Sobre o novo Enem

Decorar, decorar, decorar. Passar noites e mais noites estudando assuntos que, convenhamos, o mais cedo possível serão esquecidos. Essa é a lógica do atual vestibular. Toda a matéria ensinada no Ensino Médio, na maioria das Escolas, são voltadas para a preparação do estudante para uma prova – e não para a formação de um cidadão. Isso sem falar dos cursinhos pré-vestibular, e toda a lógica de concorrência e competição entre os jovens.

Dentro deste contexto, surge o decreto governamental do Novo Enem. Um dos pontos positivos dessa nova avaliação é a mudança da forma como o conteúdo é cobrado. A prova, teoricamente, não exige mais memorização – mas sim conhecimento e interpretação de textos, gráficos, etc. Dessa forma, pretende-se que todos os estudantes tenham condições iguais de competir com os demais. Infelizmente, as coisas não são tão simples.

Em primeiro lugar, isso não acaba com a lógica de competição entre os estudantes, porque o número de vagas continua limitado aos que forem melhores na prova. Mesmo que a famosa ‘decoreba’ realmente desapareça, quem tiver disponibilidade para passar horas e mais horas estudando e dinheiro para pagar os melhores professores continuará em vantagem. A atual exclusão dos estudantes de menor renda continuará.

Outro aspecto importante de se discutir é a possibilidade do estudante escolher até 5 universidades para se candidatar. Não há dúvida de que, com essa ‘Mobilidade’, aumenta a possibilidade de aprovação, já que o estudante concorre a várias instituições diferentes. Mas há a questão da Assistência Estudantil.

Digamos que um estudante pobre do Acre seja aprovado para a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele terá condições para estudar lá? Terá onde morar? Terá o que comer? Na prática, só quem tem dinheiro poderá participar dessa mobilidade. Além disso, e se acontecer uma ‘invasão’ de estudantes do rio de janeiro na Universidade Federal do Acre? Isso é facilitar o acesso? E pra onde vão os estudantes locais?

Todas essas contradições precisam ser discutidas.  Algumas Universidades, como a Universidade de Brasília, decidiram adiar a adesão ao novo sistema. Outras aceitaram em menos de um mês. Em ambos os casos, nada foi discutido com a Comunidade Acadêmica.

Ano que vem acontecerá a Conferência Nacional de Educação. Este deveria ser um espaço privilegiado para esse tipo de discussão, que poderia ser pautado em todas as etapas, estaduais e municipais. Mas ao invés disso, uma das mudanças mais importantes no sistema de Educação Brasileiro dos último anos é realizado via decreto.

O balanço final é positivo? Negativo? No fim das contas, o ‘novo’ vestibular continua sendo excludente, tanto quanto o antigo. Uma Educação Gratuita e de Qualidade e um Ensino Superior acessível para todos os brasileiros é a mudança de que a população brasileira realmente precisa. E só com muita participação popular conseguiremos avançar.

 

Texto por Thiago Dutra Vilela, atual administrador do site e estudante de Comunicação Social da Universidade de Brasília – depois de estudar muito para o vestibular.

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  • André

    É realmente inadimissível que num ano pré-encontro nacional de educação o MEC decida fazer uma mudança desse tipo.

    Antes de ler essa matéria eu realmente acreditava que o novo enem era uma coisa boa. Parabéns!

  • Thigo

    Fiz a matéria bem superficial, porque deveria ser apenas um relato pequeno para um trabalho de uma amiga.

    É realmente chocante acontecer uma coisa dessas. De qualquer forma, o novo enem com certeza vai ser posto em discussão nesses espaços, e é importante que isso aconteça.

  • Luiza Barros

    Thiago, obrigada pela ajuda, o texto está ótimo.

    Para mim, a unificação do vestibular não é uma má idéia. Mas é o que você disse – tudo foi imposto em cima da hora, sem discussão nenhuma. Então não dá pra levar muito a sério essa mudança. Eles querem aplicar a prova no final do ano, mas duvido que isso seja tempo suficiente para desenvolver bem a proposta e cuidar da aplicação da prova. Afinal, um concurso em escala nacional, em milhares de municipios, como é que essa fiscalização vai ser feita?

    E essa proposta da mobilidade não faz sentido enquanto as universidades não tiverem espaço para receber esses alunos de outros estados. Sem alojamento, bandejão suficiente, essas coisas, não tem como um aluno de baixa renda do nordeste estudar no sul. Acaba que só vai ter mobilidade pra quem pode custear os estudos.

    Resumindo, a coisa é mais complicada do que parece, e é impossível de resolver todas essas questões em menos de seis meses…

  • Thigo

    Foi muito bom escrever essa matéria, eu que agradeço por você ter solicitado o tema. É algo que está acontecendo e não está merecendo o devido espaço nem nos meios de comunicação ‘alternativos’.

    Essa semana o DCE da UnB criou um Grupo de Trabalho sobre o tema, vou tentar participar e estarei atualizando o site com as novidades.

  • Guilherme B.

    Infelizmente,essa mudança é uma falta de consideração e compromisso com os vestibulandos ,pois ficaram baqueados com a ”paulada” surpresa desse novo enem que foi proposto esse ano e aceito,por algumas faculdades,nesse mesmo ano.Apesar de existirem pontos negativos,existem alguns positvos como a preocupação em prezar o racicínio lógico e o conhecimento da vida cotidiana.
    Parabéns pelo texto que mostra os dois lados da situação!
    Muito bom texto!

  • João Batista

    E .. A questão 02 da prova de matemática do simulado do Enem /MEC pode ter sido plagiada de simulado já publicado em abril pela Veja em
    http://veja.abril.com.br/150409/popup_enem.html.
    Se for original, quem publicou na veja comprou desses http://www.abaquarconsultores.com.br/asp/consultor.asp , os quais fazem parte de uma empresa que vende itens para escolas e pré-vestibulares fazerem até simulado do Enem. Só simulado. O original é a própria empresa quem vai fazer segundo diz aqui :
    blog Fovest, o seguinte:
    Empresa cancela simulado sobre Enem
    A Funrio e a consultoria educacional Abequar cancelaram o simulado nacional que fariam sobre o Enem. A prova ocorreria em 8 de agosto.
    O cancelamento aconteceu porque a Funrio integra o consórcio vencedor da licitação responsável pelo Enem. A empresa disse que reembolsará os candidatos
    que pagaram a taxa de R$ 30 do simulado.
    http://blogdofovest.folha.blog.uol.com.br/arch2009-07-19_2009-07-25.html#2009_07-22_22_24_43-136231542-0, acesso jul/09