Archive for April, 2009

Por que São Paulo ruiu

Em 2009, completam-se 15 anos desde que o mesmo grupo político assumiu e vem mantendo o controle do Estado de São Paulo, o mais rico Estado da Federação brasileira, cujo PIB responde por 33,9% do PIB nacional – sem que, no entanto, o Estado abrigue mais do que 20% da população do país –, o que, em tese, deveria fazer dele um dos melhores Estados brasileiros para se viver devido à sua  renda per capita mais alta.

Para explicar por que São Paulo ruiu, por que o Estado se tornou tão inabitável, tão perigoso, tão ruim para pessoas físicas e jurídicas que passou a perder investimentos, participação no PIB e a exibir indicadores sócio-econômicos entre os piores do país, como em qualidade da Educação (pública e privada), da Saúde ou da Segurança Pública, haverá que notar primeiro como se dá a fiscalização do poder público pela sociedade paulista.

A explicação para a grande depressão paulista dos últimos quinze anos reside num processo complexo. E, quando falo em grande depressão paulista, alguns tentarão negá-la – os aliados do grupo político responsável pelo descalabro paulista que teimam em se apresentar como analistas “isentos”, ou seja, a imprensa de São Paulo e grande parte da imprensa brasileira, engajada no projeto político do conclave entre Fernando Henrique Cardoso e José Serra.

Não conseguirão negar, ao menos aqui, pois faço esta argumentação baseado num dado fácil de se verificar, e que, ao ser verificado pelo leitor que realmente busca os fatos, mostrará que tenho razão.

Poderia ficar mostrando estatísticas que comprovam a piora paulista nos últimos quinze anos, como as estatísticas sobre Segurança Pública, as quais, apesar das muitas acusações de manipulação pelo governo de São Paulo, ainda podem ser verificadas com facilidade.

A forma de apuração dos dados sobre Segurança Pública pela Secretaria de Estado responsável pela área, por exemplo, sofreu alguns “ajustes” bem malandros entre 1995 e hoje. Houve separação dos tipos de crimes de forma a apresentar dados fragmentados que impedem a verificação mais ampla da impressionante piora da Segurança neste Estado tão cheio de recursos.

Fiz os ajustes necessários para unir os dados estatísticos sobre os tipos de crimes com base em dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e encontrei o seguinte: 

Tipo de crime              4º trimestre 1995      4º trimestre de  2008        variação

Contra a pessoa                    98.491                          119.711                       21,54%

Contra o patrimônio           162.341                          229.073                       41,10%

Outros crimes                       39.720                           107.221                     169,94%

Entorpecentes                         4.004                              8.345                     108,42%

Total de crimes/delitos       304.556                          464.350                       52,47%

Vocês acham expressivo o percentual de 52,47% de aumento da criminalidade em São Paulo entre o 4º trimestre de 1995 e o de 2008? Pois eu acho que é ainda maior, pois não faltam acusações de manipulações dos dados da Segurança pelo governo do Estado.

 

Mas, se ficarmos apenas nas estatísticas oficiais, verificaremos que a criminalidade explodiu no Estado de São Paulo desde que o PSDB chegou ao poder.

O mesmo aconteceu com a Educação e com a Saúde públicas. Apesar de seu poderio econômico, São Paulo paga os piores salários a professores, a médicos, a policiais. Além disso, nas avaliações sobre a qualidade dos serviços de ensino e de assistência médico-hospitalar, os números paulistas são dos mais deprimentes.

Mas talvez o que mais choque em São Paulo seja o absurdo desempenho escolar dos alunos da rede pública de ensino. Ficamos atrás de Estados paupérrimos do Nordeste, em vários casos.

O que acontece com São Paulo é que a sociedade desse Estado não tem como fiscalizar o governo estadual e muito menos como pressioná-lo. A imprensa paulista está todinha comprada desde 1995.

Os sucessivos governos paulistas torram dinheiro público comprando livros escolares de baixíssima qualidade de uma Editora Abril ou torram o dinheiro do contribuinte comprando milhares de assinaturas da Folha de São Paulo ou do Estadão. Enquanto isso, as escolas municipais da coalizão tucano-pefelista economizam criminosamente na merenda escolar.

E onde está a imprensa? Desafio qualquer um a encontrar, neste ano inteiro, uma simples meia dúzia de críticas consistentes e destacadas da imprensa ao governador José Serra. Ninguém encontrará. Os governadores paulistas do PSDB vêm sendo poupados de fiscalização e de críticas da imprensa há quinze anos. A sociedade paulista não tem como fiscalizar e pressionar o Estado.

