Por Mauro Santayana.
Cento e quinze militares norte-americanos, em serviço no Iraque, suicidaram-se no ano passado. Neste ano, até 31 de agosto, foram 62, e há mais 31 casos sob análise. É comum que os suicidas, a fim de preservar o seguro de vida para seus familiares, dissimulem o ato, fazendo-o passar como acidente.
Os volumosos estudos sobre o suicídio (até mesmo o jovem Marx se dedicou ao assunto, ao examinar relatórios policiais de Paris) mostram que é raro o caso em que as causas estejam nas glândulas ou neurônios da pessoa. Elas se devem, quase sempre, aos constrangimentos impostos pela sociedade, que levam à depressão, à humilhação, à vergonha: o suicida se mata por não suportar o meio em que vive. Daí a observação de Chesterton, de que o suicida, ao matar-se, mata o mundo. Em The living room, peça recebida com violência pela crítica britânica, em 1952, Graham Greene discute o tema do pecado e do suicídio. A mensagem moral, que contraria a teologia católica, é a de que, em determinadas situações (no caso, um triângulo amoroso), o suicídio é a única saída para a expiação do sentimento de culpa. Também ali, a heroína se encontrava prisioneira das circunstâncias – em seu caso, as do afeto proibido.
E há os que se matam para não matar. Esse parece ser o caso de mais de 600 militares norte-americanos que se mataram, nos últimos cinco anos, em conseqüência da aventura de Bush, do Pentágono e de Wall Street no Oriente Médio. Há o caso exemplar do coronel Theodore Westhusing, que se matou no dia 5 de junho de 2005, no Iraque. Westhusing era professor de filosofia e especialista em ética militar. Em 2004, convencido de que a guerra era justa, ofereceu-se como voluntário. Com seu curriculum acadêmico e folha de serviços, foi trabalhar diretamente com o alto comando americano, junto ao general David Petraeus, que o encarregou de supervisionar o treinamento de tropas iraquianas para operações especiais anti-terroristas, pela firma privada US Investigation Services.
O coronel descobriu que a empresa cobrava 77 milhões de dólares ao ano e sua única despesa era a do pagamento de 7.500 dólares mensais a cada um dos 15 mercenários israelenses contratados para a tarefa, ou seja, menos de 1.700 mil dólares ao ano, se, por hipótese, receberem 15 salários anuais. Era um caso sujo de corrupção. Mais ainda: observou que poucos trabalhavam, mas se encarregavam de matar civis iraquianos indiscriminadamente.
O coronel denunciou o fato a seus superiores, entre eles o general Petraus, que não lhe deram resposta. Sua última carta aos chefes foi precisa: “Não posso ser parte de uma missão que entranha a corrupção, o abuso dos direitos humanos e a mentira. Chega. Não decidi, voluntariamente, vir ao Iraque para servir de apoio à corrupção, aos mercenários ávidos de dinheiro, aos comandantes interessados apenas em si mesmos. Vim para servir com honra, e me sinto desonrado”.
A guerra pode brutalizar as pessoas – o que ocorre com mais freqüência – ou lhes despertar a consciência humanística mais profunda. Matar em defesa da pátria é um dever que alguns cumprem com angústia. Matar a serviço de interesses econômicos de grandes corporações é outra coisa, conforme as ácidas reflexões dos personagens de Remarque em Nada de novo no front ocidental. Em uma de suas cartas, Lawrence da Arábia narra profundo remorso por ter matado, pessoalmente, um jovem árabe. Confessa que o fez sem necessidade, e descobriu, ao guardar a pistola no coldre, que se estava desumanizando. O mesmo herói, voltando à sua aldeia britânica, desviou abruptamente a motocicleta que montava, para não atingir um menino em sua bicicleta. Perdeu a consciência, para morrer seis dias depois.
Talvez não haja sociedade contemporânea mais alienada do que a norte-americana, embarcada na ilusão do poder sem limites. Mesmo assim, ela descobre, de vez em quando, que seus jovens estão morrendo para que os bilionários continuem usufruindo das riquezas do mundo e de sua arrogância. Isso ocorreu na época do Vietnã, e começa a ocorrer agora, com as manifestações de Saint Paul, na Minnesota, contra a guerra do Iraque e McCain, que a defende. Os suicidas do Iraque (e do Afeganistão) são também mártires dessa resistência contra o desatino americano.