surpreenderia com um giro à direita nas próximas eleições na América Latina. Mesmo assim, terá se conseguido um avanço que assenta as bases para algo mais. Não há muitos lugares no mundo dos quais se possa dizer o mesmo.

Tradução: Katarina Peixoto

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16160

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Folha e gripe suína: é o segundo crime contra a saúde pública em 19 meses

por Conceição Lemes, do Viomundo

Em 22 de julho, o Viomundo denunciou: Reportagem da Folha sobre gripe suína é totalmente furada; uma irresponsabilidade.

A matéria da Folha de S. Paulo foi publicada no dia 19 de julho, domingo, com esta manchete na capa:  Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses. Internamente, no caderno Cotidiano, o título  Gripe pode afetar até 67 milhões de brasileiros em oito semanas e o primeiro parágrafo da reportagem, mais atemorizadores, previam uma catástrofe muito pior:

A pandemia de gripe provocada pela nova variante do vírus A H1N1 poderá atingir entre 35 milhões e 67 milhões de brasileiros ao longo das próximas cinco a oito semanas. De 3 milhões a 16 milhões desenvolverão algum tipo de complicação a exigir tratamento médico e entre 205 mil e 4,4 milhões precisarão ser hospitalizados.

Na ocasião, o médico epidemiologista Eduardo Hage Carmo, diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde, alertou: “Os parâmetros utilizados pela Folha de S. Paulo são totalmente furados. Não têm base epidemiológica, estatística, científica. Foi um chute a quilômetros de distância do alvo. Uma irresponsabilidade. Ao final desta fase da pandemia os números não serão os da reportagem da Folha. Serão bem menores”.

Hoje, 19 de setembro, faz dois meses (ou nove semanas) que a reportagem da Folhafoi publicada. A realidade provou que o doutor Eduardo Hage, do Ministério da Saúde, estava absolutamente certo e a Folha completamente errada.

Nessa quarta, dia 16, o Ministério da Saúde divulgou o balanço da influenza A (H1N1), gripe A, mais conhecida como gripe suína. Nele, estão computados os números de junho, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) confirmou a pandemia, até 12 de setembro.

* Nesse período de pouco mais de três meses, foram confirmados 9.249 casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) por influenza A. São casos graves de gripe pelo novo vírus: as pessoas apresentam febre, tosse e dificuldade para respirar, acompanhada ou não de outros sinais ou sintomas.

* Das 9.249 pessoas que tiveram gripe suína grave, 899 morreram. A taxa de mortalidade é de 0,46 para cada 100.000 brasileiros. É a quinta maior do mundo. Lembrem-se de que os casos, semelhantes à gripe sazonal, comum, representam 95% dos casos.

* Desses 9.249 casos graves, nem todos foram internados. “O fato de nem todos os casos graves de gripe A precisar de internação já evidencia o chute grosseiro do articulista da Folha”, observa Hage. Ele se refere a Hélio Schwartsman, autor da reportagem.

* Ainda existem casos aguardando confirmação laboratorial. Mesmo que todos sejam positivos para gripe suína, não atingiriam o dobro dos já confirmados.

“Este número, portanto, está muito longe da estimativa equivocada de que haveria de 3 a 16 milhões de pessoas com alguma complicação. Longe também se consideramos somente a estimativa de 205 mil a 4,4 milhões de casos”, atenta Hage. “Note que estamos levando em conta aqui um período de mais de três meses, quando o Ministério da Saúde começou a priorizar o monitoramento de casos. Logo, superior aos dois meses da estimativa da Folha.”

Folha teve esta semana a segunda chance de assumir o erro pela reportagem irresponsável. Lamentavelmente, não o fez. A primeira foi quando questionada por seus leitores e pelo ombudsman Carlos Eduardo Lins e Silva.

Resultado: em 19 meses, a Folha de S. Paulo cometeu dois crimes contra a saúde pública brasileira. Não aprendeu que fazer política com notícias de saúde causa sérios efeitos colaterais e pode até matar.

