Jovens atacam o governo da Moldávia depois de se organizar usando o Twitter

Moscou – Uma multidão de mais de 10 mil jovens da Moldávia se materializou aparentemente do nada na terça-feira para protestar contra a liderança comunista do país, atacando prédios do governo e enfrentando a polícia.

O mar de jovens refletia um profundo abismo entre gerações que se desenvolveu na Moldávia e os manifestantes usaram as ferramentas de sua geração, juntando a multidão através de mensagens de texto, do site de relacionamentos Facebook e do Twitter, a rede social de mensagens.

Os manifestantes criaram sua própria tag no Twitter, pedindo a cidadãos que aderissem e fazendo com que os eventos no ex-estado soviético entrassem na lista de tópicos populares, permitindo que gente de todo o mundo acompanhasse as manifestações.

Na noite de terça-feira, a sede do governo tinha sido duramente danificada e muitas pessoas tinham ficado feridas. Mas a polícia de choque tinha reconquistado controle dos escritórios da presidência e do Parlamento na quarta-feira.

Depois que centenas de testemunhos invadiram a internet via Twitter, os serviços de internet em Chisinau, a capital, foram abruptamente cortados.

por Vera Martins, no Twitter

O contexto desse protesto é o seguinte. No último domingo, o Partido Comunista da Moldávia obteve 50% dos votos para as eleições parlamentares, contra 12,75% do Partido Liberal, 12% dos Liberais Democratas e 10% a Aliança ‘Nossa Moldávia’. O Partido Comunista, inclusive, venceu as eleições presidenciais, logo após uma mudança constitucional que criava a eleição indireta para presidente – o que desfavoreceu o PC – mas a grande votação da população garantiu sua vitória.

Por um lado, isso mostra o descontentamento da população com a situação atual. Fato. Por outro lado, o PCM tem uma tradição muito mais stalinista do que marxista, como a maioria dos partidos comunistas do Leste Europeu – extremamente nacionalistas. Num contexto de privatizações escandalosas, como as que aconteceram no nosso governo FHC (piores na verdade), não é fácil imaginar porque o discurso ‘pegou’.

Avanço ou retrocesso para a população, veremos.

Feios, sujos e malvados

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

Só porque moro no morro
A minha miséria a vocês despertou
A verdade é que vivo com fome
Nunca roubei ninguém, sou um trabalhador
Se há um assalto à banco
Como não podem prender o poderoso chefão
Aí os jornais vêm logo dizendo que aqui no morro só mora ladrão

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

Falar a verdade é crime
Porém eu assumo o que vou dizer
Como posso ser ladrão
Se eu não tenho nem o que comer
Não tenho curso superior
Nem o meu nome eu sei assinar
Onde foi se viu um pobre favelado
Com passaporte pra poder roubar

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

No morro ninguém tem mansão
Nem casa de campo pra veranear
Nem iate pra passeios marítimos
E nem avião particular
Somos vítimas de uma sociedade
Famigerada e cheia de malícias
No morro ninguém tem milhões de dólares
Depositados nos bancos da Suíça

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

(Vítimas da sociedade – Crioulo Doido e Bezerra da Silva)

A recente cobertura da grande mídia sobre as favelas cariocas tem me chamado à atenção. Pauta obrigatória e diária, as favelas aparecem ora como ameaça ecológica, ora como alvo de políticas públicas que são consideradas bem sucedidas e, nesta semana, como focos da violência que se expande pelo asfalto e assusta os moradores de bairros tradicionais da Zona Sul. Em todas as notícias, muitas mentiras são continuamente reiteradas, demonstrando, ao mesmo tempo, uma intenção ideológica clara de criminalizar a população favelada e defender soluções coercitivas para seu controle (vide as ocupações policiais do Dona Marta e da Cidade de Deus), bem como um olhar de classe média que informa a cobertura jornalística. Os repórteres e editores possuem um estranhamento tão profundo em relação ao mundo dessas populações que raramente aguçam ouvidos e olhos para perceber essas realidades sob outros ângulos. Desse modo, vários clichês são repetidos como verdades inquestionáveis.

