José Marques de Melo possui diversos livros publicados sobre Comunicação e Jornalismo, alguns deles evocados nos cursos da área, ajudou a fundar a Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e a Sociedade Brasileira de Estudos Interdiplinares da Comunicação (Intercom). Convidado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, iniciou em fevereiro os trabalhos da comissão que, sob sua presidência, vai formular uma proposta de reforma das Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Jornalismo.
O pesquisador conversou com o Fazendo Media antes da audiência pública realizada no MEC (Ministério da Educação) dia 20 de março, no Rio de Janeiro, que contou com a presença de, principalmente, professores e estudantes de jornalismo. A Comissão terá 180 dias para produzir um relatório, a ser entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE) que fará uma análise para em seguida deliberar sobre a proposta. Ocorrerá mais duas audiências públicas, uma no dia 24 de abril em Recife e outra em São Paulo no dia 18 de maio, antes do encerramento do processo.
Foi com a fala de José Marquesde Melo que a audiência no Rio de Janeiro terminou, destacando: “Nós estamos aqui para mudar o que está aí, levem para as suas universidades o debate, mas é preciso levar em consideração que no ano que vem teremos eleição e no Brasil quando muda o governo muda tudo”.
De onde surgiu a idéia de iniciar uma reformulação das diretrizes curriculares dos cursos de jornalismo?
Na verdade isso faz parte de uma estratégia geral do Ministério da Educação de fazer uma mudança no sistema de ensino superior do Brasil. Nós temos vários problemas acumulados em décadas, que o Ministro Fernando Haddad está preocupado em começar de alguma maneira por alguns setores. Foi feito um diagnóstico do MEC e constatou-se que havia algumas áreas importantes para a sociedade brasileira e a escolha das áreas iniciais não foi uma escolha aleatória.
Entre essas áreas fundamentais para o futuro da democracia no Brasil, o futuro da sociedade brasileira, está evidentemente a do jornalismo. Já era para ter começado esse trabalho na área de saúde, na área de direito, vai ser inaugurado o de jornalismo e outras áreas virão. Então cada um está sendo tratado de maneira específica no momento que foi considerado oportuno.
No caso do jornalismo, o ministro decidiu então desencadear esse processo e me convidou para presidir a comissão exatamente pela minha experiência. Eu milito no campo há 50 anos, trabalhei como jornalista profissional, fui fundador do curso de jornalismo da USP que foi um curso paradigmático para o Brasil inteiro nos anos 60, e eu então me dispus a formar o grupo.
Fiz consultas nas entidades da área e formei uma comissão com mais 7 pessoas que estão trabalhando desde fevereiro nisso. Nós estabelecemos um cronograma de trabalhar até junho para entregar nossas considerações e pretendemos antes de tomar qualquer deliberação ouvir a sociedade. Um trabalho desse tipo não pode ser feito somente por um grupo de iluminados, porque eles não têm solução para tudo, então nós queremos ouvir a comunidade acadêmica, queremos ouvir o mercado, a profissão, e queremos ouvir também a sociedade civil.
A comunidade acadêmica na verdade é usuária do sistema, porque eles são professores, alunos ou pesquisadores. A profissão é marcada, portanto, pelo produto das nossas atividades nas universidades, que são os jornalistas que nós formamos, e vamos ser testados pelas empresas; pelos órgãos de comunicação.
Nós queremos ouvir também os que enpregam, porque afinal de contas nós temos que estar em sintonia com as necessidades e as aspirações desse mercado. Não que a universidade vá formar pessoas numa linha de produção para o mercado, mas nós temos que levar em consideração quais são as expectativas do sistema. E precisamos ouvir a sociedade civil, porque a sociedade civil é a nossa vítima, nós estamos produzindo reportagens, editoriais, comentários, para os cidadãos. Queremos ouvir então a OAB, a igreja, o movimento de mulheres, todos aqueles que fazem parte desse nosso universo e foi assim que o processo se originou e está sendo desenvolvido.
Quais são as mudanças propostas pela comissão?