O primeiro foi em dezembro de 2007/janeiro de 2008 durante a epidemia midiática de febre amarela. Junto com grande parte da mídia corporativa gerou pânico e levou milhões de pessoas a se vacinar inutilmente e a correr riscos desnecessários devido aos efeitos colaterais. Duas morreram estupidamente.

O segundo foi em 19 julho, quando publicou a reportagem com previsões absolutamente furadas sobre a gripe suína no Brasil.

Ambos os crimes com o objetivo político de atingir o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva em benefício do governador José Serra, de São Paulo, candidato da Folha para presidente em 2010. Um jogo mesquinho e sujo em que vale tudo, inclusive prejudicar a população; ela que se dane. Conversamos um pouco mais com o doutor Eduardo Hage sobre o assunto.

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Dr. Eduardo Hage, do Ministério da Saúde.

Viomundo  – Como o senhor interpreta hoje a reportagem irresponsável da Folha, prevendo números catastróficos de gripe suína no Brasil?

Eduardo Hage – Representou uma tentativa mal sucedida e perigosa de desacreditar o Ministério da Saúde e gerar o pânico na população, utilizando malabarismos estatísticos que, já se sabia, não poderiam ser aplicados para a presente pandemia. Durante a entrevista ao articulista da Folha, eu alertei-o, mas ele ignorou. Indubitavelmente um equívoco colossal que em nada contribuiu para esclarecer a população, apenas confundir e alarmar.

Viomundo – A gripe suína matou até 12 de setembro 899 pessoas. Quantos óbitos a gripe comum causou nesse mesmo em anos anteriores?

Eduardo  Hage – Nós temos fechados os dados de 2007. Se juntarmos as mortes por influenza + pneunomias + bronquites, já que muitas vezes uma doença leva à outra, temos 77 mil óbitos. A maioria dos países, porém, tem feito comparações com os casos e óbitos por influenza + pneumonias. Aí, se utilizarmos este parâmetro, foram 44.171 mortes em 2007. Se pegarmos apenas julho e agosto foram, respectivamente, 4.636 e 4.085 óbitos. Dá um total de 8.721 mortes. Em todo o período da pandemia de gripe A foram registradas no Brasil 899 mortes pelo novo vírus. Mesmo que juntássemos os demais casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e os resultados laboratoriais pendentes, esse total é inferior à média de mortes registradas todos os anos por gripe comum e pneumonias.  A síndrome respiratória aguda grave inclui os casos graves de gripe comum e as pneumonias.

Viomundo – Se poderia dizer então que a gripe suína mata menos do que a gripe comum, sazonal?

Eduardo Hage – Por enquanto, é preciso ter ainda alguns cuidados para fazer comparações sem correr o risco de malabarismos estatísticos. O mais prudente – e isso nós já começamos a fazer – é revisar todas as informações para comparar todos os óbitos por influenza + pneunomias de 2009 com os óbitos de anos anteriores.

Viomundo – Qual a grande lição da gripe suína?

Eduardo Hage – Nesta primeira onda da pandemia, a gravidade e a letalidade foram menores do que se supunha no seu início, quando surgiram os primeiros casos no México e Estados Unidos. A absoluta maioria das pessoas infectadas pelo novo vírus se recupera bem, como ocorre todo ano com a gripe sazonal. Na maioria dos casos, os sintomas também se assemelham muito ao da gripe sazonal. Em compensação, foram observadas algumas diferenças entre os grupos mais afetados, com predomínio de casos numa faixa etária inferior à que se observa na gripe comum.

Viomundo – A gripe sazonal afeta mais gravemente as pessoas acima de 60 anos e a gripe suína não.

