“A sociedade deve ter o direito de escolher”

Para acompanhar as recentes discussões sobre a obrigatoriedade ou não do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, o Campus Online entrevistou dois jornalistas com opiniões diferentes. Nesta entrevista você poderá conhecer os argumentos de Fernando Rodrigues, repórter de política da Folha de S. Paulo e vice-presidente da Abraji, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, que se diz contra a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão mas que julga muito importante a existência das escolas de jornalismo.

Campus Online: Por que você é contra a exigência do diploma de jornalismo para exercer a profissão?

Fernando Rodrigues: Eu sou contra a obrigatoriedade do diploma porque na prática representa um cerceamento da liberdade de expressão e de opinião. E por isso não é bom para a construção de um país que queira e que deseja ter uma democracia sólida, que respeita todos os direitos. E eu também sou contra a obrigatoriedade da exigência do diploma para o exercício da imensa maioria das profissões, tanto de advogado quanto de outras. Exceto uma ou outra específica cujo exercício coloque muito explicitamente em risco a vida das pessoas. Por exemplo: medicina ou o responsável por cálculos estruturais da construção de um edifício, como engenheiro, calculista. Agora, para a imensa maioria das profissões, advogado inclusive, eu acho que não deveria ser obrigatório para o exercício da profissão. Inclusive acho que em alguns casos a pessoa que é acusada de alguma coisa tem muito mais capacidade de se defender perante um júri ou um tribunal do que um advogado contratado. É evidentemente uma anomalia atrasada essa exigência de todos os brasileiros, em quase todas as situações, há pequenas exceções, terem que contratar um advogado para se defender. É um absurdo isso.

CO: Você concorda com o argumento de que a exigência do diploma seria uma reserva de mercado?

FR: Eu acho que a exigência do diploma para o exercício da profissão nesses anos, foi um fator impeditivo para várias pessoas, talvez, trabalharem como jornalistas. Mas ela não foi uma porteira muito fechada porque no Brasil, que é um país atrasado, do terceiro mundo, as leis infelizmente, em muitos casos, não são para valer. Então é muito fácil no Brasil, onde não vigora, muitas vezes o império da lei, driblá-la. Então eu acho que essa reserva existia apenas parcialmente, não era uma coisa intransponível. Eu não acho também que o fato de o diploma não ser mais necessário para que se exerça a profissão signifique que os cursos de jornalismo vão acabar. Eu acho que eles vão existir e vão até melhorar. Porque as universidades e faculdades de fundo de quintal, embusteiras, vagabundas, vão acabar falindo. E agora as boas universidades e cursos de jornalismo vão ter que produzir bons profissionais capazes de se colocar no mercado.

CO: Então você acha que as empresas vão continuar contratando jornalistas formados?

FR: Com certeza. O que acho é que agora talvez valha mais a pena para a pessoa que gosta de jornalismo, além de fazer o curso, também buscar alguma outra especialização que o diferencie. Qualquer pessoa que é dona de um veículo de comunicação não vai querer saber de ter nos seus quadros só alguém que saiba fazer um lead, mas também alguém que, além de saber fazer um lead, seja capaz de entender em profundidade algum assunto e que agregue valor para aquela redação, para aquele grupo de jornalistas que trabalha ali.

CO: Uma das características que vêm mudando nos jornais impressos é a maior preocupação com uma análise da notícia e não somente apresentar o fato, que hoje em dia está sendo feito substancialmente pela internet. A especialização então, pode ajudar na contextualização e análise das notícias?

FR: Ajuda bastante. Acho que ajuda em tudo. Mesmo na internet, no novo meio, na nova plataforma existe uma demanda para informação de qualidade e analítica também, não é só no impresso. Eu acho que os jornais não vão poder abrir mão totalmente de dar as notícias quentes do dia e nem a internet poderá abrir mão de também ter espaço para mais análise. Vai haver uma mistura aí.

CO: E qual sua opinião sobre a forma como o Supremo Tribunal Federal julgou a obrigatoriedade do diploma?

FR: Eles falaram sobre liberdade de expressão e eu acho que a espinha dorsal do julgamento foi essa. A exigência ou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão seria um preceito constitucional básico a respeito da liberdade de imprensa, de opinião, de expressão. Eu achei correto, um bom argumento. Houve um ruído por causa do voto do ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, que de maneira indireta, comparou a profissão de jornalista a de um cozinheiro. Eu acho perfeitamente legítima, eu não vejo nenhum problema. Ele pode ter sido ou não preconceituoso, eu não sei. Agora foram também preconceituosos os jornalistas que se recusam a ser comparados a um cozinheiro. Qual o problema da profissão de cozinheiro? Eu não vejo nenhum. Aliás eu acho uma excelente profissão. Então, se houve preconceito de um lado, do que fez a comparação, claro que eu esto fazendo juízo de valor, mas se houve, houve também preconceito, na mesma medida, por parte de alguns jornalistas, não foram todos, que se recusaram a ser comparados a um cozinheiro.

CO: Como você acha que o mercado irá reagir a esta nova situação?

FR: Vai ficar igual ou melhor. Porque vai ter mais liberdade. Todo trabalho que tem mais liberdade é melhor. Eu sou um liberal, então quanto mais liberdade a gente tiver para tudo, melhor. Eu sou contra o Estado ficar metendo o bedelho na vida da gente, ficar dizendo o que a gente pode fazer ou não. Eu quero decidir o que eu quero fazer. Não quero que o Estado diga para mim se eu posso ou não ser jornalista ou me defender diante de um tribunal. A decisão tem que ser minha, soberana. É assim que um país cresce e vira uma nação forte, com valores e não o Estado funcionando como uma casa grande mandando nos seus escravos.

