Carta aberta ao PSOL – Por Marcelo Freixo

Companheiros e companheiras do PSOL,

Representou um equívoco político o programa de TV do PSOL que foi ao ar no dia 30 de julho de 2009. O Partido demonstrou uma grande incapacidade de perceber as reais manifestações e lutas nas quais está inserido nos mais diversos espaços. Mais do que isso, demonstrou pequenez política ao organizar um importante instrumento de comunicação sob o critério da divisão em grupos internos.

No programa de TV, houve a aparição da presidente, do senador, dos deputados federais, de dois vereadores e de dois dirigentes partidários. Tudo dividido em blocos que, inclusive, tocaram em temas importantes como a crise, a situação nacional e a política ambientalista. Muitos notaram a ausência dos três únicos deputados estaduais do PSOL que atuam, justamente, em dois estados estratégicos: São Paulo e Rio de Janeiro.

O único mandato do PSOL na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro segue numa trajetória de conquistas importantes. Em dezembro do ano passado, conduziu a CPI que investigou a ação das milícias no Rio de Janeiro. O relatório final da CPI teve ampla divulgação tanto nacional como internacional. Tal documento mapeia a ação e a localização das milícias, identifica os seus braços econômicos e apresenta 58 propostas concretas para o enfrentamento do crime organizado. O trabalho da comissão provocou a alteração da postura da segurança pública frente às milícias no Rio de Janeiro. No ano de 2006, por exemplo, apenas cinco milicianos foram presos no Rio de Janeiro. Já em 2008, após o trabalho da CPI, esse número chegou a 78. Entre os presos, em pleno curso de seus mandatos políticos: o deputado estadual Natalino Guimarães e seu irmão, o vereador Jerominho Guimarães, braços de representação política de uma das principais facções da milícia no estado.

Por conta da CPI e de outras ações políticas do mandato — que resultaram, por exemplo, na cassação de duas deputadas estaduais envolvidas com o que foi conhecido como bolsa-fraude e na cassação do deputado Álvaro Lins — passei a viver cerceado por seguranças, carro blindado, colete à prova de balas, sob ameaças rotineiras. Não se trata de uma escolha, mas de uma necessidade diante dos acontecimentos na luta política travada no Rio de Janeiro, luta, não apenas fluminense, de caráter nacional. A questão, que está no centro da conjuntura do estado, é um enfrentamento necessário para uma base social empobrecida, base esta fundamental para o PSOL se consolidar como alternativa de esquerda adequada para o século 21.

O Partido demonstrou com o seu programa de TV que não tem sensibilidade em relação a essa luta e, muito menos, a essa situação por que passo hoje em função de viver e de promover esse enfrentamento. Como eu, há várias “autoridades públicas” na mesma situação. Não por coragem, pois não se precisa de heróis. Mas por haver o compromisso com a sociedade e, em particular, com os setores pobres, negros, marginalizados, moradores de favelas e das periferias. Ou não é esse o setor da classe trabalhadora que mais importa para nós?

Alguns setores, de modo diferente da direção do PSOL, entenderam a importância dessa luta. Por essa razão, o Conselho Universitário da UFRJ, por exemplo, aprovou uma moção de apoio à luta contra as milícias e em defesa de todos os ameaçados. A Anistia Internacional realiza em vários países um trabalho para promover solidariedade e visibilidade à questão por meio de cartas que chegam diariamente a autoridades brasileiras reivindicando a minha segurança e a dos demais envolvidos nessa luta. Mais do que isso, nos próximos meses de setembro e outubro, vou viajar pela Europa, correr vários países, para participar de eventos organizados pela Anistia Internacional com o mesmo fim, diretamente relacionado à luta pelos Direitos Humanos no Brasil.

Nessa conjuntura, com tudo o que ocorreu, o partido não achou relevante pautar o programa com esse tema da luta pelos Direitos Humanos, muito menos com o conjunto de ameaças que recai sobre o mandato. Por essa razão, não vou ao Congresso do PSOL. Não há o que justifique tal esforço se o Partido demonstra que essa luta não lhe interessa. É evidente que há vários companheiros e várias companheiras do Partido, em todo Brasil, que compartilham das mesmas lutas e que se encontram nas mesmas fileiras, com as mesmas questões prioritárias e as mesmas sensibilidades. Parece, no entanto, que essa não é a vocação da Direção do Partido, lamentavelmente. Continuarei, ainda assim, seguindo na tentativa de acertar.

Só posso esperar que o Congresso tenha uma perspectiva mais favorável. Espero que os delegados e as delegadas possam ter o discernimento da importância da luta pelos Direitos Humanos e contra as milícias.

Que um novo oxigênio revigore o partido e o credencie para dialogar com milhões da classe trabalhadora que são empobrecidos, negros, moradores de favelas e periferias. Esse é o partido que se espera. E só posso, assim como critico o equívoco político da direção, desejar a realização de um congresso inspirado, que unifique o PSOL para as lutas em defesa de direitos e por novas conquistas sociais.

Um forte abraço e um bom congresso para todos e todas.

Marcelo Freixo é Deputado Estadual do Rio de Janeiro pelo PSOL – Partido Socialismo e Liberdade

Hillary Clinton admite que os EUA manipularam a “revolução verde” no Irã

Numa entrevista com Farred Zacharia, no último dia 9 de Agosto de 2009 na CNN, a Secretária de Estado Hillary Clinton confirmou o que os seus serviços até então tentavam esconder: Os Estados Unidos tiveram um papel muito importante na “revolução verde” no Irã, chegando a fabricar falsas mensagens de iranianos no Twitter.

