Juliano Domingues, de São Paulo (da Radiogência NP)
O Brasil carece de um projeto para o desenvolvimento do esporte no país. A conclusão aparece após a análise da atuação do país nas Olimpíadas de Pequim e do desempenho brasileiro nas várias modalidades esportivas em que disputou medalhas.
O jornalista Juca Kfouri compartilha da idéia de que é preciso um projeto de desenvolvimento do esporte. No entanto, ele cita a necessidade de se vincular este projeto à visão de bem estar, saúde pública e educação.
Em entrevista à Radioagência NP, ele critica atuação do país em Pequim, mas não por causa do número de medalhas conquistadas. Muito pelo contrário, Juca acredita que cada medalha ganha, afasta o país deste ideal de estabelecimento de um projeto cidadão de desenvolvimento do esporte.
Radioagência NP: As Olimpíadas podem servir como ferramenta para medir o desempenho do esporte no Brasil?
Juca Kfouri: Depende do que você valoriza. Eu tenho a teoria de que cada medalha do Brasil apenas torna mais distante a meta de que o país tenha uma verdadeira política esportiva, porque [com cada medalha] fica todo mundo eufórico e isso esconde todas as nossas carências. O Brasil é um país que pelas suas carências em saúde pública, lazer e educação, não tem o direito de almejar ser uma potência olímpica.
O Brasil tem que pensar em esporte como fator de inclusão social, como fator de educação e saúde pública. Segundo a Organização Mundial de Saúde [OMS], cada dólar investido em esporte economiza três em saúde. Feito isso você estabelece uma política esportiva. O que nós temos que fazer primeiro é cumprir o que está na Constituição. Ou seja, é dever do Estado prover esporte para o cidadão.
Existe essa confusão em analisar o que existe por trás de uma medalha na olimpíada. Um exemplo foi a vitória do nadador César Cielo. Ele viveu uma realidade diferente da maioria dos esportistas brasileiros, ou não?
Ele na verdade é um nadador dos EUA [que nasceu no Brasil]. Tanto é verdade que você pega o caso do Thiago Pereira que foi o grande nadador dos Jogos Panamericanos, e ele não tem a menor condição de lutar por uma medalha [nas Olimpíadas], mas ele treinou aqui esse tempo todo. Ao passo que o Cielo nadava todo final de semana ao lado do Michael Phelps. Então ele [Cielo] não tem nada a ver com o esporte brasileiro, assim como o Guga [tenista]. O que era o Guga? Por acaso ele é fruto de uma política para o esporte brasileiro? Não, o Guga é fruto de si mesmo. É um fenômeno da natureza.
Eu acho que a visão cidadã da prática esportiva no Brasil é antes de tudo ver as nossas crianças se exercitando nas suas comunidades. Os dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] mostram que apenas 12% das escolas municipais possuem quadras esportivas e isso não significa que elas tenham professor de educação física. Então veja você se faz sentido a gente ficar discutindo número de medalhas.
Logo após as Olimpíadas, o ministro dos esportes, Orlando Silva, tornou a falar em leis de incentivo para esporte. Mas isso é complicado porque delega para empresas privadas a tarefa de investir, fato que gera a concentração de recursos nas instituições que têm mais visibilidade. Fale sobre isso um pouco.
Isso é oficial. Pegue aí quem mais se beneficiou da lei de incentivo do esporte até hoje. Pela ordem, São Paulo Futebol Clube, para terminar o seu segundo centro de treinamento em Cotia (SP), depois o Minas Tênis Clube, também para obras do seu alojamento e afins.
Veja que eu não tenho nada contra o fato de que quem esteja trabalhando direito, seja devidamente incentivado. Mas o que eu quero dizer é que não pode ser prioritariamente o São Paulo a receber dinheiro de incentivo e não o grupo escolar de um lugar qualquer. É essa a inversão de valores que faz com que tenha recursos aquele que conhece o “caminho das pedras”, que tem o melhor despachante e que também tem o cara que o ministro do esporte ou presidente da república recebe.
No Brasil há uma visão do esporte como ferramenta para afastar a infância da criminalidade. Isso não é meio incompleto? Pois foca a atividade apenas numa época da vida da pessoa, como uma ferramenta paliativa pra solução de problemas e sem perspectivas de profissionalização futura.