CO: Um dos argumentos de quem é a favor da exigência do diploma é o controle que os sindicatos podiam exercer sobre o mercado a fim de evitar abusos e para manter a qualidade.

FR: Os sindicatos não controlavam absolutamente nada. Há muito tempo os sindicatos perderam a capacidade de influir nas boas práticas jornalísticas. É uma pena que isso tenha acontecido, mas isso aconteceu. Então, eu lamento. Falo isso com pesar, mas é um fato.

CO: Então o mercado vai se autocontrolar?

FR: Não. Existem as leis. As leis do padeiro e do cozinheiro valem para o jornalista, valem para o advogado. Ninguém pode roubar, ninguém pode fazer coisa errada. Ninguém pode matar e nem jornalista pode matar, entendeu. Ninguém pode xingar as pessoas, acusar sem ter provas. Não é um jornalista que não pode acusar sem ter provas. O padeiro e o cozinheiro também não podem. Não é que não tem mais forma de regular. Existem as leis que continuam valendo para todos.

CO: E quanto a criação de uma nova lei que regulamente a profissão?

FR: Eu acho que vai ser difícil apresentar uma lei para exigir o diploma porque o preceito que valeu no STF é que era inconstitucional. Não importa se a lei que existia foi criada na ditadura ou no regime democrático. Se é inconstitucional fica difícil fazê-la, a não ser que a constituição seja alterada. Mas aí o seguinte, nunca se deve subestimar a capacidade de alguns deputados fazerem besteira.

CO: Você já foi professor de jornalismo e mesmo assim é contra o diploma. Porque deu aula de jornalismo?

FR: Eu sou uma pessoa que está muito a vontade para falar que sou contra a exigência porque eu estudei, fiz mestrado e dei aula de jornalismo. Eu sou a favor da escola de jornalismo e contra a exigência do diploma. É raro você encontrar alguém assim porque em geral quem estudou, fez mestrado e deu aula de jornalismo é a favor da obrigatoriedade do diploma. Eu sou a favor do diploma, do curso de jornalismo mas sou contra a exigência dele para exercer a profissão.

CO: Por que você é a favor do curso de jornalismo?

FR: Eu acho bom aprender. Eu acho que é uma técnica que pode e deve ser ensinada na universidade. É bom que a sociedade aceite que tenha escolas que pensem sobre como fazer bom jornalismo. Eu fiz não somente estudar, fazer mestrado e ser professor de jornalismo, como eu sou hoje vice-diretor da Abraji, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, cuja uma das missões principais é produzir seminários e cursos de treinamento para melhorar as boas técnicas do exercício da profissão de jornalismo. Então mesmo não sendo mais professor, eu continuo a militar na área para ajudar a discutir e a melhorar a boa prática do jornalismo no Brasil.

CO: E por que a maioria das pessoas que estão protestando contra a decisão do STF é de estudantes e a presença de professores e profissionais é muita baixa? É uma desarticulação do setor?

FR: Eu acho que a sociedade brasileira passa por um momento, já há anos, de uma certa apatia a respeito de fazer manifestações públicas. Então não é surpresa que essa manifestação tenha poucas pessoas. Mas também é verdade que se a sociedade enxergasse uma violência muito grande na decisão do Supremo, haveria mais pessoas lá. O fato de terem comparecido tão poucas pessoas é uma demonstração também de que a sociedade talvez não esteja enxergando isso como algumas pessoas estão, como se fosse uma violência. Eu também não acho.

CO:E qual a sua opinião sobre o argumento de que o jornalista deve ser formado para ter um compromisso com a verdade, para que a população saiba que pode confiar na notícia?

FR: Isso aí é derivado daquele pensamento de que alguém tem sempre que ajudar o povo a entender as coisas porque o povo é burro. E a população tem o direito de errar também. Se a pessoa quiser ler um jornal vagabundo, mau feito, e que só conte mentiras, ela tem o direito de ler sim. E do mesmo jeito outras pessoas têm o direito de fazer um bom jornal para competir com aquele que é ruim. E aí a população vai decidir qual ela quer comprar. A gente não pode obrigar o povo a comprar só o bom jornal. Ele tem o direito de comprar porcaria. Aliás, eu sou a favor da liberação completa e absoluta de qualquer substância hoje considerada ilícita. Eu acho um fracasso completo da sociedade contemporânea proibir as drogas, porque é impossível. Você só produz um mercado do crime. Eu acho que a pessoa tem que ter o direito se elas quiserem comprar maconha, cocaína, etc. O Estado tem que regular o mercado.  No caso do cigarro, por exemplo, o mercado está regulado. Ele é uma droga que mata muita gente. Você compra cigarro se você quiser, é livre. Quem fabrica o cigarro tem que fabricar dentro de determinados padrões. Há uma propaganda que ensina para a população que aquilo mata. Mas se a pessoa quer se matar, ela vai lá compra o cigarro, o fuma e se mata. Jornalismo é a mesma coisa. O governo não tem que falar que tem que ir para a escola. As pessoas podem expressar a opinião delas. Se a opinião delas se equivale a uma droga, paciência. Porque a sociedade tem que ser livre o suficiente para poder também ter espaço para que outro alguém faça outro jornal falando que aquele é uma droga e que ele tem que ler o que é bom. Mas quem tem que decidir é o cidadão.

Por Mariana Haubert, do Campus Online

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