
POR PEDRO SARAIVA
Retirado do site do Azenha: http://www.viomundo.com.br/
Caro Azenha, sou médico clínico geral e nefrologista formado pela UFRJ. Sou seu leitor assíduo, e resolvi escrever-lhe para ver se pelo aqui, no seu blog, um médico consegue espaço para falar sobre essa histeria que envolve a febre amarela.
A cobertura da grande imprensa parece que não consegue chegar ao fundo do poço. Depois de inúmeros factóides e de acusar o presidente até de derrubar aviões comerciais, eles agora aparecem com essa irresponsabilidade de criar pânico na população através de um problema de saúde pública. Tive acesso a um texto da jornalista da Folha, Eliane Cantanhêde (que aliás, parece ser casada com um dos donos de uma produtora ligada as campanhas eleitorais do PSDB), que dizia o seguinte logo no primeiro parágrafo:
“Com sua licença, vou usar este espaço para fazer um apelo para você que mora no Brasil, não importa onde: vacine-se contra a febre amarela! Não deixe para amanhã, depois, semana que vem… Vacine-se logo! ”
E depois de alguns parágrafos em que não esclarece nada, termina assim:
“O fantasma da febre amarela, portanto, paira sobre o país como um alerta num momento crucial, para que a saúde e a educação sejam preservadas antes de tudo o mais. Senão, Lula, o aedes aegypti vem, pica e mata sabe-se lá quantos neste ano –e nos seguintes. ”
ABSURDO! ESTÃO USANDO A SAÚDE PÚBLICA PARA POLITICAGEM BARATA!
Alguns esclarecimentos:
Colunistas falam de epidemia com uma facilidade incrível para quem não entende o que quer dizer o termo. Epidemia não é o aparecimento de casos de uma doença no jornal. Uma epidemia só se caracteriza quando ocorre um aumento maior que 2x o desvio padrão sobre a incidência média de uma doença nos últimos anos.
Ou seja: Incidência média + 2x desvio padrão.
Nos últimos três meses estamos vendo Manchetes alarmistas por toda a parte. Primeiro sobre a suposta reeleição de Lula, que o mesmo desmentiu e a mídia ignorou o fato. Depois de um tempo eis que surge um “novo risco de apagão”, ignorando que houve, nos últimos anos, forte preocupação em evitar que se repetisse o racionamento de energia do fim do governo FHC. Hidrelétricas, termelétricas e redes de transmissão do sul-sudeste foram estendidas ao norte-nordeste, causando impactos ambientais ou não, não vem ao caso agora.
Agora, logo no começo de ano, após longos discursos no ano no passado de que a CPMF aumentava o preço da cesta básica, a própria mídia anuncia uma “explosão da inflação”. Pura hipocrisia. É normal, em qualquer país do mundo, alguns produtos terem altas fortes de preço, que são contrabalançadas pela estagnação ou baixa de outros preços. Alguns alimentos subiram de preço, outros baixaram. E o mesmo acontece com todos os preços da economia. A inflação está controlada. Não há nenhum indício de explosão inflacionária, o índice geral de inflação está abaixo do esperado pelo governo. O que a mídia fez foi selecionar os preços que subiram e ignorar os que baixaram ou que não subiram.
Mais recentemente, vimos manchetes de jornais, telejornais e sites causando pânico ao “avisarem” a população sobre uma absurda “epidemia” de febre amarela no Brasil. Uma dessas manchetes relatava a “primeira morte” em São Paulo, outra uma “primeira morte” em Goiás. No caso de São Paulo, só lendo a reportagem é que se podia descobrir que a pessoa que morreu aqui contraiu a febre no Mato Grosso do Sul.
No UOL, a “jornalista” Eliane Cantanhêde, em coluna intitulada “Alerta amarelo!”, exorta as pessoas a correrem para tomar vacina contra febre amarela. O tom do texto é alarmista. Diz assim:
“Vacine-se contra a febre amarela! Não deixe para amanhã, depois, semana que vem… Vacine-se logo! Senão, Lula, o aedes aegypti vem, pica e mata sabe-se lá quantos neste ano –e nos seguintes.”
Lula é o “aedes aegypti”. No mínimo engraçado.
Como eu havia previsto que ela faria, a mídia corporativa conservadora de direita, alinhada automaticamente a Washington, está tentando transformar num limão a limonada da intermediação de Hugo Chávez que permitiu a libertação de reféns da guerrilha colombiana (as Farc).
Chávez, que não retrocede um milímetro em suas idéias nem que seja para faturar politicamente, abandonou o confortável silêncio em que poderia ter-se encerrado depois da vitória política que conseguiu com a libertação das reféns e pediu ao mundo que deixe de qualificar as Farc como grupos terroristas.
Prato cheio para a mídia. Logo começaram a pulular considerações de penas-pagas (em dólares?) da imprensa lembrando dos maus tratos e dos seqüestros praticados pela guerrilha colombiana dizendo que Chávez estaria defendendo “delinqüentes”.
Nada a favor das Farc. Estive na Colômbia em outubro do ano passado e passei um aperto durante uma inadvertida viagem de ônibus que fiz entre Bogotá e Bucaramanga. O veículo foi parado pela guerrilha no meio do caminho para ser “inspecionado”. Não sei o que os guerrilheiros buscavam, mas disseram-me – e eu acreditei – que eram estrangeiros, que “apeteceriam” à guerrilha porque podem ser usados para negociar com o governo colombiano.