A própria idéia de crime organizado deve ser vista com cuidado. Se existe crime organizado, certamente ele não está nas favelas. As facções são baseadas em alianças frágeis, muito dependentes do perfil dos “donos do morro”, autoridades sempre mais ou menos efêmeras que ditam as regras e definem o ambiente das comunidades. De acordo com isso, uma mesma favela pode ter um clima mais neurótico ou mais tranqüilo. Outros fatores também entram aí, como a ameaça de invasão policial ou miliciana ou mesmo de outra facção. Mesmo dentro de um mesmo comando, há rivalidades e invasões por grupos rivais que em geral são gestados dentro do próprio grupo que está no comando da favela invadida, por aqueles que são considerados “traíras”. Estes são movidos pela ambição de tomar o lugar do chefe. Essa instabilidade demonstra que o crime dentro das favelas está longe de ser organizado, ainda que existam hierarquias, regras, condutas que estruturam esses coletivos.

Organizada é a chegada da droga nas favelas. Recentemente, foi veiculado na imprensa que uma mesma organização vende a droga para facções rivais do Rio. Essas drogas chegam em fluxo contínuo e mesmo em períodos de “guerra” continuam a ser vendidas. Ao argumento de que o crime realmente organizado está fora das favelas, já que nelas não se produzem entorpecentes e nem armas, se responde com a denúncia da existência de um suposto laboratório de refino de cocaína na Rocinha, o que os moradores da localidade negam, e que na própria mídia aparece como sendo um local onde se mistura cocaína pura a farinha ou outras substâncias para ampliar os lucros de quem a vende. “Malhar” cocaína é bem diferente de refiná-la, processo complicado que, ao que parece, não é a especialidade brasileira na divisão do trabalho que apóia o comércio internacional da substância.

Organizada é a venda das armas que vão parar nas mãos daqueles que são responsáveis pelo varejo da droga. O arsenal que qualquer um que entra nas favelas onde há venda de drogas pode ver chega em parte pelas mãos das próprias forças estatais. Não são poucas as histórias de seqüestro de fuzis, com pedido de resgate para devolvê-los, feitos por aqueles que se dizem ao lado da lei. Organizada também é a produção dessas armas e a sua distribuição pelo mundo. Nenhuma das grandes armas que se vêm nas favelas: AR-15s, AKs, G3, etc são produzidas no Brasil. São empresas multinacionais, totalmente legalizadas, que fabricam essas armas massivamente, independentemente de seus países estarem ou não em guerra. Essas armas são fabricadas sem controle, em uma quantidade que, para tornar sua comercialização lucrativa, precisa de grandes e pequenas guerras sendo fomentadas cotidianamente no mundo. Nossa “guerra particular” é fundamental nisso e o proibicionismo em relação à venda e consumo de drogas é um combustível essencial. Mais armas pros comerciantes, mais armas para o Estado combater os comerciantes. Dinheiro que poderia ser investido na saúde, educação, cultura, emprego para de fato combater as causas da violência. Hoje o que se gasta para combater o comércio e o consumo das substâncias proibidas é mais do que se gastaria em saúde pública para tratar os drogadictos caso seu uso fosse liberado.

Organizada também é a entrada do dinheiro ilegal do tráfico internacional de drogas e armas no sistema financeiro. Os bancos, instituições financeiras do mundo “legal”, recebem esse dinheiro e ajudam assim a limpá-lo, permitindo que ele vá alimentar legalidades e ilegalidades que são parte de uma mesma coisa sob o capitalismo financeirizado. Dito de outra maneira, não é possível existir tráfico de drogas, seja o grande tráfico internacional seja o varejo das favelas, sem a conivência das instituições financeiras.

Isso demonstra o quanto é falsa e mistificadora a culpabilização dos usuários de drogas pela violência gerada pela presença e uso de armas de grosso calibre por toda a cidade. O consumo de maconha, por exemplo, é histórico entre as camadas populares de nossa cidade, compondo estilos de vida e assumindo sentidos culturais negados pelo proibicionismo. Quanto à classe média, tal consumo se difundiu sobretudo no esteio da contracultura, a princípio como contestação à sociedade de consumo e depois adquirindo novos significados, mas sempre com algum resquício de rebeldia. No caso dos chamados viciados, sobretudo em pó e crack, são pessoas que merecem tratamento, pois são portadores de uma doença que deve ser vista como problema de saúde pública e não como resultado de falhas de caráter. Dizer que esses são os vilões que estão por trás dos muitos tiros que foram trocados na esquina da Toneleiros com Santa Clara é uma maneira confortável de simplificar as coisas, desresponsabilizar o Estado e sua fracassada política de combate ao crime e obscurecer a importância daqueles que verdadeiramente lucram com essas “guerras” que aumentam a venda de armas e jornais.