São Paulo ruiu por culpa da maioria de seu povo, em grande parte cúmplice desse processo ditatorial que vige no Estado, processo no qual o governo regional conta com censura a críticas pela imprensa. O conservadorismo majoritário em São Paulo não é inimigo apenas do resto do país, mas dos próprios paulistas, que pagam caro pela própria burrice preconceituosa e arrogante.

Por Eduardo Guimarães, do http://edu.guim.blog.uol.com.br/

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O que a grande mídia nunca informa sobre o governo de Hugo Chávez

Alguns números sobre o resultado de nove anos do governo Chávez, completados dia dois de fevereiro (02/02/2008). Um pouco atrasada a notícia, mas acredito que muita gente nunca teve acesso a esses números.

Analfabetismo: Na Venezuela, havia 1,5 milhão de analfabetos. Em 2005, a UNESCO declarou o país território livre do analfabetismo.

Pobreza extrema: Em 1998, mais de 20% da população vivia em pobreza extrema. Em 2007, o índice caiu a menos da metade: 9,4%.

O desemprego caiu de 16,6% para 6,3%.

Salário mínimo: Em dólar, subiu de 153,1 para 285,9. Em bolívares: de 75 mil para 614,79 mil

Relação dívida-PIB: Em 1998, a dívida era de 78,1% do PIB. Em 2007, 18,5%

Relação divida externa-PIB: Caiu de 25,5% para 11,3%

Investimentos em educação: porcentagem em relação ao PIB cresceu de 3,38% para 5,43%

Investimentos em Saúde: porcentagem em relação ao PIB cresceu de 1,36% para 2,25%

Mortalidade infantil, por mil crianças nascidas vivas: caiu de 21,4 para 13,9 por mil

Crianças no pré-escolar: Aumentou de 44,4% para 60,6%

Educação média: Foi de 26,9% para 41%

Ensino Superior: Aumentou de 22,6% para 30,2% o número de matriculados

Matrícula escolar e número de escolas. De 1.921 escolas e 427,5 mil matrículas passou para 5.500 escolas e 1,1 milhão de matrículas.

Programa de alimentação escolar: de 252,2 mil para 1,81 milhão de beneficiados.

Matrículas em escolas técnicas: de 31,4 mil para 203,9 mil.

Acesso à água potável: de 80% para 92% da população.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um indicador internacional medido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em que 0 (zero) é o mínimo e 1 (um) o máximo, subiu de 0,691 em 1998 a 0.878, em 2007, o que significa um aumento de 33%.

Tirado da http://www.anncol-brasil.blogspot.com/

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Adriano, o Lúcido

Adriano, pela etimologia significa: “O que possui pele morena”. Pela história, associamos tal nome ao imperador que governou Roma entre 117 e 138. No Brasil, hoje, Adriano é um jogador de futebol que gerou espanto.

Nos últimos dias um assunto extravasou do noticiário esportivo para a primeira página dos jornais e a chamada de abertura dos telejornais. Adriano, centroavante brasileiro de 27 anos, atleta com contrato milionário com a Internazionale de Milão, após três dias sumido, foi localizado na favela carioca de Vila Cruzeiro.

Quatro dias depois do sumiço, convocou uma coletiva à imprensa e afirmou que não encontrava mais motivação no futebol e que iria interromper suas atividades futebolísticas. Na entrevista, falando com calma e lucidez visíveis, declarou que fora negociado com o futebol europeu aos 19 anos de idade, que a fama e o dinheiro vieram muito rápido, causando um choque, que se sentia só no meio do futebol e dos famosos e que se sente mais feliz na favela onde nasceu e foi criado.

Sexta-feira santa! Uma procissão veio a público recriminá-lo, diagnosticá-lo como doente e recomendar seu tratamento: “o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos, e o banqueiro com um milhão”, diria Chico. Zagalo – visivelmente gagá – disse que Adriano precisava de tratamento, opinião endossada, com o bom humor de sempre, por Murici Ramalho. Parreira começou bem, falando da solidão em que pode se encontrar um jogador nessas condições, para emendar de forma catastrófica dizendo que por isso o sujeito caminhava para a bebida, as drogas e os falsos amigos. Pelé, com a sapiência que lhe é peculiar vaticinou: “isso depõe contra o país”, e viva Romário, que já dizia: “Pelé calado é um poeta”! Uma alma lúcida parece ter iluminado o treinador da Inter, José Mourinho, que afirmou: “é perfeito se você perde o jogador e reencontra o homem”.