A comissão não tem nenhuma proposta ainda, ela primeiro está ouvindo a sociedade e só depois é que nós vamos formular. Vamos tentar defrontar os diferentes pontos de vista e apresentar alguma coisa que seja consensual.
Mais ou menos 10 anos atrás o MEC começou um processo parecido que era de reforma das diretrizes curriculares de todas as habilitações de comunicação social. Na sua opinião, porque o Ministério decidiu agora concentrar na habilitação de jornalismo?
A decisão não é por área, a decisão é por quais são as profissões chaves para o futuro da sociedade brasileira e a consolidação da democracia no Brasil. A medicina, porque sem vida você não tem sociedade e o direito das relações sociais. O jornalismo que faz a cabeça das pessoas e a pedagogia que também é uma área fundamental porque forma o cidadão.
A escolha das áreas não foi feita aleatoriamente, foi feita em função das necessidades da sociedade brasileira. E nós estamos aqui nessa comissão preocupados em estabelecer o perfil do jornalista nesse tipo de sociedade.
Como você observa a imprensa hoje em relação à qualidade? E de que maneira isso está relacionado aos cursos de jornalismo?
A imprensa brasileira é de muito bom nível do ponto de vista técnico, ela evoluiu bastante nos últimos anos, se você comparar com a imprensa da América Latina ela é uma imprensa de ponta. Mas ela é uma imprensa de elite, ela é uma imprensa que só atende a uma minoria que sabe ler, escrever e que tem capacidade aquisitiva. Grande parte da população brasileira está excluída da imprensa e conseqüentemente não tem capacidade de abstração.
Eu entendo que a imprensa brasileira é ótima para as camadas superiores da sociedade, claro que evidentemente essa classe média alta, a burguesia, tem críticas à imprensa. Mas eu entendo que o jornalismo precisa ser feito para o conjunto da sociedade, precisamos informar a sociedade. Se a sociedade não está bem informada ela não sabe decidir, não sabe tomar determinadas soluções no momento apropriado, então nós temos uma sociedade vulnerável.
De certa forma esse processo de acumulação também toca muito nessa questão de reformular os cursos de jornalismo com esse objetivo: mudar um pouco.
Mudar a sociedade, não estamos formando jornalistas aqui para conservar o que existe aí. Claro, se a sociedade acha que deve ser conservada, tudo bem. Nós queremos ouvir primeiro, nós temos alguns indicadores.
O que eu penso de jornalismo vocês encontram nos meus livros, teoria do jornalismo, jornalismo brasileiro e muitos outros. Mas eu estou presidindo uma comissão que vai ouvir e estabelecer diretrizes consensuais, eu não vou impor meus pontos de vista, nem nenhum outro membro da comissão. Nós temos opiniões, somos experientes, e por isso estamos aqui, somos 8 pessoas com muita experiência na área, todos passaram pela academia e pelo mercado, e nós temos as duas visões dos vários lados da questão.
Algumas instituições, algumas matérias e entrevistas publicadas até agora, desde o dia 19 de fevereiro, falaram bastante da possibilidade do desmembramento do jornalismo da comunicação social. Qual é a sua opinião pessoal quanto a isso?
Isso é um problema que existe não só na área da comunicação, como em várias áreas do conhecimento. Houve um atrelamento de carreiras que têm autonomia, que são independentes, a uma grade curricular que é uma prisão. Por exemplo, o jornalismo existe no Brasil desde 1947 como curso independente, esse curso na verdade foi no fim de um regime militar, então houve uma tentativa de junções de áreas que não são afins.
Não é que o jornalismo vai sair da comunicação, o jornalismo vai continuar na comunicação, mas cada um com a sua autonomia. O cinema era da comunicação e já está hoje com currículo próprio, o jornalismo é disciplina. Esperamos que venha depois o momento da publicidade e das relações públicas, cada área tem o seu espaço de comunicação, não é que nós estejamos saindo.