Algumas perguntas ficam sem respostas. Por que por exemplo se elegem as favelas como o palco do combate ao comércio de drogas? Todos sabem que o comércio e consumo de substâncias ilegais correm soltos em boates freqüentadas pela classe média e classe média alta carioca e no entanto não existem registros de “operações” realizadas nessas localidades. Nem em condomínios de luxo onde se consomem drogas e que também invadem áreas de mata atlântica, poluem lagoas e mares numa escala muito mais ameaçadora do que os barracos das favelas. Por que os inimigos da sociedade foram eleitos entre aqueles para quem o comércio varejista de drogas é emprego, é alternativa de uma vida sem muitas alternativas? A grande maioria dos jovens que hoje empunham as armas nas favelas não têm acesso à educação de qualidade, à saúde, ao emprego digno, a equipamentos culturais públicos ou privados ( muitos jamais foram ao cinema, por exemplo). São esses os inimigos da sociedade?

Em meio a essas reflexões, lembrei de uma frase de Bertolt Brecht: “Aquele que desconhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e a chama de mentira é um criminoso.” Brechtianamente, cabe perguntar: De quantos crimes cotidianos é feito o combate ao crime no Rio de Janeiro?

Artigo escrito por Adriana Facina, antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

CURSOS DE JORNALISMO E A IMPRENSA EM DEBATE

José Marques de Melo possui diversos livros publicados sobre Comunicação e Jornalismo, alguns deles evocados nos cursos da área, ajudou a fundar a Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e a Sociedade Brasileira de Estudos Interdiplinares da Comunicação (Intercom). Convidado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, iniciou em fevereiro os trabalhos da comissão que, sob sua presidência, vai formular uma proposta de reforma das Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Jornalismo.

O pesquisador conversou com o Fazendo Media antes da audiência pública realizada no MEC (Ministério da Educação) dia 20 de março, no Rio de Janeiro, que contou com a presença de, principalmente, professores e estudantes de jornalismo. A Comissão terá 180 dias para produzir um relatório, a ser entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE) que fará uma análise para em seguida deliberar sobre a proposta. Ocorrerá mais duas audiências públicas, uma no dia 24 de abril em Recife e outra em São Paulo no dia 18 de maio, antes do encerramento do processo.

Foi com a fala de José Marquesde Melo que a audiência no Rio de Janeiro terminou, destacando: “Nós estamos aqui para mudar o que está aí, levem para as suas universidades o debate, mas é preciso levar em consideração que no ano que vem teremos eleição e no Brasil quando muda o governo muda tudo”.

De onde surgiu a idéia de iniciar uma reformulação das diretrizes curriculares dos cursos de jornalismo?

Na verdade isso faz parte de uma estratégia geral do Ministério da Educação de fazer uma mudança no sistema de ensino superior do Brasil. Nós temos vários problemas acumulados em décadas, que o Ministro Fernando Haddad está preocupado em começar de alguma maneira por alguns setores. Foi feito um diagnóstico do MEC e constatou-se que havia algumas áreas importantes para a sociedade brasileira e a escolha das áreas iniciais não foi uma escolha aleatória.

Entre essas áreas fundamentais para o futuro da democracia no Brasil, o futuro da sociedade brasileira, está evidentemente a do jornalismo. Já era para ter começado esse trabalho na área de saúde, na área de direito, vai ser inaugurado o de jornalismo e outras áreas virão. Então cada um está sendo tratado de maneira específica no momento que foi considerado oportuno.

No caso do jornalismo, o ministro decidiu então desencadear esse processo e me convidou para presidir a comissão exatamente pela minha experiência. Eu milito no campo há 50 anos, trabalhei como jornalista profissional, fui fundador do curso de jornalismo da USP que foi um curso paradigmático para o Brasil inteiro nos anos 60, e eu então me dispus a formar o grupo.

Fiz consultas nas entidades da área e formei uma comissão com mais 7 pessoas que estão trabalhando desde fevereiro nisso. Nós estabelecemos um cronograma de trabalhar até junho para entregar nossas considerações e pretendemos antes de tomar qualquer deliberação ouvir a sociedade. Um trabalho desse tipo não pode ser feito somente por um grupo de iluminados, porque eles não têm solução para tudo, então nós queremos ouvir a comunidade acadêmica, queremos ouvir o mercado, a profissão, e queremos ouvir também a sociedade civil.

A comunidade acadêmica na verdade é usuária do sistema, porque eles são professores, alunos ou pesquisadores. A profissão é marcada, portanto, pelo produto das nossas atividades nas universidades, que são os jornalistas que nós formamos, e vamos ser testados pelas empresas; pelos órgãos de comunicação.