Segue, abaixo, a tradução parcial da entrevista. A mesma pode ser encontrada no youtube e na própria CNN:

Fareed Zakaria: Com relação ao Irã, como sabe, muitas pessoas argumentam que o presidente e você mesma foram demasiado lentos a condenarem o que parece terem sido eleições fraudulentas; demasiado lentos a oferecer apoio ás pessoas isto porque queriam preservar a opção de negociação com o Irão. ?Acha que ainda se pode negociar com o Irão nesta situação? ?Compreendo que, em geral, negoceia-se com toda a sorte de regimes. Mas na prática, e agora com Ahmadinejad entronizado numa atmosfera conflituosa, não irá ele ser legitimado ao negociarem?

Hillary Clinton: Não nos queríamos encontrar entre os protestos e manifestações legítimas do povo iraniano e o poder. E sabíamos que se interviéssemos demasiado cedo e com demasiada força a atenção mudaria e o poder teria tentado nos utilizar para unir o país contra os manifestantes. Foi uma decisão difícil mas penso que, retrospectivamente, conseguimo-nos sair bem. Assim, nos bastidores, fizemos muito. Como sabe a juventude…, um de nossos jovens do departamento de Estado foi twitado (…) isto apesar do facto de terem planeado uma paragem técnica. Portanto, fizemos muito para reforçar os manifestantes sem intercedermos. Continuaremos a apoiar e a conversar com a oposição. (…)

A entrevista no Youtube (aos 01:43min ela fala sobre o Irã):

A entrevista completa na CNN (aos 11:40min ela fala sobre o Irã):

Fonte: http://www.voltairenet.org/article161839.html

Montenegro: Dilma já ganhou

por Luiz Carlos Azenha

Seria demais pedir que eu comprasse a Veja duas semanas seguidas. Não comprei. Portanto, o que escrevo abaixo é baseado em um e-mail que reproduz parte da entrevista com Carlos Augusto Montenegro, o dono do Ibope, publicada na revista. Será que ele disse mesmo o que foi publicado? Não me responsabilizo.

O e-mail veio acompanhado do título “A Luta Continua”. Ou seja, a direita brasileira se apropriou até mesmo dos slogans da esquerda. Não saio mais com o meu boné do Che Guevara. Perigas de um bacana aqui do Higienópolis furtá-lo para usar na próxima manifestação “Fora Sarney”.

O PT, como se sabe, acabou. Nas palavras de Montenegro, “o partido deu um passo a mais na direção de seu fim. O PT passou vinte anos dizendo que era sério, que era ético, que trabalhava pelo Brasil de uma maneira diferente dos outros partidos. O mensalão minou todo o apelo que o PT havia acumulado em sua história. Ali acabou o diferencial. Ali acabou o charme. Todas as suas lideranças foram destruídas. Estrelas como José Dirceu, Luiz Gushiken e Antonio Palocci se apagaram. Eu não diria que o partido está extinto, mas está caminhando para isso.”

Uau! É lógico que o PT se desgastou no poder. Que, como partido do poder, se aprofundou nos grotões e perdeu base nas regiões metropolitanas. É um processo que sempre se deu na política brasileira. Foi assim com a Arena, com o MDB, com o PSDB. Mas acho meio arriscado dizer que o PT está caminhando para a extinção. E arriscado especialmente para alguem que dirige um instituto de opinião. É natural que o eleitor se pergunte: será que o sr. Montenegro vai distorcer pesquisas com o objetivo de garantir que sua entrevista não seja desmentida pelos fatos? Sim, eu sei que ele está falando para o público interno. As últimas semanas foram marcadas por isso: José Serra tentando convencer José Serra de que ele está eleito.

Mas o repórter poderia ter notado que Lula se reelegeu em 2006 depois do mensalão. E que o PT fez uma bancada respeitável. Posso estar enganado, mas acho que o PT foi o partido mais votado nas eleições municipais de 2008. Será que o PT está tão morto assim?

Diz o analista Montenegro que, “tudo indica que agora ele [Lula] não fará o sucessor justamente por causa da mesmice na qual o PT mergulhou.”

Qual é a “mesmice” a que ele se refere? O PAC? O pré-sal? A resposta à crise econômica? Acho muito vago falar em “mesmice”, especialmente para se decretar que o PT está liquidado e que não tem chance em 2010.

“A transferência de votos ocorre apenas no eleitorado mais humilde”
, diz Montenegro. O que ele quis dizer com isso? Só os ignorantes votarão em Dilma? Ainda que ele esteja certo, não seria o caso de notar que “os mais humildes” são maioria no Brasil?

Uma observação óbvia, que o repórter poderia ter feito.

Finalmente, ele fala sobre a corrupção dos eleitores:

“Uma pesquisa do Ibope constatou que 70% dos entrevistados admitem já ter cometido algum tipo de prática antiética e 75 % deles afirmaram que cometeriam algum tipo de corrupção política caso tivessem oportunidade. Isso, obviamente, acaba criando um certo grau de tolerância com o que se faz de errado. Talvez esteja aí uma explicação para o fato de alguns políticos do PT e outros personagens muito conhecidos ainda não terem sido definitivamente sepultados.”

Isso vale também para os políticos do PSDB, do DEM, do PMDB, do PCdoB, do PSB ou só para os do PT?

Se 70% dos entrevistados admitem ter cometido algum tipo de prática antiética e se boa parte deles vota no PT — além dos “mais humildes”, que são maioria e obedecerão ao Lula — então a Dilma já ganhou em 2010. Com os votos de pobres, corruptos e pobres corruptos, já que corruptos pobres quase não existem.

Estou apenas aplicando a lógica do Montenegro. Uma pena que o entrevistador não tenha seguido o raciocínio do homem do Ibope.

No Brasil de hoje, esperar que um repórter faça as perguntas lógicas é pedir muito.