No último domingo o povo boliviano deu uma mostra suprema de sua cultura democrática ao aprovar por voto sua Constituição Política, pela primeira vez na história. De 8h às 18h, homens e mulheres se dirigiram as zonas eleitorais acompanhados de seus filhos e cachorros, transformando o domingo num dia de recreação, dado à tranqüilidade em que se encontravam as ruas em La Paz. Impedidos de circular, os transportes públicos deram lugar às bicicletas, skates e carrinhos de bonecas que acompanhavam às numerosas famílias que atravessavam alguns quarteirões da cidade altiplana indo ou vindo das urnas.
Nas escolas públicas do populoso bairro de São Pedro o que se viam eram pequenas filas bem ordenadas que fluíam rapidamente. Ao eleitor devidamente identificado e registrado naquela sessão e aos demais presentes o mesário apresentava a cédula aberta, demonstrando que não havia marcas prévias e a entregava ao cidadão que, em posse dela, se dirigia a um gabinete para marcar sua opção, após assinar ao lado de seu nome. Ao retornar, dirigia-se a urna e depositava o seu voto. Uma marca azul de tinta no dedo sacramentava o exercício cidadão, além de valer, tradicionalmente, como um mecanismo de controle para evitar dupla votação.

Eleitores votaram com tranquilidade em San Pedro, La Paz

Na metade do dia as organizações que enviaram um total de 311 observadores internacionais iniciaram a emissão de boletins confirmando o êxito da jornada eleitoral. “Presenciamos uma eleição exemplar, que mostra a extraordinária vocação dos bolivianos em submeter suas decisões políticas de acordo com a vontade popular”, registrou o relatório do Mercosul. OEA, Unasul, União Européia e o Consejo de Expertos Latinoamericanos emitiram comunicados com o mesmo teor. Logo mais, à noite, o presidente da Corte Nacional Eleitoral, José Luis Exeni, ratificou a posição dos organismos internacionais, garantindo a lisura do pleito.
Ainda assim, algumas emissoras privadas de TV, em seus programas sensacionalistas, insistiam em questionar a eficácia da tinta usada enquanto mecanismo de segurança. Repórteres desses canais insistiam em comprovar, usando baldes, detergentes e outros produtos químicos, que a tinta poderia ser lavável, como se fosse este o único controle contra fraudes eleitorais. A tentativa de desmoralizar a eficácia do sistema eleitoral por parte de alguns meios de comunicação foi objeto de crítica do chefe da delegação do Mercosul, deputado Doutor Rosinha (PT-PR).
O texto constitucional aprovado dará mais poderes aos povos indígenas, abrirá caminhos às autonomias regionais e consolidará o controle estatal sobre a economia. Os principais pontos da nova Carta consolidada por uma Assembléia Constituinte e impulsionada pelo presidente Evo Morales Ayma focam a questão religiosa, a estrutura dos três poderes e o tema fundiário. Após os anúncios dos primeiros resultados, o presidente declarou: “Hoje, 25 de janeiro de 2009, se refunda uma nova Bolívia, com igualdade de oportunidades para todos os bolivianos. Aqui se acabou o estado colonial”.

A festa da vitória na Praça Murillo, La Paz
De acordo com mineiro Primo Quilale, a vitória do SIM foi muito importante para a valorização dos trabalhadores: “Antes só se exportava nossa matéria prima. A nova Constituição nos dá uma luz de que vamos agregar valor aqui, criar empregos e aportar mais recursos”, disse durante a comemoração, na Praça Murillo, onde milhares de pessoas dançavam, cantavam e sacudiam suas bandeiras whipalas.
Mas nem tudo são flores. Nos departamentos de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, onde o a nova Constituição foi rechaçada, os líderes da direita conclamaram o povo a não aceitar o resultado nacional e sua aplicação nessa região. Historicamente administrada pela elite, pelo agronegócio e grandes empresários, essa região concentra grande quantidade de latifúndios. No texto constitucional aprovado as terras privadas deverão ter no máximo 5 mil hectares. No entanto, a aplicação não será retroativa, ou seja, os antigos latifundiários não serão atingidos – apesar de, a partir de agora, terem que garantir o cumprimento permanente da função econômica e social da terra sob a pena de expropriação.
No momento, o que está na cabeça do povo é a pergunta: como será o amanhã? A plena implementação da nova constituição em todo território boliviano dependerá da correlação de forças que for estabelecida entre o governo e a oposição, sendo que ninguém arrisca um prognóstico a esta altura. O que se diz, hoje, na Bolívia, é que tudo pode acontecer. Mas independentemente destes questionamentos, o povo agora quer saber de comemorar.
Texto por Fernanda Chaves, correspondente do jornal Brasil de Fato em La Paz (Bolívia).