Eduardo Hage – É o que indicam os dados até agora. A maior proporção de casos de gripe está concentrada na faixa de 15 a 49 anos de idade. Em adultos jovens – muitos sem fator de risco conhecido mas que tiveram a forma grave – se observou evolução para um tipo de pneumonia que não é comum na influenza sazonal. Nas análises mais recentes feitas pelos países, inclusive Brasil, se verificou que a maioria dos casos da nova gripe tem pelo menos um fator de risco que torna a pessoa mais vulnerável a desenvolver a forma grave da doença e evoluir para o óbito.  Essas informações são fundamentais para a preparação para uma segunda onda da pandemia. Estima-se que ela ocorrerá a partir de outubro/novembro, quando começa o inverno nos países do Hemisfério Norte, como Estados Unidos, Canadá, Europa.

Viomundo – Mas para esta segunda onda já haverá a vacina.

Eduardo Hage – Exato. Só que não há capacidade de produção para imunizar toda a população do mundo. Então precisaremos estabelecer prioridades. São prioridade os grupos com maior risco de desenvolver a forma grave e óbito e os profissionais de saúde. No Brasil, existe o único laboratório da América que produzirá a vacina. Isso nos assegura maior tranqüilidade quanto ao acesso a ela.

Viomundo — Vale a pena relembrar: quem tem maior risco de desenvolver as formas de gripe suína?

Eduardo Hage — Crianças menores de dois anos de idade; pessoas acima de 60 anos; gestantes; pessoas com imunodepressão (por exemplo, pacientes com câncer, em tratamento de aids ou em uso regular de corticosteróides), hemoglobinopatias (doenças provocadas por alterações da hemoglobina, como a anemia falciforme), diabetes, cardiopatia, doença pulmonar ou renal crônica e pacientes com obesidade mórbida.

Viomundo – Qual a outra grande lição desta pandemia de gripe suína?

Eduardo Hage – Que a melhor forma de evitar o pânico é divulgar continuamente e de forma transparente para população e profissionais de saúde todas as informações sobre a pandemia no mundo e no Brasil. Para a população, a fim de que se proteja. Para os profissionais de saúde, para que atuem com mais segurança e proteção. Infelizmente, alguns setores da mídia e mesmo alguns profissionais de saúde contribuíram para que esta tranqüilidade não fosse mantida por todos.

Viomundo – De que forma?

Eduardo Hage –  Por exemplo, alguns setores da imprensa fazendo previsões catastróficas E disseminando-as.  Alguns profissionais de saúde recomendando medidas de saúde pública sem base científica, diferentes das preconizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo Ministério da Saúde. Foi o caso do debate sobre o uso do oseltamivir [Tamiflu]. Alguns profissionais de saúde e alguns setores da mídia recomendavam o uso do antiviral para todas as pessoas que tinham gripe sem nenhum sinal de agravamento ou fator de risco.

Viomundo – Esses mesmos setores alegaram que o Ministério da Saúde indicava  o tratamento com antivirais apenas para aqueles grupos determinados porque não se dispunha de medicamento suficiente para todas as pessoas.

Eduardo Hage – Isso é mentira. É fácil demonstrar a inconsistência dessa afirmação. O número de tratamentos de oseltamivir distribuídos desde 24 de abril, pouco mais de 820 mil, é quase dez vezes maior que o número de pessoas que se enquadraram na definição de caso grave, ou seja, os casos de  SRAG. Mesmo que tratássemos todas as pessoas gripadas sem fator de risco que procurassem os serviços de saúde, ainda assim teríamos quantidade mais do que suficiente do medicamento. A questão central é a seguinte: até o momento, não há nenhuma evidência científica de que se deve tratar todas as pessoas com sintomas gripais. Tanto que OMS, Estados Unidos e Canadá, entre outros países, só estão indicando o antiviral para os casos graves e para as pessoas com maior risco de desenvolver complicações. É o que adotou o Brasil. Esses países e a OMS têm reiterado que existe, sim, o risco de que o uso do antiviral fora das indicações citadas aumenta a probabilidade de o novo vírus desenvolver resistência ao medicamento. Mesmo quando não se conhece tudo sobre uma doença, como é o caso da nova gripe, precisamos ter muita tranqüilidade para adotar as medidas que sejam as mais indicadas com base científica.