Nós queremos ouvir também os que enpregam, porque afinal de contas nós temos que estar em sintonia com as necessidades e as aspirações desse mercado. Não que a universidade vá formar pessoas numa linha de produção para o mercado, mas nós temos que levar em consideração quais são as expectativas do sistema. E precisamos ouvir a sociedade civil, porque a sociedade civil é a nossa vítima, nós estamos produzindo reportagens, editoriais, comentários, para os cidadãos. Queremos ouvir então a OAB, a igreja, o movimento de mulheres, todos aqueles que fazem parte desse nosso universo e foi assim que o processo se originou e está sendo desenvolvido.

Quais são as mudanças propostas pela comissão?

A comissão não tem nenhuma proposta ainda, ela primeiro está ouvindo a sociedade e só depois é que nós vamos formular. Vamos tentar defrontar os diferentes pontos de vista e apresentar alguma coisa que seja consensual.

Mais ou menos 10 anos atrás o MEC começou um processo parecido que era de reforma das diretrizes curriculares de todas as habilitações de comunicação social. Na sua opinião, porque o Ministério decidiu agora concentrar na habilitação de jornalismo?

A decisão não é por área, a decisão é por quais são as profissões chaves para o futuro da sociedade brasileira e a consolidação da democracia no Brasil. A medicina, porque sem vida você não tem sociedade e o direito das relações sociais. O jornalismo que faz a cabeça das pessoas e a pedagogia que também é uma área fundamental porque forma o cidadão.

A escolha das áreas não foi feita aleatoriamente, foi feita em função das necessidades da sociedade brasileira. E nós estamos aqui nessa comissão preocupados em estabelecer o perfil do jornalista nesse tipo de sociedade.

Como você observa a imprensa hoje em relação à qualidade? E de que maneira isso está relacionado aos cursos de jornalismo?

A imprensa brasileira é de muito bom nível do ponto de vista técnico, ela evoluiu bastante nos últimos anos, se você comparar com a imprensa da América Latina ela é uma imprensa de ponta. Mas ela é uma imprensa de elite, ela é uma imprensa que só atende a uma minoria que sabe ler, escrever e que tem capacidade aquisitiva. Grande parte da população brasileira está excluída da imprensa e conseqüentemente não tem capacidade de abstração.

Eu entendo que a imprensa brasileira é ótima para as camadas superiores da sociedade, claro que evidentemente essa classe média alta, a burguesia, tem críticas à imprensa. Mas eu entendo que o jornalismo precisa ser feito para o conjunto da sociedade, precisamos informar a sociedade. Se a sociedade não está bem informada ela não sabe decidir, não sabe tomar determinadas soluções no momento apropriado, então nós temos uma sociedade vulnerável.

De certa forma esse processo de acumulação também toca muito nessa questão de reformular os cursos de jornalismo com esse objetivo: mudar um pouco.

Mudar a sociedade, não estamos formando jornalistas aqui para conservar o que existe aí. Claro, se a sociedade acha que deve ser conservada, tudo bem. Nós queremos ouvir primeiro, nós temos alguns indicadores.

O que eu penso de jornalismo vocês encontram nos meus livros, teoria do jornalismo, jornalismo brasileiro e muitos outros. Mas eu estou presidindo uma comissão que vai ouvir e estabelecer diretrizes consensuais, eu não vou impor meus pontos de vista, nem nenhum outro membro da comissão. Nós temos opiniões, somos experientes, e por isso estamos aqui, somos 8 pessoas com muita experiência na área, todos passaram pela academia e pelo mercado, e nós temos as duas visões dos vários lados da questão.

Algumas instituições, algumas matérias e entrevistas publicadas até agora, desde o dia 19 de fevereiro, falaram bastante da possibilidade do desmembramento do jornalismo da comunicação social. Qual é a sua opinião pessoal quanto a isso?

Isso é um problema que existe não só na área da comunicação, como em várias áreas do conhecimento. Houve um atrelamento de carreiras que têm autonomia, que são independentes, a uma grade curricular que é uma prisão. Por exemplo, o jornalismo existe no Brasil desde 1947 como curso independente, esse curso na verdade foi no fim de um regime militar, então houve uma tentativa de junções de áreas que não são afins.

Não é que o jornalismo vai sair da comunicação, o jornalismo vai continuar na comunicação, mas cada um com a sua autonomia. O cinema era da comunicação e já está hoje com currículo próprio, o jornalismo é disciplina. Esperamos que venha depois o momento da publicidade e das relações públicas, cada área tem o seu espaço de comunicação, não é que nós estejamos saindo.