Por que as declarações de Adriano incomodaram tanto? Sigo algumas pistas.

Vivemos numa época em que às classes dominantes interessa vender a ilusão de que há saída – individual – para a condição proletária em nosso país (miséria, vida na favela, precarização do trabalho e desemprego estrutural). Uma saída materializada no empreendedorismo, no estímulo à (re)qualificação profissional dos “pobres”, através das ONGs e dos poucos braços de políticas públicas focalizadas, que despertam a vocação para a música ou os esportes (carnaval, funk, rap e futebol ou basquetebol, tanto faz), e exemplificada pelo sucesso de alguns poucos cantores de pagode e jogadores de futebol. Quando um “ídolo” desfaz, com lucidez, o mito, é preciso patologizá-lo: está doente, depressivo, alcoólatra, viciado, etc.

Num momento em que a favela é oficialmente associada ao crime e seus moradores divididos, pelo discurso oficial, entre traficantes e coniventes/candidatos com o/ao tráfico, um exemplo de “sucesso” como Adriano afirmar de público que prefere a Vila Cruzeiro à Milão é extremamente perigoso. Trata-se de uma clara defesa da sociabilidade comunitária construída pela classe trabalhadora na favela, em contraposição ao simulacro de vida burguesa ao qual meia dúzia de pobres “afortunados” (pelo talento ou pela sorte) teve acesso quando elevados à categoria de “ídolos”. E desmascarar fantasias é algo extremamente perigoso. Clínica nele!

Os paparazzi já se cansaram de nos mostrar que Adriano é chegado a uma cerveja e já tomou alguns porres. Como eu e como muitos(as) de vocês que estão lendo este texto. O interessante é perceber que, para explicar sua opção pelo abandono do futebol, de Milão, e da fama, busquem justificativa nas drogas (não no álcool, droga legal, mas nas ilegais) e na sua suposta associação com traficantes. Aliás, estranho é que não questionem porque ele, Kaká, Ronaldinho, e tantos outros, tenham saído daqui tão magrinhos e hoje apresentem um físico tão “bombado”. Drogas? O problema são as vendidas na favela.

Sou flamenguista, única declaração de fé que faço sem maior vacilação. Assisti ao despontar de Adriano, como jogador de futebol, das arquibancadas do Maracanã. Xinguei aqueles ladrões travestidos de “dirigentes” que, de seus postos na Gávea, venderam aquela “promessa” entre tantas outras, como mercadoria que são, para o futebol europeu.

E é como torcedor e como homem (no sentido genérico de um ser social que busca se encontrar com sua humanidade) que me sinto feliz ao ouvir a entrevista de Adriano, que não se conformou com a fama, o sucesso, a riqueza, e busca, sabe-se lá onde – talvez em Vila Cruzeiro – a felicidade. Sejamos todos como Adriano, o lúcido!

Texto por Marcelo Badaró Mattos, professor de História.

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Jovens atacam o governo da Moldávia depois de se organizar usando o Twitter

Moscou – Uma multidão de mais de 10 mil jovens da Moldávia se materializou aparentemente do nada na terça-feira para protestar contra a liderança comunista do país, atacando prédios do governo e enfrentando a polícia.

O mar de jovens refletia um profundo abismo entre gerações que se desenvolveu na Moldávia e os manifestantes usaram as ferramentas de sua geração, juntando a multidão através de mensagens de texto, do site de relacionamentos Facebook e do Twitter, a rede social de mensagens.

Os manifestantes criaram sua própria tag no Twitter, pedindo a cidadãos que aderissem e fazendo com que os eventos no ex-estado soviético entrassem na lista de tópicos populares, permitindo que gente de todo o mundo acompanhasse as manifestações.

Na noite de terça-feira, a sede do governo tinha sido duramente danificada e muitas pessoas tinham ficado feridas. Mas a polícia de choque tinha reconquistado controle dos escritórios da presidência e do Parlamento na quarta-feira.