Viomundo – O senhor esteve esta semana em Miami, Estados Unidos, numa reunião de países das Américas para tratar da segunda onda da  pandemia de gripe suína. O Brasil já está se preparando para enfrentar a segunda onda?

Eduardo Hage –  Neste momento, os países concentram os seus esforços para a segunda onda da pandemia da nova gripe. Daí essa reunião científica em Miami. Com certeza, estamos tomando todas as medidas necessárias para enfrentamento da segunda onda. Com as avaliações que estamos realizando com profissionais de saúde de outros estados e outros países bem como com outros setores da sociedade, as medidas de enfrentamento serão ainda mais aperfeiçoadas.  Nesta semana, já haverá uma reunião no Ministério da Saúde, em Brasília, com todas as Secretarias de Saúde para tratar a segunda onda da pandemia da nova gripe. A estimativa é que deverá começar em outubro/novembro  nos Estados Unidos, Canadá e Europa, entre outros países do Hemisfério Norte.  Nos países do Hemisfério Sul, como Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, e no continente africano, em maio/junho de 2010.

Viomundo – O Brasil tem a quinta taxa de mortalidade do mundo. A “grande” imprensa noticia com prazer cada vez que o Brasil sobe nesse ranking. Em cima disso, um leitor do Viomundo quer saber por que o Brasil tem mais casos atualmente do que os Estados Unidos, Canadá e Europa.

Eduardo Hage – É um detalhe que parte da mídia brasileira ainda não percebeu, não quer entender ou simplesmente ignora. A questão é simples. A nova gripe se disseminou primeiramente nos países do Hemisfério Norte. Os primeiros casos foram detectados em fevereiro/março. Em abril, a OMS fez o alerta global. Naquela altura, existiam casos confirmados no México, Estados Unidos e Canadá. Daí foi se disseminando para os países da Europa, da América do Sul. Acontece que a primeira onda da nova gripe no Hemisfério Norte coincidiu com a primavera. E gripe –  a nova ou a comum — acontece principalmente no inverno. Portanto, a nova gripe chegou aos países do Norte — inclusive na Europa — fora do inverno. Diferentemente do que aconteceu no Hemisfério Sul. Ela chegou no final do outono e prosseguiu durante todo o inverno. E como no inverno há maior número de casos de gripe todos os anos,  é natural que, neste momento, existam mais casos nos países do Hemisfério Sul, inclusive no Brasil, do que Hemisfério Norte.

postado por Thigo em Dose diária. Há nenhum comentário

Obras da Votorantim utilizavam 98 trabalhadores em condição escrava

O Ministério Público do Trabalho, através de seus fiscais, resgatou 98 trabalhadores em condição semelhante à de escravidão nas obras da Usina Salto do Rio Verdinho, no interior de Goiás. Sob a responsabilidade da Votorantim Energia, a construção faz parte do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que tem financiamento de R$ 250 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Os trabalhadores foram privados de camas e banheiros e não recebiam salários – o trabalho era trocado por comida. Eles trabalhavam para uma empresa terceirizada, a Construtora Lima e Cerávolo, responsável pelo desmate da área da usina. O coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), José Neto, falou sobre a responsabilidade da Votorantim no caso.

“A Votorantim contratou a empresa, então deve ter todas as informações referentes a esta empresa. Se a empresa fere as leis trabalhistas e a dignidade humana, a Votorantim tem que estar ciente disto e fiscalizar, senão a Votorantim se omite e vira cúmplice deste fato.”

Para José Neto, o caso serve para desmistificar a ideia de que o uso de trabalho escravo não acontece em construções.

“Tem que se descaracterizar que só a cana e plantações de monocultura têm trabalho escravo. Ele existe em outras situações, sempre ligado a grandes produtores ou grandes empresas, como neste caso da Votorantim.”

