Farcs confirmam morte de seu líder máximo, Mário Marulanda

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) confirmaram neste domingo (25) a morte de Manuel Marulanda, um dos fundadores da guerrilha e seu líder máximo. “O grande líder se foi”, informaram as Farc em comunicado, destacando também que Alfonso Cano, considerado o atual dirigente ideológico da guerrilha, vai assumir o comando.

Marulanda foi vítima de um ataque do coração, no dia 26 de março, aos 77 anos. É a terceira grande perda seguida na cúpula das Farc — apenas em 2008, já morreram o número 2 da guerrilha, Raúl Reyes, em ataque colombiano em território equatoriano, e Iván Rios, assassinado por seu próprio segurança.

A informação da morte de Marulanda havia sido adiantada pelo governo colombiano. “Manuel Marulanda, principal líder das Farc, está morto”, informou no sábado um comunicado do governo colombiano, confirmando a informação dada pelo ministro de Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, à revista Semana. Santos havia afirmado que as autoridades ainda estavam checando a informação, recebida de uma fonte que ”nunca falhou”. Marulanda teria completado 78 anos em 12 de maio.

No texto oficial, o Ministério da Defesa diz que a causa da morte do guerrilheiro ainda estava sendo investigada. Em sua entrevista, Santos afirmou que Marulanda teria morrido de ataque cardíaco ou após um bombardeio do Exército. O almirante David Moreno — que leu o comunicado — disse, que no dia da morte de Marulanda, forças do Exército bombardearam a região de Meta, onde o guerrilheiro estaria escondido na época.

A princípio, o site da Anncol (Agência de Notícias Nova Colômbia), que tradicionalmente publica comunicados das Farc, disse não ter recebido nenhum informe da “única fonte verdadeira” — o secretariado da guerrilha. “Mas, se (Marulanda) morreu, sua passagem não terá sido estéril pela pátria grande de (Simón) Bolívar, à diferença de outros, que nem serão recordados”, dizia a nota da Anncol, sobre o anúncio feito por Santos.

Quem foi Marulanda

Pedro Antonio Marin — conhecido como Manuel Marulanda Vélez ou Tirofijo (tiro certeiro, em espanhol) — nasceu em 12 de maio de 1930 em Génova, departamento de Quindío. Antes de deixar o povoado, ”expulso pela violência”, foi açougueiro e lenhador. Segundo alguns de seus biógrafos, ganhou o apelido de Tirofijo pela boa pontaria — dizia-se que, ”onde punha o olho, punha a bala”.

Sua vida ficou profundamente marcada pelo assassinato, em 1948, do líder do Partido Liberal, Jorge Eliécer Gaitán. Marulanda passou a ser perseguido pelo governo de Ospina Pérez. Desde essa época, viveu foragido. O batismo de fogo como guerrilheiro teve lugar em setembro do ano seguinte — quando, acompanhado de vários irmãos e primos, atacou seu povoado natal após um ataque frustrado da polícia. Passou, então, a organizar grupos de resistência nas montanhas da região, onde ainda se escondia.

Nos anos 60, com Luis Alberto Morantes, foi um dos fundadores, das Farc, depois que o Exército colombiano desfechou uma grande operação para desmantelar a “República de Marquetalia” — um enclave rural no centro do país mantido por grupos armados de ideologia próxima ao comunismo agrário. O dia 27 de maio de 1964 é considerado a data oficial do nascimento da guerrilha de esquerda, que se estendeu a boa parte do país.

Assim como Marquetalia, outros enclaves se formaram na Colômbia durante o período conhecido como “La Violência”, de 1948 a 1958, quando os dois principais partidos do país — o Conservador e o Liberal — formaram milícias e se envolveram em sangrentos confrontos armados.  Com a trégua entre as duas forças, os militares decidiram pôr fim aos redutos, obrigando Marulanda e seus aliados comunistas a se refugiarem nas montanhas.

Até 1966, as Farc eram conhecidas apenas pelo nome de ”Bloco Sul”. Seu crescimento foi modesto entre 1974 e 1982, centrado sobretudo nas zonas camponesas distantes dos grandes centros urbanos. No período, seu contingente era estimado em até 15 mil homens, espalhado por todas as partes da Colômbia e ameaçando o poder central.

Mudança de tática

O governo de Belisario Betancur (1982-86) promoveu uma ampla negociação de paz que terminou por incluir os guerrilheiros das Farc no cenário político legal do país, ao lado de outros grupos de esquerda, sob a legenda da União Patriótica (UP). Fracassadas as negociações com o governo, o grupo se estendeu a outras regiões da selva amazônica e do planalto colombiano.

A UP e a trégua na política colombiana acabou com a campanha de assassinatos — por parte de paramilitares —, que custou a vida de um número estimado de 3 mil membros do partido. Marulanda ordenou o reagrupamento das Farc, que iniciaram ofensivas maciças em todo o interior da Colômbia. Intensificaram-se os seqüestros de policiais e soldados, assim como atentados a políticos e incursões a cidades e vilas inteiras. Em quase quatro décadas, estima-se que o conflito civil no país tenha deixado mais de 30 mil mortos.

Uma nova tentativa de paz surgiu em 2001, quando o presidente Andrés Pastrana ordenou a desmilitarização de uma área equivalente à da França no sudoeste do país para servir de sede para negociações com as Farc. Marulanda fez, então, a maior parte de suas raras aparições públicas. No entanto, a iniciativa novamente não prosperou.

Desde os anos 80, Marulanda manteve, ao mesmo tempo, a influência sobre os comandantes da guerrilha e a conduta pessoal discreta. Alguns dos companheiros destacam sua aparência de “camponês bonachão”. Para muitos analistas, o carisma que levou Marulanda à máxima liderança da guerrilha decorria da capacidade de conciliar posições entre a ala política e o braço militar do “secretariado” (a instância administrativa) das Farc.

Retirado do site Vermelho.org

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