Tem uma grande demagogia aí que é você dizer que dando esporte, as pessoas se afastam das drogas. Seria desejável que realmente fosse assim. É evidente que quem se preocupa mais com o corpo, tende menos a se drogar, mas ao mesmo tempo a gente não pode se negar em dizer que o esporte de competição e de alto rendimento, não só não faz bem pra saúde, porque exige demais do corpo, como são inúmeros os casos de grandes campeões, que exatamente por terem sido grandes campeões, acabam se drogando pra sustentar suas cabeças que não foram preparadas pra isso. Isso sem falar no dopping, que é uma maneira de se drogar. Então esse discurso tem uma certa falsidade.
O reitor da Universidade Federal de São Paulo, Ulysses Fagundes Neto, decidiu ontem que apresentará na próxima quarta-feira, em reunião do Conselho Universitário da instituição, sua carta-renúncia ao cargo.
TCU aponta viagens irregulares de reitor da Unifesp, Ulysses Fagundes Neto. A renúncia, em caráter irrevogável, foi decidida depois da divulgação na edição da Folha de hoje, de relatório elaborado pela Secretaria de Controle Externo do Estado de São Paulo, do TCU (Tribunal de Contas da União), sobre irregularidades nos gastos de viagem do reitor, entre 2006 e 2007.
Segundo a equipe de inspeção do TCU, Fagundes Neto usou irregularmente recursos do Estado para pagamento de itens de consumo de luxo, cometeu desvio de finalidade, burla ao regime de dedicação exclusiva, realizou viagens não autorizadas ou com prazo superior ao estritamente necessário. Os fiscais propõem a devolução de R$ 229.550,06 aos cofres públicos.
Às 12h53 de hoje, a secretária do Conselho Universitário Diva R. S. Martins enviou e-mail para todos os membros do colegiado, convocando a reunião de quarta-feira, marcada para as 8h, no anfiteatro Leitão da Cunha, no campus da Unifesp (Vila Mariana, zona sul de São Paulo). Como único ponto da pauta, a secretária escreveu: “carta-renúncia do sr. Reitor”.
A assessoria de imprensa da Unifesp afirmou à reportagem da Folha que o reitor ainda não entregou o texto da carta, e que deve fazê-lo apenas no dia da reunião.
Os estudantes organizados no DCE da Unifesp planejavam para o final da tarde a realização de um acampamento em frente à reitoria, como forma de protestar contra “todas as improbidades, além de todo o conjunto de descontroles e irregularidades (…) nas contas da instituição”.
A renúncia na Unifesp é a segunda baixa entre reitores flagrados usando irregularmente cartões de crédito corporativos. A primeira abateu o reitor da UnB (Universidade de Brasília), Timothy Mulholand, no dia 14 de abril.
LAURA CAPRIGLIONE da Folha de São Paulo
A favela nunca foi reduto de marginal
A favela nunca foi reduto de marginal
Ela só tem gente humilde marginalizada
e essa verdade não sai no jornal
A favela é um problema social
A favela é um problema social
Sim mas eu sou favela
Posso falar de cadeira
Minha gente é trabalhadeira
Nunca teve assistência social
Ela só vive lá
Porque para o pobre, não tem outro jeito
Apenas só tem o direito
A um salário de fome e uma vida normal.
A favela é um problema social
A favela é um problema social
Música de Sergio Mosca e Noca da Portela. Artigo escrito pela Antropóloga Adriana Facina
Outro dia eu estava no morro de São Carlos fazendo umas entrevistas com MCs e, enquanto caminhávamos pelas ruas e vielas, iniciei uma conversa com uma senhora que nos acompanhava. Ela é mãe de um casal de MCs muito populares no lugar e, nas suas palavras, é “cria do São Carlos com muito orgulho”.
Cria é uma gíria muito usada nas favelas para designar aquelas pessoas nascidas e criadas nas comunidades e, geralmente, é um termo que vem carregado de um sentido de identidade positiva. Os crias são pessoas que se orgulham da sua origem e, quando ganham projeção como artistas ou outra atividade valorizada, se tornam também motivo de orgulho de toda a favela.
Sempre que visito as favelas, alguém se encarrega de me dizer quais são os crias mais importantes daquela região, em geral jogadores de futebol, músicos, compositores etc. Esses crias são, assim, uma espécie de cartão de visitas das favelas, uma prova concreta para quem vem de fora de que ali não há somente miséria, violência ou carências.
Mãe de dez filhos, a senhora me falava de como o morro era um lugar bom de se morar, já que todo mundo se conhecia e fazia comparações com a vida das pessoas que moram em prédios de apartamentos no asfalto, nos quais os vizinhos mal se falam e não sabem nem os nomes uns dos outros. Eu ia ouvindo e concordando, mas caí na besteira de falar uma frase do tipo “só é ruim a violência policial, né?”.