Após a denúncia, a Votorantim pagou as dívidas que possuía com os trabalhadores, que somou um total de R$ 420 mil. Os trabalhadores também foram transportados para as suas cidades de origem. O contrato com a empresa Construtora Lima e Cerávolo foi cancelado.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/obras-da-votorantim-utilizavam-98-trabalhadores-em-condicao-escrava

postado por Thigo em Notícias. Há nenhum comentário

Para quem crê em pesquisa

Se você é dos que acreditam nas pesquisas eleitorais dos institutos que denunciei que estariam planejando manipulá-las (Datafolha, Sensus e Ibope), pode ficar triste ou contente no que tange a eleição presidencial, sendo, respectivamente, petista ou tucano.
Comentário do leitor Alberto Porém Jr. mostra a continuidade do processo que denunciei aqui no fim de julho, para quem pensa como eu, ou uma forte degringolada da pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff, para quem crê nessas pesquisas. Vejam:

Recebi pelo twitter: ‘Informam alguns colunistas e analistas políticos que estaria correndo nos bastidores uma pesquisa atribuída ao Ibope que teria avaliado as intenções de voto no que diz respeito à corrida presidencial e constatado uma queda acentuada de Dilma Rousseff. (…) Seguem, abaixo, os números. O cenário seria: Serra, 42%; Ciro, 14%; Dilma, 13%; Heloísa Helena, 7%; Marina Silva, 3%.

Esta pesquisa estaria apontando uma queda de Dilma de 18% para 13%. O que representaria uma perda de quase um terço.
Aparentemente, a pesquisa estaria circulando através das mãos de membros do PMDB, que estariam alarmados e conversando sobre a possibilidade de aliança com o PT de olho nestes números’.

Alberto Porém Jr. | Lucas do Rio Verde / MT | Consultor

Bem, se vocês quiserem a minha opinião, vejo o seguinte cenário: acho que estão forçando a barra nas pesquisas e que está dando certo. Assim, irão cada vez mais fundo, criando o bom e velho efeito manada.

E o governo Lula e o PT ajudam, com divisões internas, com estrelismo dos Mercadantes e Suplicys da vida, com a recusa do presidente Lula de denunciar que a mídia está a serviço de Serra etc.

Não houve ‘recuo’ de Lula na ‘urgência’ do pré-sal.

Ontem (quarta-feira), o país foi bombardeado com a notícia de que ”Lula recuou na urgência do pré-sal“. Como sempre, portais de internet, blogs corporativos e telejornais anteciparam as manchetes de hoje nos jornalões, sobre o tal “recuo” do presidente. Traduzindo a intrincada linguagem mídiática, trata-se da questão do pedido de urgência do governo na votação pelo Congresso do novo marco regulatório sobre a forma como serão exploradas as reservas petrolíferas do litoral Sul-Sudeste do país.

A ânsia de vender “mais uma derrota” do governo à sociedade numa imprensa onde esse governo não ganha nunca, leva esses meios de comunicação aliados à oposição tucano-pefelista a contarem qualquer história sem fundamento achando que podem sufocar os fatos.

Vamos, pois, aos fatos.

Fato 1 – Sem o regime de urgência pedido pelo governo ao Congresso, a matéria só seria votada no ano que vem, em plena campanha eleitoral, o que significa que a discussão seria contaminada por interesses eleitorais, o pior dos ambientes para se discutir um assunto de tal importância.
Fato 2 – O que a mídia chama de “recuo de Lula”, foi, na verdade, produto de negociação da bancada do governo na Câmara dos Deputados com a bancada da oposição, de forma que esta parasse de obstruir os trabalhos.
Fato 3 – Se o marco regulatório do pré-sal deixasse de ter prazo para ser votado, haveria, sim, recuo do governo – ou “de Lula”, como quer a mídia. Todavia, o prazo para votação da matéria foi aumentado de 45 para 60 dias.
O que a oposição queria era jogar a votação do marco regulatório para o ano que vem, de forma que o calor da disputa e o esvaziamento do Congresso ensejassem que a discussão ficasse para o próximo governo, em 2011, que mídia e oposição esperam que seja de José Serra, de forma que permanecesse o atual sistema de concessão.