Você tem um currículo que muitas vezes pode ser comum a todas as áreas, mas isso não é verdade. Vamos pegar um exemplo, economia: não pode ser dado um curso somente para todas as áreas, no jornalismo precisa de economia política e o publicitário precisa fazer economia de mercado; são nuances diferentes. Essa base cultural dos estudantes de comunicação é como se fosse de saúde, imagine seu eu tivesse no Brasil um curso de saúde com habilitação em medicina, nutrição, enfermagem e odontologia? Todos estão na área de saúde, mas cada um tem a sua própria identidade.

O que houve no Brasil, na minha opinião, foi um retrocesso. Nós tínhamos até os anos 70, cursos vinculados evidentemente ao mesmo campo, mas outros com autonomia; essa é a minha posição.

Essa junção se deu então a partir do início da década de 80?

Foi nos anos 80, a resolução 2/84 é que contempla essa pasteurização. Todos os cursos foram colocados numa mesma grade com habilitações no final do curso.

Você acha que falta então um pouco mais de formação humana no jornalismo? Conhecimentos gerais, ciências sociais…

Falta formação humana e cultural. O estudante de jornalismo hoje, na minha opinião, com raras exceções, não está plenamente capacitado; depende muito da formação do aluno também.

Na Universidade de São Paulo recebíamos alunos que vinham de bons colégios com muito boa formação e que se desempenhavam bem, mas o fato dele não ter muita maleabilidade de conhecer história, geografia, literatura, política, economia, isso daí que faz falta no jornalismo. O jornalista sem isso é um jornalista pela metade, mas também eu admito que o jornalista possa ter, digamos, uma formação de preferência. Tem muitos jornalistas que já chegam querendo fazer jornalismo econômico, então esse pessoal tem que se concentrar nas matérias de economia.

Eu quando fiz o curso de jornalismo, não é que eu queira dizer que no meu tempo era melhor, estudei jornalismo informativo, jornalismo opinativo, interpretativo, radiojornalismo, telejornalismo. Estudei história antiga, medieval, moderna, história do Brasil contemporâneo, do Brasil antigo, moderno. Aprendi literatura brasileira, literatura portuguesa, geografia econômica. Eu tive quase vinte disciplinas que me deram uma visão geral do mundo.

Hoje se você tem uma disciplina dessa na grade já é muito. Eu, por exemplo, só tive uma disciplina de história.

Então… Eu sou favorável a que o aluno seja encarado como um ser que tenha liberdade de opção, eu acho que todo estudante de jornalismo não deve ser obrigado a ter a mesma formação. Os alunos devem ter uma margem de liberdade para freqüentar na universidade aquilo que lhes convém.

Qual é a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma?

Vocês sabem que eu defendo o diploma há muito tempo, mas eu não defendo o diploma vazio, eu acho que o diploma só tem sentido se ele for um diploma que capacite para o exercício do profissional.

Eu acho que no Brasil houve uma distorção com essa questão da obrigatoriedade do diploma, porque criaram-se vários cursos no país que dão diploma mas não forma jornalistas. Eu acho que a nossa preocupação aqui é formar bons jornalistas. A questão do diploma está sendo discutida no Ministério do Trabalho, no Supremo Tribunal Federal, e de qualquer maneira, com diploma ou sem diploma, nós temos que formar bons jornalistas e essa é a nossa missão aqui.

Além dessa polêmica em torno do diploma, outras questões têm sido faladas em termos tanto do desmembramento quanto duma possibilidade da especialização para a formação. De, por exemplo, alguém que cursou economia poder fazer em dois anos ou tempo inferior a habilitação. Isso perpassa pela discussão das diretrizes?

Perpassa, nós temos que ouvir todas as sugestões, todas as indicações.

Não ficar só restrito à graduação?

Também, nós temos que pensar no conjunto. Temos que pensar na pós-graduação também, ela produz conhecimento, produz pesquisa e professores.

Pela questão também de, ocorrendo o desmembramento da graduação, pensar em como é que vão ser os programas de pós-graduação. Já tem programa de mestrado em jornalismo…

Já teve e só tem, por enquanto, em Santa Catarina. Quer dizer, é a única que está mantendo um curso específico de mestrado em jornalismo. Precisamos ter cursos de mestrado e doutorado em jornalismo, cinema e publicidade e em comunicação também.

Retirado do FazendoMedia