Acostumada com a estigmatização que atinge a população favelada, imediatamente a cria do São Carlos reagiu: “não, aqui não tem violência não, é mais calmo do que lá embaixo. O pessoal daqui é trabalhador em sua maioria.” Ela entendeu que eu tava dizendo que a favela é um lugar violento, associado ao tráfico.
Eu, aflita, tentei me explicar, dizendo que a polícia é que era violenta e mais ainda nas favelas. Ela compreendeu, mas, durante todo o tempo em que permaneci no morro, sempre fazia uma ou outra menção sobre as vantagens de se morar ali e sobre a tranqüilidade da comunidade. “Aqui você pode dormir de janela aberta e ninguém fecha as portas. Ninguém rouba nada de ninguém.”
Esse tipo de situação, de modo mais sutil, sempre se repete nas minhas visitas a essas áreas da cidade. Ao mesmo tempo, é visível a satisfação das pessoas ao perceberem que quem vem do asfalto está “tranqüilona” no morro, o que quer dizer que se está ali sem medo, mesmo quando se cruza com varejistas armados. É sempre um dos “testes”: passou o “bonde”, todos se preocupam com sua reação, se você vai ficar com medo, se vai querer ir embora, o que vai achar da comunidade.
Vendo isso de perto, percebo o quanto são ofensivas as matérias dos jornais que todos os dias reforçam a equação favela = lugar de bandido, logo corpo no chão na favela = traficante. Além de justificarem a política cotidiana de extermínio de pobres, elas têm uma dimensão mais profunda e subjetiva, que atinge a auto-estima das pessoas, suas identidades, sua maneira de se entender no mundo. Daí a necessidade de reafirmar o tempo inteiro para quem vem de fora as coisas boas da favela e, sobretudo, a integridade de seus habitantes. “O morrão é tranqüilão.” “Quem vem na Rocinha logo se apaixona pela comunidade e quer sempre voltar.” “O Borel é celeiro de artistas.” “O morro é isso aqui que você tá vendo, essa tranqüilidade, criança soltando pipa, o que estraga é o que vem de fora, a polícia, é só deixarem a gente em paz que fica tudo bem.” E por aí vai.
A contraface disso são as afirmações do asfalto que ouço quando falo do meu trabalho, do tipo “poxa, como você é corajosa!” ou então “você é maluca!”. Parece que o estrago está feito: transformadas em gueto, as favelas ficam mais sujeitas aos planos colômbias que impõem repressão brutal e caos aos de baixo, sob o pretexto do combate à criminalidade (ou tráfico, ou mesmo terrorismo, dependendo do contexto). No imaginário social, o traficante que ameaça a boa sociedade é um jovem preto, magro, favelado, portando um fuzil. E isso é muito grave, pois muita gente de tradição progressista se exime de criticar de forma mais consistente a política de insegurança pública em curso porque, afinal de contas, “alguma coisa tem de ser feita”.
E, se essa “alguma coisa” inclui deixar corpos estendidos no chão das favelas, existe sempre a justificativa dos excessos, do despreparo da polícia ou qualquer outro termo que apresente como acidental aquilo que é pensado para ser exatamente o que é. E é nesse vácuo que crescem Crivellas com seus cimentos sociais manchados com o sangue dos garotos da Providência, na sinistra aliança entre o tráfico e a seita com quem os patrões estão “fechados”.
Numa das conversas com MCs, dessa vez na Rocinha, surgiu uma imagem sobre essa separação entre asfalto e favela. Alguém falava sobre as dificuldades de quem mora no alto do morro, subir com compras, essa coisa toda. Num tom jocoso, outra pessoa disse: “poxa, pelo menos vai ser bom quando o nível do mar subir e inundar tudo. Só vai ficar favela no Rio de Janeiro.” Aí eu lembrei daquele filme, ‘O dia depois de amanhã’, no qual mudanças climáticas radicais fazem com que os americanos fujam em massa para o México, invertendo o sentido do fluxo migratório que hoje é alvo de uma política altamente repressiva do governo dos EUA.
No filme, os mexicanos, ao contrário dos seus irmãos do Norte, recebem de braços abertos os imigrantes. Todos rimos muito, mas, num tom sério, meu amigo MC Junior falou: “pois aqui o pessoal do asfalto seria muito bem recebido também, você pode ter certeza disso.” Eu não duvidei.