Como se sabe, o sistema de concessão, adotado por FHC em 1997, permitiria ao capital estrangeiro e às grandes corporações nacionais se apropriarem da riqueza no litoral Sul-Sudeste do país, dando uma banana para a sociedade, para a Saúde, para a Educação etc.

Com a votação, até novembro, do marco regulatório do pré-sal, no próximo ano o Brasil já começará a colher os frutos da extração dessas riquezas, extração que, inclusive, já está engatinhando. Por isso, mais uma vez a mídia mente ao país ao dizer que “Lula recuou”. Não houve recuo algum.

Por Eduardo Guimarães, da Cidadania.com

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Miro: Pela imediata privatização da revista Veja

Numa conversa descontraída no aeroporto de Brasília, o irreverente Sérgio Amadeu, professor da Faculdade Cásper Libero e uma das maiores autoridades brasileiras em internet, deu uma idéia brilhante. Propôs o início imediato de uma campanha nacional pela privatização da Veja. Afinal, a poderosa Editora Abril, que publica a revista semanal preferida das elites colonizadas, sempre pregou a redução do papel do Estado, mas vive surrupiando os cofres públicos. “Se não fossem os subsídios e a publicidade oficial, as revistas da Abril iriam à falência”, prognosticou Serginho.

As “generosidades” do governo Lula

Pesquisas recentes confirmam a sua tese. Carlos Lopes, editor do jornalHora do Povo, descobriu no Portal da Transparência que “nos últimos cinco anos, o Ministério da Educação repassou ao grupo Abril a quantia de R$ 719.630.139,55 para compra de livros didáticos. Foi o maior repasse de recursos públicos destinados a livros didáticos dentre todos os grupos editoriais do país… Nenhum outro recebeu, nesse período, tanto dinheiro do MEC. Desde 2004, o grupo da Veja ficou com mais de um quinto dos recursos (22,45%) do MEC para compra de livros didáticos”.

Indignado, Carlos Lopes criticou. “O MEC, infelizmente, está adotando uma política de fornecer dinheiro público para que o Civita sustente seu panfleto – a revista Veja”. Realmente, é um baita absurdo que o governo Lula ajude a “alimentar cobras”, financiando o Grupo Abril com compras milionárias de publicações questionáveis, isenção fiscal em papel e publicidade oficial. Não há o que justifique tamanha bondade com inimigos tão ferrenhos da democracia e da ética jornalística. Ou é muita ingenuidade, ou muito pragmatismo, ou muita tibieza. Ou as três “virtudes” juntas.

A relação promiscua com os tucanos

Já da parte de governos demos-tucanos, o apoio à famíglia Civita é perfeitamente compreensível. Afinal, a Editora Abril é hoje o principal quartel-general da oposição golpista no país e a revista Veja é o mais atuante e corrosivo partido da direita brasileira. Não é de se estranhar suas relações promiscuas com o presidenciável José Serra e outros expoentes do PSDB-DEM. Recentemente, o Ministério Público Estadual acolheu representação do deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) e abriu o inquérito civil número 249 para apurar irregularidades no contrato firmado entre o governo paulista e a Editora Abril na compra de 220 mil assinaturas da revista Nova Escola.

A compra de 220 mil assinaturas representa quase 25% da tiragem total da revista Nova Escola e injetou R$ 3,7 milhões aos cofres do “barão da mídia” Victor Civita. Mas este não é o único caso de privilégio ao grupo direitista. José Serra também apresentou proposta curricular que obriga a inclusão no ensino médio de aulas baseadas nas edições encalhadas do “Guia do Estudante”, outra publicação da Abril. Como observa do deputado Ivan Valente, “cada vez mais, a editora ocupa espaço nas escolas de São Paulo. Isso totaliza, hoje, cerca de R$ 10 milhões de recursos públicos destinados a esta instituição privada, considerado apenas o segundo semestre de 2008”.

