NYT: Álcool de milho provoca inflação

Milharal

Quando Fidel Castro escreveu que a produção de biocombustíveis poderia provocar escassez e aumento nos preços dos alimentos, o mundo veio abaixo. Mas o velhinho estava certo. Os preços estão subindo nos Estados Unidos. A produção de álcool a partir do milho é apontada como um dos fatores. Quem diz não é comunista.

É o colunista Ben Stein, advogado, ator, escritor e economista que escreveu o seguinte artigo, publicado no caderno de negócios do New York Times:

“Larry, Curly, Moe e a Economia

Agora algumas notas sobre a economia, que você pode digerir com suas fibras e torradas inglesas. Claramente, a economia está desaquecendo. A imensa queda no setor de construção civil, a redução dos empréstimos, a queda das vendas no varejo, o humor geral do país – multiplicado pelo medo incutido pela mídia – estão causando danos. Houve um avanço notável do desemprego, embora a taxa de emprego ainda esteja alta se comparada a números históricos. As hipotecas cresceram muito, mas atingem uma pequena fatia de todas as casas financiadas.

Os bancos demonstram que estão relutantes para emprestar, o que deixa os mercados com medo. A bolsa de valores está bem abaixo do que estava seis meses atrás. O ganho em relação ao investimento ainda é grande em termos históricos, mas tem caído. Temos uma situação que pede medidas altamente estimuladoras do Banco Central. Elas devem envolver a redução da taxa de juros cobrado dos bancos para empréstimos, assim como o aumento da liquidez. Ajuda parece a caminho, mas não basta. Por favor deixem-me dizer por que ainda temos uma curva pela frente.

O problema – de acordo com o que o Banco Central percebeu na semana passada – é que também há sinais de inflação. Existem sinais de inflação especialmente nos preços do petróleo.

Até a semana passada o Banco Central parecia relutante em facilitar o crédito tanto quanto muitos queriam, por medo de estimular a demanda e causar inflação. Há um consenso agora de que a inflação vem da demanda. Assim, por definição, já que grande parte do aumento de preços vem de aumentos do petróleo, é possível concluir que o Banco Central considera que há excesso de demanda por petróleo.

Um mês atrás, o Banco Central reduziu a taxa de juros em apenas 0,25%, em vez de 0,5% – o que muitos esperavam. O Banco Central parece ter cometido um grande erro sobre o petróleo e a demanda agregada na última reunião – por várias razões.

Em primeiro lugar, aqueles que aumentam a demanda por petróleo não estão sob controle do Banco Central. A China, a Índia e outros nações em desenvolvimento são responsáveis pela maior parte do aumento da demanda. O Banco Central não tem o poder de reduzí-la em países em desenvolvimento, a não ser de uma forma muito indireta.

Em outras palavras, punir a economia dos Estados Unidos por causa dos altos preços de petróleo é atacar o culpado errado. É como num filme dos Três Patetas, em que a pessoa errada é continuamente acertada na cabeça.

Em segundo lugar, a demanda por petróleo é baseada no clima desta época do ano. E o Banco Central tem controle zero sobre isso – além disso, a maioria das pessoas vai esquentar suas casas mesmo que estivermos em recessão. Assim, esse aspecto inflacionário vai continuar enquanto estiver frio mas vai diminuir quando o clima aquecer.

Em terceiro lugar, os preços de alimentos também são uma fonte de inflação. Esses preços estão aumentando principalmente por causa da política altamente questionável do governo de forçar a produção de uma grande quantidade de etanol para uso como combustível. O uso de milho é tão grande que sobra pouco para alimentar os animais. Isso empurra para cima o preço da ração e faz com que o consumidor pague mais caro pela comida

É extremamente questionável se essa é uma política boa. Etanol, a essa altura, é para muitos um perdedor de energia, já que algumas vezes produzir um galão de etanol gasta mais energia do que a energia gerada por um galão do produto. Também se acredita que é menos eficiente do que a gasolina para abastecer veículos. Por outro lado, os fãs do etanol rebatem esses argumentos dizendo que, com novas tecnologias, o combustível se tornará mais eficiente. Mas, por agora, qual é o motivo para tirar terra que produz alimentos para produzir combustível que contribui tão pouco para a conservação de energia?

Quaisquer que sejam os benefícios do etanol, o fato é que o produto está tomando muita terra e que é um grande fator inflacionário – o Banco Central pouco pode fazer sobre esses efeitos.

Em resumo, o Banco Central não está estimulando a economia suficientemente por medo de inflação causada pelo preço do petróleo. Mas deveria se preocupar mais com o crédito e o crescimento. É por isso que os comentários de Ben S. Bernanke, o chairman do Banco Central, na semana passada, deixaram a porta aberta. Mas Bernanke não deixou a porta suficientemente aberta.

O Banco Central está bem antes da curva. Há um medo de solvência no mercado – um medo de emprestar, mesmo com taxas vantajosas. O Banco Central precisa agir de forma decisiva para acalmar os credores. Isso pode ser feito até mesmo através de legislação que permita ao Banco Central comprar ações dos grandes bancos temporariamente. Os bancos já são altamente socializados através do seguro de depósito federal. Acrescentar capital do governo não seria um passo tão grande. Que o Banco Central se concentre no estímulo. Aconteça o que acontecer, vamos superar tudo isso, mas qual é o motivo de tornar o processo mais doloroso do que precisa ser?”

Retirado de:
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/alcool-de-milho-provoca-inflacao-diz-colunista/

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