Depois que centenas de testemunhos invadiram a internet via Twitter, os serviços de internet em Chisinau, a capital, foram abruptamente cortados.

por Vera Martins, no Twitter

O contexto desse protesto é o seguinte. No último domingo, o Partido Comunista da Moldávia obteve 50% dos votos para as eleições parlamentares, contra 12,75% do Partido Liberal, 12% dos Liberais Democratas e 10% a Aliança ‘Nossa Moldávia’. O Partido Comunista, inclusive, venceu as eleições presidenciais, logo após uma mudança constitucional que criava a eleição indireta para presidente – o que desfavoreceu o PC – mas a grande votação da população garantiu sua vitória.

Por um lado, isso mostra o descontentamento da população com a situação atual. Fato. Por outro lado, o PCM tem uma tradição muito mais stalinista do que marxista, como a maioria dos partidos comunistas do Leste Europeu – extremamente nacionalistas. Num contexto de privatizações escandalosas, como as que aconteceram no nosso governo FHC (piores na verdade), não é fácil imaginar porque o discurso ‘pegou’.

Avanço ou retrocesso para a população, veremos.

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Feios, sujos e malvados

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

Só porque moro no morro
A minha miséria a vocês despertou
A verdade é que vivo com fome
Nunca roubei ninguém, sou um trabalhador
Se há um assalto à banco
Como não podem prender o poderoso chefão
Aí os jornais vêm logo dizendo que aqui no morro só mora ladrão

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

Falar a verdade é crime
Porém eu assumo o que vou dizer
Como posso ser ladrão
Se eu não tenho nem o que comer
Não tenho curso superior
Nem o meu nome eu sei assinar
Onde foi se viu um pobre favelado
Com passaporte pra poder roubar

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

No morro ninguém tem mansão
Nem casa de campo pra veranear
Nem iate pra passeios marítimos
E nem avião particular
Somos vítimas de uma sociedade
Famigerada e cheia de malícias
No morro ninguém tem milhões de dólares
Depositados nos bancos da Suíça

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

(Vítimas da sociedade – Crioulo Doido e Bezerra da Silva)

A recente cobertura da grande mídia sobre as favelas cariocas tem me chamado à atenção. Pauta obrigatória e diária, as favelas aparecem ora como ameaça ecológica, ora como alvo de políticas públicas que são consideradas bem sucedidas e, nesta semana, como focos da violência que se expande pelo asfalto e assusta os moradores de bairros tradicionais da Zona Sul. Em todas as notícias, muitas mentiras são continuamente reiteradas, demonstrando, ao mesmo tempo, uma intenção ideológica clara de criminalizar a população favelada e defender soluções coercitivas para seu controle (vide as ocupações policiais do Dona Marta e da Cidade de Deus), bem como um olhar de classe média que informa a cobertura jornalística. Os repórteres e editores possuem um estranhamento tão profundo em relação ao mundo dessas populações que raramente aguçam ouvidos e olhos para perceber essas realidades sob outros ângulos. Desse modo, vários clichês são repetidos como verdades inquestionáveis.

A própria idéia de crime organizado deve ser vista com cuidado. Se existe crime organizado, certamente ele não está nas favelas. As facções são baseadas em alianças frágeis, muito dependentes do perfil dos “donos do morro”, autoridades sempre mais ou menos efêmeras que ditam as regras e definem o ambiente das comunidades. De acordo com isso, uma mesma favela pode ter um clima mais neurótico ou mais tranqüilo. Outros fatores também entram aí, como a ameaça de invasão policial ou miliciana ou mesmo de outra facção. Mesmo dentro de um mesmo comando, há rivalidades e invasões por grupos rivais que em geral são gestados dentro do próprio grupo que está no comando da favela invadida, por aqueles que são considerados “traíras”. Estes são movidos pela ambição de tomar o lugar do chefe. Essa instabilidade demonstra que o crime dentro das favelas está longe de ser organizado, ainda que existam hierarquias, regras, condutas que estruturam esses coletivos.

Organizada é a chegada da droga nas favelas. Recentemente, foi veiculado na imprensa que uma mesma organização vende a droga para facções rivais do Rio. Essas drogas chegam em fluxo contínuo e mesmo em períodos de “guerra” continuam a ser vendidas. Ao argumento de que o crime realmente organizado está fora das favelas, já que nelas não se produzem entorpecentes e nem armas, se responde com a denúncia da existência de um suposto laboratório de refino de cocaína na Rocinha, o que os moradores da localidade negam, e que na própria mídia aparece como sendo um local onde se mistura cocaína pura a farinha ou outras substâncias para ampliar os lucros de quem a vende. “Malhar” cocaína é bem diferente de refiná-la, processo complicado que, ao que parece, não é a especialidade brasileira na divisão do trabalho que apóia o comércio internacional da substância.