O mensalão da mídia golpista

Segundo o blog NaMariaNews, que monitora a deterioração da educação em São Paulo, o rombo nos cofres públicos pode ser ainda maior. Numa minuciosa pesquisa aos editais publicados no Diário Oficial, o blog descobriu o que parece ser um autêntico “mensalão” pago pelo tucanato ao Grupo Abril e a outras editoras, como Globo e Folha. Os dados são impressionantes e reforçam a sugestão de Sérgio Amadeu da deflagração imediata da campanha pela “privatização” da revista Veja. Chega de sugar os cofres públicos! Reproduzo abaixo algumas mamatas do Grupo Civita:

- DO de 23 de outubro de 2007. Fundação Victor Civita. Assinatura da revista Nova Escola, destinada às escolas da rede estadual de ensino. Prazo: 300 dias. Valor: R$ 408.600,00. Data da assinatura: 27/09/2007. No seu despacho, a diretora de projetos especial da secretaria declara “inexigível licitação, pois se trata de renovação de 18.160 assinaturas da revista Nova Escola.

- DO de 29 de março de 2008. Editora Abril. Aquisição de 6.000 assinaturas da revista Recreio. Prazo: 365 dias. Valor: R$ 2.142.000,00. Data da assinatura: 14/03/2008.

- DO de 23 de abril de 2008. Editora Abril. Aquisição de 415.000 exemplares do Guia do Estudante. Prazo: 30 dias. Valor: R$ 2.437.918,00. Data da assinatura: 15/04/2008.

- DO de 12 de agosto de 2008. Editora Abril. Aquisição de 5.155 assinaturas da revista Recreio. Prazo: 365 dias. Valor: R$ 1.840.335,00. Data da assinatura: 23/07/2008.

- DO de 22 de outubro de 2008. Editora Abril. Impressão, manuseio e acabamento de 2 edições do Guia do Estudante. Prazo: 45 dias. Valor: R$ 4.363.425,00. Data da assinatura: 08/09/2008.

- DO de 25 de outubro de 2008. Fundação Victor Civita. Aquisição de 220.000 assinaturas da revista Nova Escola. Prazo: 300 dias. Valor: R$ 3.740.000,00. Data da assinatura: 01/10/2008.

- DO de 11 de fevereiro de 2009. Editora Abril. Aquisição de 430.000 exemplares do Guia do Estudante. Prazo: 45 dias. Valor: R$ 2.498.838,00. Data da assinatura: 05/02/2009.

- DO de 17 de abril de 2009. Editora Abril. Aquisição de 25.702 assinaturas da revista Recreio. Prazo: 608 dias. Valor: R$ 12.963.060,72. Data da assinatura: 09/04/2009.

- DO de 20 de maio de 2009. Editora Abril. Aquisição de 5.449 assinaturas da revista Veja. Prazo: 364 dias. Valor: R$ 1.167.175,80. Data da assinatura: 18/05/2009.

- DO de 16 de junho de 2009. Editora Abril. Aquisição de 540.000 exemplares do Guia do Estudante e de 25.000 exemplares da publicaçãoAtualidades – Revista do Professor. Prazo: 45 dias. Valor: R$ 3.143.120,00. Data da assinatura: 10/06/2009.

Para não parecer perseguição à asquerosa revista Veja, cito alguns dados do blog sobre a compra de outras publicações. O Diário Oficial de 12 de maio passado informa que o governo José Serra comprou 5.449 assinaturas do jornal Folha de S.Paulo, que desde a “ditabranda” viu desabar sua credibilidade e perdeu assinantes. Valor da generosidade tucana: R$ 2.704.883,60. Já o DO de 15 de maio publica a compra de 5.449 assinaturas do jornalão oligárquico O Estado de S.Paulo por R$ 2.691.806,00. E o de 21 de maio informa a aquisição de 5.449 assinaturas da revista Época, da Globo, por R$ 1.190.061,60. Depois estes veículos criticam o “mensalão” no parlamento.

Do Blog do Miro: http://altamiroborges.blogspot.com/2009/09/pela-imediata-privatizacao-da-revista.html

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