Fronteiras da corrupção

Por Eduardo Guimarães, do blog Cidadania.com

Julho de 2008, aeroporto internacional Simón Bolívar, cidade de Maiquetía, Venezuela. Depois de quase 10 horas de viagem desde São Paulo – viajei por uma companhia aérea panamenha, com escala em Panamá City, onde esperei quatro horas pela conexão para a Venezuela –, espero em pé na fila da imigração por quase uma hora.

Depois de legalizar minha entrada no país, só me resta a tarefa excruciante de passar minha bagagem pelo controle aduaneiro do aeroporto. Excruciante porque viajo sempre com uma bagagem volumosa, pois levo mostruário de meus produtos e catálogos, e o volume e o peso da bagagem sempre despertam atenção nas aduanas dos países que visito.

Algumas pessoas à minha frente na fila separam-me de um homem que cabe perfeitamente no estereótipo do “muambeiro”. Obeso, baixo, com um bigodinho que parece ter sido riscado,  entre seu nariz e boca, com um delineador de olhos feminino. Para completar, um Ray-Ban espelhado do modelo “caçador”.

A bagagem do homem condiz com sua aparência – é volumosa e pesada.

Como a fila anda lentamente, tenho tempo de assistir a cena do começo ao fim.

A bagagem do homem passa pela esteira de raio-x do controle aduaneiro do aeroporto e o funcionário faz um sinal para o fiscal da aduana venezuelana, que vem pedir ao “muambeiro” para que abra suas malas.

Para minha sorte, o conteúdo da bagagem do homem chama tanto a atenção que outros fiscais vão ver o que está acontecendo e consigo entrar no país sem passar pela cansativa fiscalização aduaneira, que remexe objetos pessoais, amassa roupas etc.

Quando já me dirijo à saída, passo pelo “muambeiro” e vejo o conteúdo de suas malas – só eletroeletrônicos, obviamente que destinados ao comércio. Deixo a área de desembarque, mas opto por ficar do lado de fora vendo, pelo vidro, o desfecho do caso. 

As malas do homem ficam próximas às máquinas de raio-x, sobre uma bancada, e ele acompanha um dos fiscais ao escritório da aduana. Imagino que irão autuá-lo, multá-lo por tentar entrar com mercadorias no país sem pagar impostos. Sei que o procedimento é demorado, porque já fui vítima dele em vários países por conta das bagagens que levo em minhas viagens de negócios.

Decido esperar alguns poucos minutos para saber se o “muambeiro” será autuado ou se dará um “jeitinho”. Como ele não fica nem dez minutos no escritório da autoridade aduaneira, fica claro que ele corrompeu os fiscais. Sobretudo quando vai à bancada onde estão suas malas e as tira de lá, colocando-as no carrinho e saindo tranquilamente pela porta de desembarque que eu acabara de cruzar.

“Pelo menos isso não acontece no Brasil”, penso eu.

Em seguida, vou trocar dólares por bolívares antes de começar minha peregrinação em busca de um táxi confiável – alguns táxis, nos aeroportos venezuelanos, e sobretudo no de Maiquetía, são dirigidos por bandidos que assaltam os passageiros.

Como vocês sabem, na Venezuela há controle do câmbio. As casas de câmbio dos aeroportos ou de qualquer parte só compram dólares, não vendem, porque é preciso autorização do governo para tanto, o que se tornou um pesadelo para a elite venezuelana, que, antes de Chávez, fazia a festa em termos de operações ilegais com remessas de divisas para fora do país.

Para trocar dólares por moeda local num porto ou aeroporto da Venezuela, você tem duas alternativas: trocá-las pelo câmbio oficial nas casas de câmbio autorizadas pelo governo ou com os cambistas, que trabalham em conluio, por exemplo, com as locadoras de veículos. Nos balcões dessas locadoras no aeroporto de Maiquetía, você diz à balconista que quer fazer câmbio e consegue vender a moeda americana pelo câmbio negro, que naquele país é ilegal.

Há uma tremenda corrupção ao menos nos aeroportos venezuelanos. Eu vi, ninguém me contou. Só vi coisa igual em Angola e no Paraguai.

A recente lei aprovada pelo Congresso venezuelano de controle dos portos e aeroportos é mais uma das medidas moralizadoras das instituições venezuelanas que estão por trás da grande grita da elite local contra o governo.  Além disso, não me parece que o governo central de um país controlar quem – e, acima de tudo, o quê – entra e sai daquele país, seja algum absurdo.

Absurdo é um governador de Estado dizer que irá resistir a uma lei federal claramente moralizadora de uma situação completamente escabrosa de corrupção escancarada nas fronteiras nacionais. Hugo Chávez está certíssimo ao mandar as forças armadas ocuparem portos e aeroportos e até prenderem governadores que se oponham à lei, pois certamente foram eles que facilitaram tudo que relatei.

posted by Thigo in Opinião and have No Comments

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

Place your comment

Please fill your data and comment below.
Name
Email
Website
Your comment