Organizada é a venda das armas que vão parar nas mãos daqueles que são responsáveis pelo varejo da droga. O arsenal que qualquer um que entra nas favelas onde há venda de drogas pode ver chega em parte pelas mãos das próprias forças estatais. Não são poucas as histórias de seqüestro de fuzis, com pedido de resgate para devolvê-los, feitos por aqueles que se dizem ao lado da lei. Organizada também é a produção dessas armas e a sua distribuição pelo mundo. Nenhuma das grandes armas que se vêm nas favelas: AR-15s, AKs, G3, etc são produzidas no Brasil. São empresas multinacionais, totalmente legalizadas, que fabricam essas armas massivamente, independentemente de seus países estarem ou não em guerra. Essas armas são fabricadas sem controle, em uma quantidade que, para tornar sua comercialização lucrativa, precisa de grandes e pequenas guerras sendo fomentadas cotidianamente no mundo. Nossa “guerra particular” é fundamental nisso e o proibicionismo em relação à venda e consumo de drogas é um combustível essencial. Mais armas pros comerciantes, mais armas para o Estado combater os comerciantes. Dinheiro que poderia ser investido na saúde, educação, cultura, emprego para de fato combater as causas da violência. Hoje o que se gasta para combater o comércio e o consumo das substâncias proibidas é mais do que se gastaria em saúde pública para tratar os drogadictos caso seu uso fosse liberado.

Organizada também é a entrada do dinheiro ilegal do tráfico internacional de drogas e armas no sistema financeiro. Os bancos, instituições financeiras do mundo “legal”, recebem esse dinheiro e ajudam assim a limpá-lo, permitindo que ele vá alimentar legalidades e ilegalidades que são parte de uma mesma coisa sob o capitalismo financeirizado. Dito de outra maneira, não é possível existir tráfico de drogas, seja o grande tráfico internacional seja o varejo das favelas, sem a conivência das instituições financeiras.

Isso demonstra o quanto é falsa e mistificadora a culpabilização dos usuários de drogas pela violência gerada pela presença e uso de armas de grosso calibre por toda a cidade. O consumo de maconha, por exemplo, é histórico entre as camadas populares de nossa cidade, compondo estilos de vida e assumindo sentidos culturais negados pelo proibicionismo. Quanto à classe média, tal consumo se difundiu sobretudo no esteio da contracultura, a princípio como contestação à sociedade de consumo e depois adquirindo novos significados, mas sempre com algum resquício de rebeldia. No caso dos chamados viciados, sobretudo em pó e crack, são pessoas que merecem tratamento, pois são portadores de uma doença que deve ser vista como problema de saúde pública e não como resultado de falhas de caráter. Dizer que esses são os vilões que estão por trás dos muitos tiros que foram trocados na esquina da Toneleiros com Santa Clara é uma maneira confortável de simplificar as coisas, desresponsabilizar o Estado e sua fracassada política de combate ao crime e obscurecer a importância daqueles que verdadeiramente lucram com essas “guerras” que aumentam a venda de armas e jornais.

Algumas perguntas ficam sem respostas. Por que por exemplo se elegem as favelas como o palco do combate ao comércio de drogas? Todos sabem que o comércio e consumo de substâncias ilegais correm soltos em boates freqüentadas pela classe média e classe média alta carioca e no entanto não existem registros de “operações” realizadas nessas localidades. Nem em condomínios de luxo onde se consomem drogas e que também invadem áreas de mata atlântica, poluem lagoas e mares numa escala muito mais ameaçadora do que os barracos das favelas. Por que os inimigos da sociedade foram eleitos entre aqueles para quem o comércio varejista de drogas é emprego, é alternativa de uma vida sem muitas alternativas? A grande maioria dos jovens que hoje empunham as armas nas favelas não têm acesso à educação de qualidade, à saúde, ao emprego digno, a equipamentos culturais públicos ou privados ( muitos jamais foram ao cinema, por exemplo). São esses os inimigos da sociedade?

Em meio a essas reflexões, lembrei de uma frase de Bertolt Brecht: “Aquele que desconhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e a chama de mentira é um criminoso.” Brechtianamente, cabe perguntar: De quantos crimes cotidianos é feito o combate ao crime no Rio de Janeiro?

Artigo escrito por Adriana Facina, antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

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