Você tem um currículo que muitas vezes pode ser comum a todas as áreas, mas isso não é verdade. Vamos pegar um exemplo, economia: não pode ser dado um curso somente para todas as áreas, no jornalismo precisa de economia política e o publicitário precisa fazer economia de mercado; são nuances diferentes. Essa base cultural dos estudantes de comunicação é como se fosse de saúde, imagine seu eu tivesse no Brasil um curso de saúde com habilitação em medicina, nutrição, enfermagem e odontologia? Todos estão na área de saúde, mas cada um tem a sua própria identidade.
O que houve no Brasil, na minha opinião, foi um retrocesso. Nós tínhamos até os anos 70, cursos vinculados evidentemente ao mesmo campo, mas outros com autonomia; essa é a minha posição.
Essa junção se deu então a partir do início da década de 80?
Foi nos anos 80, a resolução 2/84 é que contempla essa pasteurização. Todos os cursos foram colocados numa mesma grade com habilitações no final do curso.
Você acha que falta então um pouco mais de formação humana no jornalismo? Conhecimentos gerais, ciências sociais…
Falta formação humana e cultural. O estudante de jornalismo hoje, na minha opinião, com raras exceções, não está plenamente capacitado; depende muito da formação do aluno também.
Na Universidade de São Paulo recebíamos alunos que vinham de bons colégios com muito boa formação e que se desempenhavam bem, mas o fato dele não ter muita maleabilidade de conhecer história, geografia, literatura, política, economia, isso daí que faz falta no jornalismo. O jornalista sem isso é um jornalista pela metade, mas também eu admito que o jornalista possa ter, digamos, uma formação de preferência. Tem muitos jornalistas que já chegam querendo fazer jornalismo econômico, então esse pessoal tem que se concentrar nas matérias de economia.
Eu quando fiz o curso de jornalismo, não é que eu queira dizer que no meu tempo era melhor, estudei jornalismo informativo, jornalismo opinativo, interpretativo, radiojornalismo, telejornalismo. Estudei história antiga, medieval, moderna, história do Brasil contemporâneo, do Brasil antigo, moderno. Aprendi literatura brasileira, literatura portuguesa, geografia econômica. Eu tive quase vinte disciplinas que me deram uma visão geral do mundo.
Hoje se você tem uma disciplina dessa na grade já é muito. Eu, por exemplo, só tive uma disciplina de história.
Então… Eu sou favorável a que o aluno seja encarado como um ser que tenha liberdade de opção, eu acho que todo estudante de jornalismo não deve ser obrigado a ter a mesma formação. Os alunos devem ter uma margem de liberdade para freqüentar na universidade aquilo que lhes convém.
Qual é a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma?
Vocês sabem que eu defendo o diploma há muito tempo, mas eu não defendo o diploma vazio, eu acho que o diploma só tem sentido se ele for um diploma que capacite para o exercício do profissional.
Eu acho que no Brasil houve uma distorção com essa questão da obrigatoriedade do diploma, porque criaram-se vários cursos no país que dão diploma mas não forma jornalistas. Eu acho que a nossa preocupação aqui é formar bons jornalistas. A questão do diploma está sendo discutida no Ministério do Trabalho, no Supremo Tribunal Federal, e de qualquer maneira, com diploma ou sem diploma, nós temos que formar bons jornalistas e essa é a nossa missão aqui.
Além dessa polêmica em torno do diploma, outras questões têm sido faladas em termos tanto do desmembramento quanto duma possibilidade da especialização para a formação. De, por exemplo, alguém que cursou economia poder fazer em dois anos ou tempo inferior a habilitação. Isso perpassa pela discussão das diretrizes?
Perpassa, nós temos que ouvir todas as sugestões, todas as indicações.
Não ficar só restrito à graduação?
Também, nós temos que pensar no conjunto. Temos que pensar na pós-graduação também, ela produz conhecimento, produz pesquisa e professores.
Pela questão também de, ocorrendo o desmembramento da graduação, pensar em como é que vão ser os programas de pós-graduação. Já tem programa de mestrado em jornalismo…
Já teve e só tem, por enquanto, em Santa Catarina. Quer dizer, é a única que está mantendo um curso específico de mestrado em jornalismo. Precisamos ter cursos de mestrado e doutorado em jornalismo, cinema e publicidade e em comunicação também.